03.07.2008
Escolhendo o ambiente

Talvez seja bom para um meditador iniciante deixar a cidade e ir para o campo, pois lá será mais fácil fechar as janelas que perturbariam seu espírito se fossem deixadas abertas. Lá ele pode tornar-se um com a floresta tranqüila e se redescobrir e se revigorar, sem ser arrebatado pelo caos do “mundo exterior”. A floresta refrescante e silenciosa o ajudará a permanecer consciente. Quando a consciência estiver bem fixada, você poderá sustentá-la sem vacilar, e depois talvez queira voltar à cidade e permanecer lá, menos perturbado. Mas, antes de chegar a esse ponto, você precisa ser muito cuidadoso, nutrindo sua consciência a cada momento, escolhendo o ambiente e o amparo que mais o ajudem.
[...]
Vivemos hoje em sociedades barulhentas e poluídas, repletas de injustiça, mas podemos nos refugiar num parque público ou passear à margem de um rio por uns instantes. A música, a literatura e os divertimentos contemporâneos pouco fazem para ajudar na cura; pelo contrário, grande parte deles formam a amargura, o desespero e o cansaço que todos sentimos. Precisamos encontrar maneiras de nos proteger, de aprender quando abrir e quando fechar nossas janelas da percepção. Este é o primeiro passo para a pessoa que começa a meditar.
Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995
Foto: sala de meditação em Deer Park Monastery, Escondido, Califórnia - EUA, mosteiro irmão de Plum Village, e do qual vêem muitos monásticos para ajudar durante o Retiro de Verão. Para saber mais, por favor acesse:
http://www.deerparkmonastery.org/
13:45 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: meditação, sociedade, barulho, Deer Park Monastery, Plum Village, Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração
30.06.2008
Um momento
Soa o sino
Thay se cala
Thay caminha
Soa o vento
e sob o sol
o gato se espreguica...
12:15 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail
26.06.2008
Por todas as pessoas

A felicidade não é um acontecimento individual – sua natureza é a interconexão. Quando somos capazes de fazer um amigo sorrir, a felicidade dele vai nos nutrir também. Sempre que descobrimos os caminhos que levam à paz, alegria e felicidade, fazemos isso por todas as pessoas. Devemos começar nos alimentando de sentimentos alegres. Sairmos e praticarmos a meditação andando, desfrutando o ar puro, as árvores, as estrelas no céu à noite. O que fazemos para alimentar a nós mesmos? É importante discutirmos esse assunto com os amigos mais próximos a fim de descobrirmos meios concretos de nutrir a alegria e a felicidade.
Se formos bem-sucedidos nessa missão, nosso sofrimento, nossa tristeza e nossas formações mentais dolorosas começarão a se transformar. Quando o corpo é invadido por bactérias infecciosas, os anticorpos as aprisionam, tornando-as inofensivas. Se não houver anticorpos suficientes, o corpo cria outros tantos para neutralizar a infecção. De forma semelhante, quando inundamos o corpo e a mente com os sentimentos da alegria da meditação, corpo e espírito se fortalecem. Sentimentos alegres têm a capacidade de transformar a dor e a tristeza que estão em nós.
Thich Nhat Hanh, Ensinamentos sobre o Amor (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2005)
(*) Notas do blog: foto do grupo do Retiro de Jovens acontecido em 2007; um novo Retiro para Jovens de 16 a 25 anos começa hoje, para saber mais detalhes por favor acesse a programação de retiros para 2008 em Plum Village; se desejar ver mais fotos da série acima por favor acesse:
http://villagedespruniers.net/index.lasso?locate=photo&ca...
Se houver interesse, acompanhe as postagens complementares (em Inglês) do zentobe, cujo link está sempre disponível na coluna à esquerda da sua tela.
11:55 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: felicidade, interconexão, Plum Village, retiro jovens, Thich Nhat Hanh, Ensinamentos sobre o Amor
23.06.2008
Prática e não-prática

Para mim, um centro de meditação é onde você retorna para você mesmo, onde obtém um entendimento claro da realidade, onde ganha mais força, compreensão e amor; onde você se prepara para reentrar na sociedade. Se não é assim, não é um centro de meditação. Desenvolvendo um real entendimento, podemos reentrar na sociedade e fazer uma real contribuição.
Temos muitos compartimentos em nossa vida. Quando praticamos meditação sentada e quando não a praticamos, temos dois períodos de tempo que são muito diferentes entre si. Quando sentamos praticamos intensamente; quando não sentamos não praticamos intensamente. Há uma parede que separa ambos: prática e não-prática. Prática é só para os períodos de praticar, e não-prática só para os períodos de não-praticar.
Como podemos misturar, juntar os dois? Como podemos trazer a meditação para fora da sala de meditação, para dentro da cozinha ou do escritório? Como pode o sentar influenciar o tempo de não-sentar? Se um médico lhe aplica uma injeção, não é só o seu braço que será beneficiado, mas todo o seu corpo. Se você pratica uma hora de meditação por dia, essa hora será para as 24 horas inteiras, e não só para aquela. Um sorriso, uma respiração deverão beneficiar o dia inteiro e não só aquele momento. Precisamos praticar de uma forma que remova a barreira entre prática e não-prática.
Quando andamos na sala de meditação, pisamos devagar, com cuidado. Mas quando vamos ao aeroporto, somos outra pessoa. Caminhamos de outro modo, com a mente menos desperta. Como podemos praticar no aeroporto e no mercado? Isso é budismo engajado. Budismo engajado não quer dizer apenas usar budismo para resolver problemas sociais e políticos, protestar contra as bombas, contra as injustiças sociais. Antes de tudo temos que trazer o budismo para a nossa vida diária.
Thich Nhat Hanh, Caminhos para a Paz Interior, prefácio e tradução de Odete Lara, Editora Vozes, Petrópolis, 3ª edição, 1989
Foto: monges a caminho do almoço formal em Lower Hamlet, Plum Village, França ©Sam NG
http://www.plumvillage.org/
13:45 Escrito em Prática/Practice | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: meditação andando, prática espiritual cotidiano, Thich Nhat Hanh, Caminhos para a Paz interior
20.06.2008
À Rosa

Mais louvareis a rosa, se prestardes
ouvido à fala com que nos descreve
a razão de ser bela em manhã breve
para a derrota de todas as tardes.
Sabereis que ela mesma não se atreve
a fazer de seus dons grandes alardes,
pois o vasto esplendor de seu veludo
e as jóias de seu múltiplo diadema
não lhe pertencem: a razão suprema
de assim brilhar formosamente em tudo
é prolongar na vida o sonho mudo
da roseira – de que é fortuito emblema.
Cecília Meireles no livro Metal Rosicler, in Obra Poética - Volume Único, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987
dedico este poema à minha madrinha em Plum Village, a querida Rosa Serrano.
Foto dos jardins de Plum Village ©Plum Village sites
http://www.plumvillage.org/
15:00 Escrito em Amor/Love | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: rosa, impermanência, Cecília Meireles, Plum Village
18.06.2008
Que temos?
Que temos a temer? Que temos a perder?
[...] Não temos nada a perder além de nossa ilusões, e cada ilusão perdida nos aproxima um pouco mais do Real [...].
ilustra-nos Jean-Yves Leloup em sua autobiografia O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)
13:00 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: ter, perder, ilusão, realidade, Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça
16.06.2008
Criando um lar espiritual

Cada um de nós precisa “pertencer” a um lugar, como um centro de retiro ou um mosteiro, onde cada característica da paisagem, o som do sino e até mesmo os prédios tem o propósito de nos lembrar que devemos retornar à consciência. É proveitoso irmos a esse local de vez em quando, durante vários dias ou semanas, para nos renovarmos. Mesmo se não pudermos ir fisicamente ao local, basta pensarmos nele para sentir que estamos sorrindo e ficaremos em paz e felizes.
As pessoas que vivem lá devem emanar paz e jovialidade, os frutos da vida consciente. Elas precisam estar sempre presentes para cuidar de nós, nos consolar e dar apoio, nos ajudar a curar nossas feridas. Cada um de nós precisa encontrar um lar espiritual onde possamos nos recolher de tempos em tempos, da mesma forma como corremos para nossa mãe em busca de abrigo quando somos crianças.
Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995
Foto: pagoda do sino ao poente em Upper Hamlet, Plum Village, França ©Richard&Joanne Friday
http://www.plumvillage.org/
13:30 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: retiro, mosteiro, lar espiritual, Plum Village, Upper Hamlet, Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração
11.06.2008
Sim e não

Em 1963, eu estava sentado com alguns dos meus estudantes no campus da Universidade de Columbia em Nova Iorque. A manhã estava linda, o sol estava brilhando e estávamos conversando entre nós sobre a prática budista de remover conceitos. De repente, alguém passou, parou, olhou para mim por alguns segundos e me perguntou: "Você é budista?". Olhei para ele e disse "Não". Disse uma mentira? Espero que meus estudantes tenham me entendido naquele momento. Se eu tivesse dito "Sim, sou budista", ele poderia ser apanhado pela idéia do que um budista deva ser, e isso não vai ajudá-lo. Assim, "Não" foi de mais ajuda que um "Sim". Esta é a linguagem do Zen. Se você diz ou faz alguma coisa é para ajudar a desfazer os nós nas mentes das pessoas e não amarrá-las. É por isso que a linguagem que usamos deve ter como objetivo a libertação.
(*) Notas do blog: foto de Thich Nhat Hanh em Plum Village, mas não em 1963...
Trecho retirado do Capítulo V do livro de Thich Nhat Hanh - "Peace Begins Here: Palestinians and Israelis Listening to Each Other", tradução de Samuel Cavalcante. Recebi este texto através do Darma on line, comunicação semanal da Sanga Virtual, blog da Sangha Viver Consciente do Rio de Janeiro, para estudos budistas na tradição do verenável mestre zen Thich Nhat Hanh. Para receber o Darma on line você pode se inscrever no blog Sanga Virtual, cujo link está aqui sempre disponível, na coluna à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs.
O texto completo, que começa com a bonita história de um homem doente e desanimado que sobe a montanha onde moram os deuses e lá pratica a não-prática de repousar à beira de um riacho límpido, e assim deixa-se curar, retornando depois para sua vida renovado, está disponível em:
http://www.viverconsciente.com/textos/nao_discriminacao_r...
Desfrute!
12:55 Escrito em Compartilhando/Sharing | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: zen, Thich Nhat Hanh, conceitos, Sanga Viver Consciente Rio, Sanga Virtual, Samuel Cavalcante
09.06.2008
Sempre juntos

Inspirando, expirando, nós estamos sempre juntos.
14:25 Escrito em Espaço Silêncio/Silence Room | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
08.06.2008
AMOR

Sorria o Amor.
Respire o Amor.
Viva o Amor.
Seja o Amor.
14:15 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Amor
06.06.2008
Eu cheguei

Queridos
hoje eu entro em Plum Village, o centro de meditação do mestre zen Thich Nhat Hanh, para onde planejava vir desde que da primeira vez daqui saí, há dois anos. Hoje eu retorno, com a sensação de nunca ter ido embora, de ter vivido Plum Village -- não o lugar, mas a maravilhosa maneira de viver que se aprende aqui -- todos os dias da minha vida desde então; ou pelo menos me empenhado. É um grande privilégio estar com esta comunidade de monásticos e leigos que praticam no Caminho do Amor e da Compaixão, sob orientação de tão grande mestre, eu bem sei. E sou grato -- a tudo e a todos, eu sou grato, e grato estou por ser grato.
Há aqui em Plum Village, no Upper Hamlet, uma placa disposta no início do caminho de meditação que diz: Caminhe como uma Sangha. Assim é. Quando caminhar, caminharei com todos, dentro de mim, a você que conheço ou não conheço pessoalmente. Em mim.
(*) Notas do blog: os dizeres acima estão no pequenino e precioso livro de bolso Meditação andando - Guia para a Paz interior, por Thich Nhat Hanh (Editora Vozes, Petrópolis, 2005). Mais fotos do caminho de meditação mencionado acima em Todas as manhãs do mundo.
E a partir de hoje, as postagens que passo a publicar foram pré-agendadas, pois entro em Plum Village sem nenhum desejo de sair daqui, por tanto tempo quanto me for possível permanecer. Textos complementares serão publicados (em Inglês) no blog irmão zentobe, cujo link está sempre disponível na coluna à esquerda da sua tela.
Obrigado.
11:30 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Plum Village, Upper Hamlet, Sangha, meditação andando
05.06.2008
Diario da mente 1
Sombras
sobrevoam
a grama verde
Brancas gaivotas
ou corvos negros?
se ouvir um pio
eu saberei.
(no caminho de Stonehaven ao longo das falesias ateh o Castelo de Dunnotar, Escocia)
12:40 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail
04.06.2008
Floresta?

Damos valor a tudo o que temos?
Damos valor a esta cadeira onde nos sentamos? Damos valor às árvores onde estamos agora mesmo sentados? Damos valor à vida e morte das árvores que usamos para nos sentar? Quanto valor damos ao Sol que está dentro destas árvores sobre as quais nos sentamos? O sol que jamais deixou de brilhar por um só instante, para que toda a vida que hoje desfrutamos fosse possível -- esta singular cadeira, inclusive. Damos valor ao trabalho de produzir esta cadeira? Damos valor a quem plantou estas árvores que se transformaram na nossa cadeira, e às pessoas que em benefício do nosso conforto a cortaram? Quanto valor damos aos pais e mães destas pessoas que por nós trabalharam, que por nós trabalham -- sem as quais não existiria esta maravilhosa cadeira? Damos algum valor ao alimentos, e à pessoas que plantaram e colheram os alimentos que deram sustento a todas essas pessoas, que tornaram possível esta cadeira?... Damos quanto valor a todo o alimento e a todos os ancestrais que foram alimentados, e que viveram e sobreviveram, sem os quais estas pessoas que fizeram esta cadeira não existiriam? Que valor damos ao Sol e à chuva e à terra contidas nestes alimentos, nestas pessoas, nestas árvores -- enfim, nesta cadeira? Vemos os amigos, os professores e médicos que cuidaram das pessoas que fizeram esta cadeira, que tornaram possível a vida destas pessoas com a capacidade de dar-nos uma cadeira...
Sem todas as coisas, você não estaria agora sentado numa cadeira de madeira.
Ou talvez ela seja de plástico? Não importa... Olhe bem ao seu redor. Veja a riqueza e abundância de materiais ao seu dispor. Metais, papel, plástico, pedra, tecido, couro, concreto, vidro, cerâmica -- para falarmos apenas de materiais, o que mais há no seu mundo, no seu ambiente, na sua vida? Contemple-os todos, e como eles se transformaram para chegar até você e fazer parte da sua vida. Contemple todo o trabalho, todo o estudo, todo o empenho, todo o esforço.
Viva não na gratuidade de todas as coisas, mas na gratidão a tudo o que existe!
Obrigado.
14:05 Escrito em Natureza/Nature | Permalink | Comentários (6) | Enviar por e-mail | Tags: contemplar em profundidade, interser, gratidão
02.06.2008
Tua meditação

Enquanto a compreensão permanece na cabeça, tua meditação se desvia para o genérico. O coração, pelo contrário, atinge o particular, o que se refere a ti próprio. Sem qualquer rodeio nem desculpa, ele dirige tudo para ti pela via mais eficaz, a que te atinge mais profundamente. Experimentas diretamente teus próprios erros e fraquezas, assim como as luzes ou sombras das coisas.
conselho dos antigos monges cristãos, retirado de Das immerwährende Herzengebet, textos originais russos, coligido e traduzido por A. Selawry; citado por Anselm Grün em Oração e Autoconhecimento (Editora Vozes, Petrópolis, 2007)
(*) Nota do blog: foto do chão do Universal Hall da Fundação Findhorn, Escócia, Maio de 2006. Para ver outras fotos de diversos ambientes da Fundação e da região de Findhorn, por favor acesse:
http://picasaweb.google.com/JHutton108/MyTop40CollegeWebs...
14:45 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: meditação, monges cristãos, Anselm Grün, Oração e Autoconhecimento
30.05.2008
Continue tocando

Com o desejo de encorajar seu filho a estudar piano, a mãe levou o menino a um concerto de Paderewski, famoso compositor polonês.
Depois de terem se sentado, a mãe reconheceu uma amiga na platéia e foi até ela. Aproveitando a oportunidade para explorar as maravilhas de uma sala de concertos, o garoto se levantou e foi em direção a uma porta, sobre a qual estava escrito: “Não entre”. Quando as luzes da sala começaram a escurecer e o concerto estava para começar, a mãe retornou a seu assento e descobriu que seu filho tinha desaparecido.
De repente, as cortinas se abriram e as luzes focalizaram, sobre o palco, o impressionante piano Steinway. Horrorizada, a mãe viu seu menino sentado à frente do teclado, inocentemente tocando algumas notas de uma canção infantil. O público ficou surpreso com o fato, mas logo percebeu o incidente e a tensão espalhou-se pelo teatro. Então, o grande músico entrou no palco e rapidamente se dirigiu ao piano, sussurrando nos ouvidos do menino: “Não pare. Continue tocando”. Inclinando-se, Paderewski colocou a mão esquerda sobre o teclado e passou a complementar a melodia simples com uma harmonia. Em seguida, com sua mão direita, contornando o outro lado do menino, adicionou um obbligato rápido.
E o público ficou encantado. Juntos, velho mestre e jovem aprendiz haviam transformado uma situação amedrontadora numa experiência criativa, magnífica.
Seja qual for a nossa situação na vida — não importa quão opressiva, desesperada, aparentemente inútil -- seja até nossa “noite escura da alma”, Deus está sussurrando bem dentro de nosso ser: “Não pare. Continue tocando. Você não está só. Juntos, vamos transformar esses padrões desconectados numa obra de arte do espírito criativo. Juntos, iremos encantar o mundo com a nossa canção”.
(*) Nota do blog: reescrita para este blog a partir de um relato veiculado na Internet, em 1998, por autor desconhecido. A versão original consta da cartilha Paz Como se Faz?, semeando cultura de paz nas escolas, de Lia Diskin e Laura Gorresio Roizman - Rio de Janeiro: Governo do Estado do Rio de Janeiro, UNESCO, Associação Palas Athena, 2002.
Para fazer gratuitamente o download desta cartilha de Cultura pela Paz, por favor visite a página de abertura da Associação Palas Athena em:
http://www.palasathena.org/
13:10 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Paz como se faz, medo, improviso, coragem, destemor, colaboração, parceria
27.05.2008
Retorno

Ha dois anos encerrava-se a minha Semana de Experiencia, nesta mesma data -- e hoje retorno a este lugar encantado: a Findhorn Foundation, na Escocia. A sensacao, no entanto, eh a de que quem retorna eh um outro eu, que nunca esteve aqui antes, ou que nunca foi embora daqui... Obrigado ah querida Bettina pelo convite de participar desse mundo tao maravilhoso, desse novo planeta que se constroi agora mesmo...
Se desejar ler mais sobre a Findhorn Foundation, por favor acesse o link sempre disponivel no box Sites recomendados, na coluna ah direita da sua tela.
Para ver mais da Fundacao e dos arredores, por favor acesse:
http://www.newboldhouse.org/index/surrounding-environment

(*) Nota do blog: a partir de hoje, o paraserzen passa a publicar em conjunto com o blog irmao/ alterego zentobe, alternando postagens com noticias desta jornada que se inicia para mim. Obrigado pela companhia.
18:20 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Fundação Findhorn Foundation, The Park, Escócia
26.05.2008
Não são eu
Neste trecho do capítulo Lágrimas de Felicidade do livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, uma biografia do Buda escrita por Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007), o Venerável monge Sariputra orienta um dos principais discípulos leigos do Buda, Sudata, também conhecido como Anatapindika (que significa aquele que cuida dos pobres e abandonados), em seu leito de morte:
“Discípulo leigo Sudata, vamos contemplar juntos assim – meus olhos não são eu, meus ouvidos não são eu, meu nariz, minha língua, meu corpo e minha mente, não são eu.”
Sudata seguiu as intruções de Sariputra. Então, este prosseguiu: “Agora vamos continuar a contemplar – aquilo que vejo, não é eu; aquilo que ouço, não é eu; aquilo que cheiro, provo, toco e penso, não é eu.”
Sariputra, então, mostrou-lhe como contemplar as seis consciências sensoriais – ver não é eu; ouvir não é eu; cheirar, provar, tocar e pensar não é eu.
Ele continuou: “O elemento terra não é eu. Os elementos água, fogo, ar, espaço e consciência não são eu. Não me encontro aprisionado ou restrito pelos elementos. Nascimento e morte não podem me tocar. Sorrio, porque jamais nasci e jamais morrerei. O nascimento não me dá existência. A morte não me remove a existência.”
(*) Nota do blog: e a difícil arte de desprender-se e viajar leve, que se treina em vida...
12:55 Escrito em Bússola/Compass | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Sariputra, Sudata, Anatapindika, Buda, morte, contemplação, Velho Caminho Nuvens Brancas
25.05.2008
Varrer os caminhos

Nossas vidas são como a respiração, como as folhas que crescem e caem. Quando realmente entendermos sobre as folhas que caem, seremos capazes de varrer os caminhos todos os dias e nos alegrar com nossas vidas neste mundo mutável.
Ajahn Chah
(*) Notas do blog: este é o cabeçalho do blog Folhas no Caminho, que traz o budismo engajado. Vim a conhecer esta página por indicação do meu querido amigo Lécio, de quem sou grande admirador e do qual publico hoje a linda ilustração acima... Para ter acesso a mais das ilustrações iluminadas do Lécio Ferreira, por favor abra O âmago da terra, onde você também poderá ler um belo poema de autoria dele.
Imagem e palavras fazem-me lembrar de que, Enquanto isso, em Plum Village...
Obrigado.
13:00 Escrito em Compartilhando/Sharing | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: folhas, impermanência, Ajahn Chah, Lécio Ferreira
24.05.2008
Experimentar é
Em cada minuto, uma escolha.
Em cada escolha, um resultado.
Em cada resultado, uma experiência.
Experimentar é viver.
(*) Nota do blog: a querida Nice, este Buda que vem aqui em casa todas as semanas, trouxe-me um texto que resume bem a nova direção, ou pelo menos a nova percepção da minha vida. Em todos os lugares, em cada minuto, escolha, resultado, experiência. Herdo o resultado das minhas ações, palavras e pensamentos; minhas ações formam o terreno no qual eu me mantenho de pé -- gosta de lembrar-nos o Buda, como já publicado em As cinco lembranças. Por toda parte encontramos pessoas, encontramo-nos, fazemos escolhas e experiências, gostava de lembrar-me um outro Buda, o Matthias. Então... a elas!
12:40 Escrito em Compartilhando/Sharing | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: escolha, resultado, Experiência, Buda, As cinco lembranças
23.05.2008
Dois tipos de renúncia

Quando Upagupta raspou sua cabeça com a idade de dezessete, Shanavasa perguntou a ele, "Você está deixando o lar em corpo ou mente?"
No budismo, há basicamente dois tipos de [renúncia, isto é, de] deixar o lar — a do corpo e a da mente.Aqueles que deixam o lar fisicamente abandonam os sentimentos social e pessoal, deixam seu lugar natal, raspam suas cabeças, vestem-se de preto e não têm quaisquer servos, tornando-se monges. Trabalham sobre o caminho vinte e quatro horas por dia, então não perdem tempo e não têm desejos estranhos. Portanto, não são felizes por estarem vivos e não temem morrer. Suas mentes são como a claridade pura da lua de outono, seus olhos são como a perfeição de um espelho brilhante. Não procuram a mente ou uma essência; nem mesmo praticam as verdades sagradas, muito menos têm quaisquer apegos mundanos. Deste modo, não permanecem no estado dos mortais comuns nem são confinados ao estado dos sábios e santos — são viajantes sem mente. Estas são as pessoas que deixaram o lar fisicamente.
Aqueles que deixaram o lar mentalmente não raspam seu cabelo nem usam roupas especiais. Apesar de viverem em casa e de estarem no meio dos problemas do mundo, são como lótus não maculados pelo barro, como jóias não afetadas pela poeira. Apesar de poderem ter esposas e filhos, de acordo com as circunstâncias, não são apegados a eles. Como a lua no céu, como uma pérola rolando em uma tigela, vêem aquele que está livre no meio de uma cidade agitada, entendem além do tempo enquanto estão no mundo, sabem que "até mesmo cortar as paixões é uma doença" e realizam que "objetivar pela verdadeira talidade também é errado". Para eles, tanto o nirvana quanto o samsara são ilusões; não estão preocupados nem com a iluminação nem com a aflição. Estas são as pessoas que deixaram o lar mentalmente.Portanto Shanavasa perguntou a Upagupta, "Você está deixando o lar física ou mentalmente?"
(Adaptado de Keizan, Transmission of light: Zen in the art of enlightenment.Tradução e introdução de Thomas Cleary. San Francisco: North Point Press, 1990, p. 21-22.)
(*)Nota do blog: encontrei este texto recentemente, publicado num dos blogs que freqüento e onde sempre encontro mensagens que ecoam o coração, o blog Impermanências -- cujo link encontra-se sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela.
Obrigado.
11:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: renúncia, zen, budismo, Keizan, blog Impermanências
22.05.2008
Todas as coisas
Não deixa que nada ter perturbe,
Que nada te assuste.
Todas as coisas são passageiras.
Santa Teresa d’Ávila
11:35 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: impermanência, Santa Teresa d’Ávila
21.05.2008
Centelhas e chamas de amor

Sem dúvida, tudo quanto se diz numas e noutras (*) é próprio de um só estado de união transformante, o qual em si não pode ser ultrapassado aqui na terra: todavia pode, com o tempo e o exercício, aprimorar-se, como digo, e consubstanciar-se muito mais no amor. Acontece-lhe como à lenha quando dela se apodera o fogo, transformando-a em si pela penetração de suas chamas: embora já esteja feita uma só coisa com o fogo, em se tornando este mais vivo, fica a lenha muito mais incandescente e inflamada, a ponto de lançar de si centelhas e chamas.
Deste abrasado grau se há de entender que fala aqui a alma, estando já de tal modo transformada e aprimorada interiormente no fogo do amor, que não apenas está unida a ele, mas ele lança dentro dela uma viva chama.
San Juan de la Cruz, A Chama Viva do Amor, tradução de Frei Patrício Sciadini O.C.D., Edições Carmelitanas, São Roque
(*) Notas do blog: San Juan de la Cruz explica em texto, a pedido de Dona Ana Peñalosa, os versos das Canções que ele mesmo compôs, em 1584, que tratam da mais íntima e subida união e transformação da alma em Deus (nota de Frei Patrício Sciadini O.C.D.). Outros trechos deste e doutros textos sublimes do místico espanhol San Juan de la Cruz, por quem tenho especial predileção, publicados neste blog, podem ser acessados clicando-se abaixo em Tags: San Juan de la Cruz. Sobre ele há um filme, La noche oscura (1989), dirigido por Carlos Saura, cujo trailer pode ser assistido em:
http://www.youtube.com/watch?v=K7dqqKMSpVQ
10:55 Escrito em Amor/Love | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: San Juan de la Cruz, A Chama Viva do Amor, Frei Patrício Sciadini, Carmelitas, amor, fogo, Deus
20.05.2008
Bom ter uma fogueira
O ensinamento de Buda é todo sobre compreender o sofrimento -- sua origem, sua cessação e o caminho para sua cessação. Quando contemplamos o sofrimento, descobrimos que estamos contemplando o desejo, porque sofrimento e desejo são a mesma coisa.
O desejo pode ser comparado ao fogo. Se agarramos o fogo, o que acontece? Isso leva à felicidade? Se dissermos "ah, olhe esse belo fogo! Veja que cores lindas! Adoro vermelho e laranja, são minhas cores favoritas" e então agarrarmos o fogo, haveria uma certa quantidade de sofrimento no corpo.
Assim, se fôssemos contemplar a causa desse sofrimento, iríamos descobrir que isso aconteceu por termos agarrado o fogo. Com essa informação, iríamos então esperançosamente soltá-lo.
Uma vez que soltamos, vemos que o fogo não é algo para nos apegarmos. Mas isso não significa que temos que odiá-lo ou descartá-lo. Podemos curtir o fogo, não? É bom ter uma fogueira, ela nos aquece, mas não precisamos nos queimar nela.
Ajahn Sumedho, em "Teachings of a Buddhist Monk", Tricycle's Daily Dharma, 17 de março, 2008
(*) Nota do blog: este blog costuma privilegiar textos sobre água -- e há inclusive uma Categoria ao lado com este nome. Estava, portanto, na hora de equilibrar com fogo -- iniciei com a linda canção de Lhasa de Sela, Pa'llegar A Tu Lado. Encontrei este texto, que hoje compartilho, no excelente blog Samsara, fonte perene de inspiração e orientação para mim, cujo link encontra-se sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela.
11:40 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: desejo, apego, fogo, sofrimento, equanimidade, Ajahn Sumedho, blog Samsara
19.05.2008
As chamas dos desejos

A primeira palestra-Darma proferida pelo Buda naquela estação foi sobre o tema da felicidade. Ele disse à assembléia que a felicidade é real e pode ser alcançada bem no meio da vida cotidiana. “Em primeiro lugar”, -- disse o Buda, -- “a felicidade não resulta de se entregar aos desejos sensuais. Os prazeres sensuais trazem uma felicidade ilusória e, verdadeiramente, eles são fonte de sofrimento.
“É como um leproso que é forçado a viver sozinho na floresta. Sua carne é atravessada por terrível dor, dia e noite. Então, ele cava um buraco, acende ali dentro uma fogueira e fica bem junto do fogo tentando aliviar temporariamente sua dor, quase queimando os seus membros. É a única maneira de conseguir alguma melhora ou alívio. Miraculosamente, porém, após alguns anos, sua doença desaparece, e ele é capaz de retornar a uma vida normal na vila. Um dia, entra na floresta e vê um grupo de leprosos queimando seus membros sobre as chamas ardentes, exatamente como ele fazia. Sente dó daquelas pessoas, pois sabe que, no seu estado saudável, jamais conseguiria manter seus membros tão próximos das chamas. Se alguém tentasse arrastá-lo para junto do fogo, ele resistiria. Então compreende: aquilo que antes lhe dava algum conforto, na verdade, é fonte de dor para quem está saudável.
“Os prazeres são como uma cova de fogo. Trazem alívio somente para aqueles que estão doentes. Uma pessoa sã evita as chamas dos desejos sensuais.”
em Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007)
(*) Nota do blog: sobre felicidade duradoura em oposição aos prazeres sensuais passageiros há o Samiddhi Sutra, trazido na postagem O monge e o deva, em versão reescrita para este blog, e noutras duas postagens os comentários de Thich Nhat Hanh ao Sutra, disponíveis em:
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/03/comen...
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/04/comen...
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18.05.2008
A poeira de nossos corações

O Caminho do jardim!
Longe do fluir do mundo
esse Caminho permanece para nós.
Por que não sacudir logo aqui
A poeira de nossos corações?
Rikyu
em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch, Editora Pensamento, São Paulo, 1997
(*) Notas do blog: mais informações sobre o Mestre Rikyu em Folhas caídas. Para saber mais sobre a cerimônia do chá (em Inglês); também com bonitas fotos, por favor acesse:
http://www.hibiki-an.com/readings/japanese-tea-ceremony.h...
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17.05.2008
Poeira
Por mais que sacuda os cabelos,
por mais que sacuda os vestidos,
a poeira dos caminhos jaz em mim.
A poeira dos mendigos, em cinza e trapos,
dos jardins mortos de sede,
dos bazares tristes, com a seda a murchar ao sol,
a poeira dos mármores foscos,
dos zimbórios tombados,
dos muros despidos de ornatos,
saqueados num tempo vil.
A poeira dos mansos búfalos em redor das cabanas,
das rodas dos carros, em ruas tumultuosas,
do fundo dos rios extintos,
de dentro dos poços vazios,
das salas desabitadas, de espelhos baços,
a poeira das janelas despedaçadas,
das varandas em ruína,
dos quintais onde os meninozinhos
brincam nus entre redondas mangueiras.
A poeira das asas dos corvos
nutridos de poeira dos mortos,
entre a poeira do céu e da terra.
Corvos nutridos da poeira do mundo.
De poeira da poeira.
Cecília Meireles, Poemas Escritos na Índia, in Obra Poética - Volume Único, Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1987
11:10 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Cecília Meireles, Poeira, Poemas escritos na Índia
16.05.2008
Como pode?

Árvore da sabedoria, nada de semelhante existe,
nem mesmo um espelho no seu estrado.
Nada existe que seja real.
Como pode, então, a poeira assentar?
em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch, Editora Pensamento, São Paulo, 1997
12:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Árvore da sabedoria, poeira, O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch
15.05.2008
Um fluxo vivo
Os meditadores sabem desde o início dos tempos que precisam usar os próprios olhos e a linguagem de sua época para expressar seu insight. A sabedoria é um fluxo vivo, não uma estátua a ser preservada num museu. Somente quando o praticante descobre a fonte da sabedoria na sua vida é que ela pode fluir em direção às gerações futuras. Manter acesa a tocha da sabedoria é tarefa de todos nós que sabemos como abrir um caminho através da floresta para poder seguir adiante.
Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995
12:25 Escrito em Percursos/Courses | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: meditação, sabedoria, Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração
14.05.2008
Um olhar, um sorriso

A flor desabrocha porque os raios de sol a tocam e aquecem o botão, tornando-se um com ele. A meditação não revela um conceito de verdade, mas sim uma visão direta da própria verdade. É isso que chamamos de insight, o tipo de entendimento baseado na atenção e na concentração.
Pensar significa pegar blocos de concreto de cinzas no empório da memória e construir monumentos. Chamamos esses edifícios e palácios de pensamentos. Esse pensamento, porém, não tem valor criativo por si mesmo. É somente quando iluminado pelo entendimento que o pensamento adquire uma verdadeira substância. O entendimento não surge como resultado do pensamento. Ele é resultado do longo processo de percepção consciente. Algumas vezes o entendimento pode ser traduzido em pensamentos, mas com freqüência os pensamentos são excessivamente rígidos e limitados para conduzir muito entendimento. Algumas vezes um olhar ou um sorriso expressa muito melhor o entendimento do que palavras ou pensamentos.
Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995
(*) Nota do blog: grupo de monásticos da tradição do mestre Thich Nhat Hanh durante um almoço oferecido à Sangha pelo sr Modi, produtor do filme "Buda", baseado no livro Velho Caminho, Nuvens Brancas escrito pelo Thây. Este é um costume desde os tempos do Buda; uma vez que os monges comem somente alimentos que lhes são doados, algumas pessoas mais abastadas ofereciam almoços ao Buda e sua Sangha. Se desejar ver mais fotos, por favor acesse:
http://www.deerparkmonastery.org/news/photoalbums/ThayVis...
11:30 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: pensamento, entendimento, insight, Thich Nhat Hanh, monásticos, Plum Village, Deer Park
13.05.2008
Ser as flores
P.S.
Não me tragam flores.
Não preciso destes restos arrancados.
Talvez pareça ingrato,
desde que premeditei a partida.
Mas olhem vocês à nossa volta, o extenso
gramado ensolarado sob o qual eu agora durmo.
Feliz de estar sob seus pés paralelamente,
e além, por entre raízes me perdendo.
Ah, não me tragam flores!
Não, chega de mortes...
Agora posso tê-las todas
Por mais distantes que lhes pareçam.
De volta à terra, eu as alcanço.
Eu mesmo as vou sendo.

(*) Nota do blog: escrevi este poema há mais de vinte anos atrás -- num tempo em que eu ainda não havia ouvido falar em Thich Nhat Hanh e o "interser" -- que não é só mais um conceito, mas uma experiência, uma vivência! E penso nessa pessoa querida que em vida foi uma flor, e que agora, dormindo dentro do planeta, é todas elas...! Embora, claro, não precisemos estar finalmente enterrados para ser um com as flores, toda a Natureza e o planeta... A consciência de ser um com a flor é o que torna-te flor!
11:35 Escrito em Natureza/Nature | Permalink | Comentários (5) | Enviar por e-mail | Tags: morte, interser, flores, consciência, Thich Nhat Hanh
12.05.2008
Na presente vida
Para Santo Agostinho, é bom, antes de agir, interrogar-se sobre a utilidade de fazer tal ou tal coisa: esta ação me faz crescer, me faz evoluir? É útil para os outros (são dois critérios fundamentais)? Se a resposta é “não”, trata-se de uma ação inútil, eu perco o meu tempo, eu me distancio do Real; este distanciamento, ou este exílio, é sofrimento e ilusão.
“Quando recebes uma flecha no braço, tu te interrogas quem atirou a flecha, qual é a natureza da sua madeira, ou te preocupas em cuidar do teu ferimento?”, responde Buda à pergunta que lhe é colocada sobre a origem do mal e do sofrimento. Nós não estamos aí para nos colocar a questão de saber de onde vêm o sofrimento, o mal e a existência, mas para constatar que nós temos o mal e nos perguntar como fazer para atenuar este sofrimento em nós e no mundo.
Mesmo que o dogma estabeleça que o mundo seja eterno ou não, permanecem, apesar de tudo, o nascimento, a velhice, o desgosto, a miséria, o luto e o desespero, todas estas realidades da existência humana, e é com a sua extinção na vida presente que me preocupo. Especular sobre a eternidade do mundo e sobre sua origem não é mau em si, mas como fazer cessar os sofrimentos nos quais estamos? Como sair desses impasses? É com isso que é necessário preocupar-se. Não temos energia e tempo a perder com questões insolúveis e ociosas, mais vale utilizá-los para a salvação e para o bem-estar de todos os seres vivos.
Jean-Yves Leloup, A montanha no oceano, Meditação e compaixão no budismo e no cristianismo, Editora Vozes, Petrópolis, 2002
10:20 Escrito em Inspiração/Inspiration | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, sofrimento, dogma, questões existenciais, eternidade, Jean-Yves Leloup, A montanha no oceano
11.05.2008
Neste dia

Obrigado Maria, obrigado Silvinha.
(*) Nota do blog: a foto acima é de autoria da fotógrafa turca Zeynep Kanra, de quem pela primeira vez publiquei um dos lindos retratos na postagem Um amor eterno, justamente no Dia das Mães há um ano atrás. Todas as postagens anteriores onde aparecem os amorosos retratos preciosos de autoria da minha amiga Zeynep podem ser acessados clicando abaixo, ao final desta mensagem, em Tags: Zeynep Kanra. Álbuns desta fotógrafa estão disponíveis em:
http://www.zeynepinyeri.com/
http://www.flickr.com/photos/zeynepk/
Obrigado, sempre muito obrigado.
11:16 Escrito em Dharma Journal | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Zeynep Kanra
10.05.2008
No outono
Por um momento
a folha voando
é uma borboleta.

Foto ©Ginjer; mais fotos deste set em http://www.flickr.com/photos/ginjer/sets/184838/
11:10 Escrito em Espaço Silêncio/Silence Room | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: outono
09.05.2008
O Sol e nós

Claro está
que preciso do Sol para existir.
Porém
o Sol precisa de mim para existir?
E você, precisa do Sol para existir?
E o Sol, precisa de você para existir?
(não sei se há resposta, mas há um breve lampejo de consciência que aparece no próprio instante da pergunta...)
11:20 Escrito em Dharma Journal | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: sol, interdependência, consciência
08.05.2008
Duplamente abençoada

A excelência da misericórdia nunca é maculada,
Como a delicada chuva, vinda do céu
Sobre a aldeia abaixo: duplamente abençoada,
Abençoa aquele que a dá e aquele que a recebe...
da personagem Pórcia em O Mercador de Veneza, William Shakespeare
(citado por Chagdud Tulku Rinpoche em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Editora Palas Athena, São Paulo, 1999)
http://www.palasathena.org.br
(*) Nota do blog: ilustração acima, Chuva (1908) por Bertha Lum; para ver mais obras da artista por favor acesse:
http://www.bertha-lum.org/Catalogued%20page%2001.htm
11:10 Escrito em Águas/Water | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: misericórdia, benção, Pórcia, chuva, Bertha Lum, O Mercador de Veneza, Shakespeare
07.05.2008
Olá nuvem!
Às vezes as pessoas te perguntam: “Qual é a data de seu nascimento?”. Mas você pode perguntar a si mesmo uma pergunta mais interessante: “Antes deste dia que é chamado o dia de meu nascimento onde eu estava?”.
Pergunte a uma nuvem: “Qual a sua data de nascimento? Antes de você nascer onde você estava?”
Se você perguntar a uma nuvem: “Quantos anos você tem? Você pode me dar a data de seu nascimento?” Você poderá ouvir profundamente e receber uma resposta. Você pode imaginar uma nuvem nascendo. Antes de nascer ela era a água na superfície do oceano, ou estava no rio e depois se tornou vapor. Estava lá também o sol porque o sol faz o vapor. O vento estava lá também, ajudando a água a se tornar nuvem. A nuvem não vem do nada; há apenas uma mudança de forma. Ela não nasce do nada.
Mais cedo ou mais tarde a nuvem se transformará em chuva, neve ou gelo. Se você olhar profundamente a chuva, você poderá ver a nuvem. A nuvem não foi perdida; ela foi transformada em chuva, e a chuva é transformada em grama e a grama em vacas e depois em leite e depois no sorvete que você toma. Hoje se você tomar um sorvete, dê uma olhada nele e diga: “Olá nuvem! Eu te reconheço”. Fazendo isso, você terá insight e entendimento na real natureza do sorvete e da nuvem. Você também poderá ver o oceano, o rio, o calor, o sol, a grama e a vaca no sorvete.
Olhando profundamente, você não vê a data real de nascimento e não vê uma data real da morte da nuvem. Tudo que acontece é que a nuvem se transforma em chuva ou neve. Não há morte real porque sempre há uma continuação. Uma nuvem é a continuação do oceano, e da mesma forma o rio, o calor do sol e a chuva são a continuação da nuvem.
(*) Nota do blog: assim como ontem, trago mais um trecho do texto Onde você estava antes de nascer?, traduzido a partir do livro No death, no fear de Thich Nhat Hanh. Este texto pode ser lido acessando o link:
http://www.viverconsciente.com/textos/onde_estava_antes_n...
Obrigado!
12:16 Escrito em Prática/Practice | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: nascimento, transformação, nuvem, chuva, água, Onde você estava antes de nascer?, Thich Nhat Hanh
06.05.2008
Você não precisa procurar
Quando você olha para a superfície do oceano, pode ver ondas subindo e descendo. Você pode descrever essas ondas em termos de alta ou baixa, pequena ou grande, mais vigorosa ou menos vigorosa, mais bonitas ou menos bonitas. Você pode descrever uma onda em termos de início e fim, nascimento e morte. Esta pode ser comparada à dimensão histórica. Na dimensão histórica nós estamos preocupados com nascimento e morte, mais poderoso ou menos poderoso, mais bonito ou menos bonito e assim por diante.
Olhando profundamente, podemos também ver que as ondas são ao mesmo tempo água. Uma onda pode querer procurar sua verdadeira natureza. A onda pode sofrer de medos, de complexos. Uma onda pode dizer: “Eu não sou grande como as outras ondas”, “eu estou oprimida”, ”eu não sou tão bonita como as outras ondas”, “eu nasci e eu tenho que morrer”. A onda pode sofrer com essas coisas. Mas se a onda se curvar e tocar sua verdadeira natureza ela tomará consciência que ela é água. Então o medo e os complexos desaparecerão.
A água é livre do nascimento e morte. A água é livre do alto e baixo, do mais bonito e menos bonito. Você pode falar nesses termos de ondas, mas em termos de água esses conceitos são inválidos.
Nossa verdadeira natureza é a natureza do não nascimento e não morte. Nós não precisamos ir a nenhum lugar para tocarmos nossa verdadeira natureza. A onda não precisa procurar pela água porque ela é água. Nós não precisamos procurar por Deus, não precisamos procurar pelo nirvana, a dimensão última, porque nós somos nirvana, nós somos Deus.
Você é o que está procurando. Você já é o que está procurando. Você pode dizer à onda, “minha querida onda, você é água, você não precisa ir e procurar pela água. Sua natureza é a do não nascimento e não morte, de não ser e de não não ser”.
Pratique como uma onda. Use seu tempo olhando profundamente dentro de você mesmo e reconhecendo que sua natureza é a natureza do não nascimento e não morte. Você poderá despontar para a liberdade e para a falta de medo. Este método nos ajuda a viver sem medo e nos ajudará a morrer em paz sem lamentações.
(*) Nota do blog: o trecho acima, traduzido a partir do livro No death, no fear de Thich Nhat Hanh, chegou-me através do Darma online, a comunicação (e minha fonte de alegria e inspiração) semanal do blog Sanga Virtual, blog da Sangha Viver Consciente do Rio de Janeiro, para estudos budistas na tradição do verenável mestre zen Thich Nhat Hanh. Para receber o Darma on line você pode se inscrever no blog Sanga Virtual, cujo link está aqui sempre disponível, na coluna à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs. Desfrute.
11:10 Escrito em Águas/Water | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: água, onda, nascimento, morte, conceitos, Sanga Virtual, Sangha Viver Consciente
05.05.2008
Decepção e o vasto oceano

No Sutra do Diamante Buda diz: “Um lugar onde alguma coisa pode ser distinguida por sinais, nesse lugar há decepção.” Ainda nos apegamos aos sinais e perdemos a essência, que é inter-existência, sem sinais e vazio. Apegados a sinais, esquecemos que a realidade não é nem eu nem não-eu, pessoa nem não-pessoa, ser vivente nem não-vivente, extensão da vida nem não-extensão da vida.
[...]
Quando olhamos o vasto oceano, vemos muitas ondas. Podemos descrevê-las como altas ou baixas, grandes ou pequenas, vigorosas ou fracas. Mas esses termos não podem ser aplicados à água. Do ponto de vista da onda, há nascimento e morte, mas estes são apenas sinais. A onda é, ao mesmo tempo, água. Se a onda vê a si mesma apenas como onda, terá medo da morte. A onda precisa olhar a si mesma em profundidade a fim de se dar conta de que é, ao mesmo tempo, água. Se retirarmos a água da onda, esta não existe, e se retirarmos as ondas, não haverá água. Onda é água e água é onda. Elas pertencem a diferentes planos da existência. Não podemos comparar as duas. As palavras e conceitos que são atribuídos à onda não podem ser atribuídos à água.
[...] É maravilhoso quando você consegue tocar na água, mas isso não quer dizer que a onda tenha se esvanecido. A onda é sempre água. Se você tentar tocar só a onda e não a água, sofrerá do medo do nascimento e da morte, e terá muitas outras aflições. Mas se olha a si mesmo em profundidade e se dá conta de que é água, todos os medos e aflições se desvanecem.
Thich Nhat Hanh, Cultivando a Mente de Amor (tradução de Odete Lara, Editora Palas Athena, São Paulo, 2000)
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04.05.2008
Diálogo no escuro

“Meus pais apagaram a luz, se bei