27.06.2011

Legião dos Anjos

04- Engel Ordnungen©.jpg

inspirado na frase de Rainer Maria Rilke da primeira das "Elegias de Duíno":

Se gritasse, quem das legiões dos anjos escutaria o grito?

este podcast

 - Engel Ordnungen -

pode ser ouvido no link:

http://ia600607.us.archive.org/21/item...

 

lista de músicas:

+City Building (Johann Johannsson)
+Agnus Dei (Samuel Barber)
+Magnificat (Vladimir Godar)
+Madrigals of The Rose (Harold Budd)
+O Dulcissime Amator (Hildegard von Bingen)
+Sketch Pad with Trumpet and Voice (Peter Gabriel)
+Sven-G-Englar (Sigur Ros)
+Sense of Touch (Mark Isham)
+Taniec (Jacaszek)
+Trois Coleurs: Rouge (Zgbiniew Preisner)
+All Day (Jan Steele)
+Saravejo (Max Richter)

 

desfrute!

11.05.2011

podcast Do Not DistUrB

02- do not disturb strips.jpg

este podcast 

Do Not DistUrB - unhurried dreaming

pode ser ouvido clicando no link:

http://ia600602.us.archive.org/23/items/DoNotDisturb-Unhu...

 

lista de músicas:

+Miniature 6 (Matthew Robert Cooper)
+V (Jacaszek)
+Aurora (Alva Noto + Ryuichi Sakamoto)
+Rostro (Murcof)
+With Broken Heart and Sharp Mind (We are Bright & Broken)
+So Why Pause? (Arms and Sleepers)
+Lokaou Augunum (Olafur Arnalds)
+Lullaby of Dustland (The Gentleman Losers)
+Interlude (Doveman)
+Sleeping Giant (Jonsi Birgisson + Alex Somer)
+Haru (Christian Fennesz + Ryuichi Sakamoto)
+Sugar Coated Fennel Seeds (F.S. Blumm + Nils Frahm)
+Small Memory (Jon Hopkins)
+Altringen (Daniel Dorobantu)
+Quit Not Save (Microstoria)
+I Am So Much More Me That You Are Perfectly You (Eluvium)
+Ba (Johann Johannsson)

 

 

uma outra maneira de compartilhar caminhos - desfrute!!

25.06.2009

fim

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Você bebe o chá, talvez você aprecie o chá que bebe, e ao fim a caneca se esvazia. Então, pode olhar a caneca e achar que ela está vazia, e lamentar o chá que acabou -- ou dar-se conta de que o chá está em você, tornado você -- você e o chá, irmanados. Você bebe o chá e ele não se acaba -- ele passa a viver em você. E se você viver cultivando amor, paz, bondade, atenção, carinho, calma, poderá dizer que é nestas coisas maravilhosas que o maravilhoso chá terá se transformado. E assim terá valido a pena beber chá, terá valido ao chá ter sido bebido -- e plantado, colhido, preparado. Terá valido a pena viver -- seja como chá, seja como você. Agora, que diferença ainda há?

3 anos e 3 meses foi o tempo que durou o paraserzen, e hoje ele se encerra. Espero que ele tenha sido um chá assim, plenamente saboreado, e que se transformou em paz, felicidade, discernimento, prática. Então terá valido a pena todo o empenho, a dedicação, a inspiração, o compartilhar.

 

Minha gratidão aos amigos, aos leitores e especialmente aos comentaristas -- muito obrigado. Uma ponte tem de tocar a outra margem para ser uma boa ponte. Uma ponte está aberta, e se ninguém a atravessar, não serviu de nada. Muito obrigado por atravessarem esta ponte.

Se você ainda busca, há blogs maravilhosos no espaço virtual, alguns deles indicados aqui ao lado, outros por descobrir, por surgir. Talvez você mesmo se inspire a dedicar-se amorosamente a um blog e compartilhar seus insights. Se você ainda busca, desejo que não busque mais, que apenas desfrute do que você já encontra, do que já se encontra -- neste momento, estes olhos que pousam sobre a tela, a consciência do olhar, e de que como dele nasce o mundo... A conscência de poder ler, de poder aprender, a mágica de transformar estas letrinhas em uma mensagem, em uma emoção, em uma voz que soa na sua cabeça, e você a ouve a-g-o-r-a, mesmo silenciosa... O mistério que faz com que estes símbolos pretinhos signifiquem alguma coisa, enquanto que outros talvez não... A consciência da consciência... E a consciência da respiração, do ar que inspiramos e expiramos e todos, todos sobre o planeta, compartilhamos. Agora.

Sobretudo: pratique.

Em algum outro lugar, o paraserzen continua. Este blog nasceu para compartilhar um caminho, e o caminho não terminou. O paraserzen é também gratidão e uma homenagem a um amor. Um amor imorredouro. Amor, o paraserzen. Ele continua, sereno, silencioso, sincero, sutil.

Inspirando, expirando, estamos todos juntos.

Como o chá, lendo -- você e eu--  e escrevendo -- eu e você --, nós intersomos.

Para você Paz, Amor e Alegria.

E um bom dia a cada dia, um dia bom a cada dia.


 

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Notas do blog:

foto do topo ©chikache; para ver mais destas lindas fotos por favor acesse:

http://www.flickr.com/photos/chikache/sets/439295/

Na foto acima, o "Pháp Easy", um monge muito especial que conheci em Plum Village, e que está sempre nos dizendo "Easy", "Relax", "Enjoy"...

Por fim, não pretendo tirar o paraserzen do ar, mas isso provavelmente será feito pelo próprio site que o hospeda, por falta de uso e acessos -- só não sei dizer quando. Por ora, se desejar consultar alguma das postagens anteriores do blog -- cerca de mil -- , por favor clique aqui para ter acesso à totalidade do acervo do paraserzen, imagens incluso.

Obrigado.

 

10:46 | Permalink | Comentários (56) | Tags: fim

24.06.2009

Um, dois, três

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Deixem-me terminar com uma anedota que, como todas as anedotas, não diz nada e diz tudo. O primo de um aluno meu, nos anos em que Kennedy havia criado aquela força de paz para enviar ao chamado “Terceiro Mundo” foi realizar uma tarefa docente em um pequeno povoado da África. Mas não queria ensinar às crianças nada do que sabia, porque considerava um ato de colonialismo. A única coisa que aceitou fazer foi dar aulas de ginástica. Um dia, chegou diante das crianças com uma caixa de balas e não sei o que mais. Todas as crianças esperavam esse jovem alto, bom, grande. E o jovem americano lhes disse: “Olhem aquela árvore ali, a cem ou duzentos metros; eu vou contar ‘Um, dois, três’ e vocês vão começar a correr. Quem ganhar terá os prêmios merecidos.” Os sete ou oito meninos do povoado estavam nervosos. Ele disse ‘um, dois, três’ e todos os meninos do povoado deram-se as mãos e correram juntos: queriam dividir o prêmio. Sua felicidade era a felicidade de todos.

 

 

Raimon Panikkar, O Espírito da Política - Homo Politicus (originalmente publicado em 1999 na Espanha, editado em 2005 no Brasil pela Triom)

 

 

 

Notas do blog: foto ©mashada; deixo você com uma Chuva de Bençãos, antiga postagem de um e-mail que enviei a meus amigos, e que continua sempre atual -- a gratidão é cotidiana, diante da água encanada e de um cobertor, seja do que for... E o vídeo para encerrar é um trecho de 25 segundos do final do filme Into the Wild, que contém a mesma conclusão da canção Wave -- é impossível ser feliz sozinho...

 

 

E por favor atente aos novos links preciosos acrescentados ao box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela: dos amigos de Portugal, com sua costumeira capacidade para a beleza, a poesia e a sabedoria, chegam o vasto Reino de Shambala, do Moysés, e a Ana nos traz a delicadeza e sutileza das imagens poéticas e bisextas do habitado... Um porquê meditar pode ser respondido pelo excelente e belo Arte Zen, e no esferamanuscrita você lê as poesias de insight da Rita... Desfrute!

A história das crianças africanas acima comoveu-te? Quer dar as maõs a teus irmãos e amigos, quer participar de um abraço planetário? Você pode acessar o site do Médicos sem Fronteiras, cujo link passa a ficar permanentemente disponível no box Sites recomendados, e fazer a sua doação.

Obrigado.

23.06.2009

Para a sua iluminação

Cada um coloca seu ponto final onde quer, onde pode. Colocá-lo o mais longe possível, obriga-nos a sermos um pouco mais sábios e um pouco menos pretensiosos.


A frase acima, de Jean-Yves Leloup (em O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003) conversa com estes dias e o vídeo abaixo, da música Berlin, colaboração de Alva Noto -- músico que compõe a partir de sons cotidianos desprezados, como modems, impressoras, fax, fotocopiadoras, chiados, interferências (que, com sua milagrosa estética da estática, recorda-me de que todas as coisas são iluminadas, belas, contém em si Amor) --, com o mestre Ryuichi Sakamoto ao piano, autor entre outras maravilhas das trillhas sonoras de Merry Xmas, Mr. Lawrence e The Sheltering Sky. Microscópica delicadeza e sutileza cirúrgica também no vídeo de Karl Kliem-- a derradeira canção de ninar para o paraserzen.

União, desunião, reunião -- para a sua iluminação.

 

 

Não apenas assista ao vídeo acima -- talvez melhor visualizado no escuro --, muito sutil, repleto de texturas (apesar da qualidade sofrível do Youtube). Por favor, enxergue. Perceba. Dê-se conta dos seus olhos, dê-se conta do fundo dos seus olhos. Funcionando agora mesmo. Dê-se conta do seu próprio olhar, desse olhar na moldura das suas pálpebras, desse olhar que vem do fundo, que vem de tudo, do conjunto... Neste exato momento. Desfrute dessa benção que é enxergar, esta maravilha disponível agora mesmo, da qual usufruimos sem fazer esforço. Você vê? Dê-se conta da luz que emana desta tela e que já não está fora, também está dentro, no mesmo momento, está na sua consciência -- agora mesmo! --, já não há dentro nem fora...

Não apenas escute esta música... De onde ela vem, para onde ela vai... Vindo de fora, indo para dentro... Agora, não há nenhum dentro nem fora, limite nenhum, há apenas agora, sempre agora... Por favor, desfrute da sua audição, desta graça maravilhosa, não simplesmente ouça -- tenha consciência do ouvir...

Assim como a respiração, sempre aqui, sempre aqui, sempre aqui... Agora mesmo, neste instante, aqui, diante desta tela... Aperceba-se... O que mais há? O Sol, a energia que anima esta tela, a água que jorra da torneira, o que mais -- tudo vindo de tão longe, e agora tão perto, tão agora, tão aqui, tornando possível este momento... É este momento que nos torna possíveis ou somos nós que tornamos possível este momento?... Nós somos -- e-s-t-e  m-o-m-e-n-t-o.

 

Se desejar, veja e ouça também Trioon I, do mesmo trio Noto+Sakamoto+Kliem. A irresistível beleza desta música mínima inspirou outros internautas a criarem vídeos sobre Moon e Aurora. Desfrute, agradecendo à vida.

Obrigado.

22.06.2009

Resumindo

Se pudesse resumir o paraserzen como um percurso, em apenas algumas frases e todas elas de postagens anteriores, seriam elas (com seus respectivos autores):

 

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A gente tá na vida emprestado.

Sabedoria popular brasileira

 

Observe atentamente o caminho que seu coração aponta e escolha esse caminho com todas as forças.

Provérbio hassídico


Pensar que hemos de entrar en el cielo, y no entrar en nosotros... es desatino.

Santa Teresa D'Ávila


-- Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus!

João Guimarães Rosa


Deus me deu o dom da liberdade para pensar um pouco mais em minha alma.

San Juan de la Cruz

 

O essencial não é pensar muito -- é amar muito.

Santa Teresa d'Ávila

 

Ninguém é correto em amor, ninguém jamais ama o bastante.

Jean-Yves Leloup


Onde não há amor
coloca o amor
e receberá o amor.

San Juan de la Cruz


Por favor, nunca acredite que o amor não está presente em você, porque isso não é verdade. O amor está sempre em você, como a luz do sol que, mesmo quando chove, brilha acima das nuvens.

Thich Nhat Hanh


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Dedico esta postagem a todos os meus ancestrais espirituais, à sua presente manifestação no Thich Nhat Hanh, a todos os meus irmãos e irmãs de prática espiritual, em todas as tradições ou fora delas; dedico esta postagem a todos os meus ancestres de sangue, desde os tempos imemoriais, e especialmente aos meus pais e ao meu irmão, com gratidão e amor; e a todos os meus ancestrais animais, vegetais e mineriais; dedico esta postagem a todos os nossos descendentes -- em todos os tempos e em todas as direções possamos todos ter e viver em Paz, Alegria e Amor.

Bijam.

09:33 Escrito em Amor/Love | Permalink | Comentários (4) | Tags: amor

21.06.2009

Eu sou livre

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Inspirando, expirando
eu me abro como uma flor.
Sou fresco como o orvalho.
Sou sólido como a montanha.
Sou firme como a terra.
Sou a água que reflete
o que é real, o que é verdadeiro.
Sou espaço, sou livre.

O Buda é a minha plena consciência
brilhando perto, brilhando longe.
O Dharma é minha respiração
guardando corpo e mente.
A Sangha é meus skandhas,
trabalhando em harmonia.
Tomando refúgio em mim mesmo,
voltando a mim mesmo,
eu sou livre.

 

 

gatha de Plum Village

 

I like the dafodils - Young monks.jpg

 

Notas do blog: na foto acima, alguns do queridos Irmãos vietnamitas de Plum Village, que estão entre as pessoas mais livres que conheço. Liberdade é uma prática, não uma idéia, e é muita prática de liberdade o que meus irmãos monásticos têm.

Em Setembro deste ano teremos o privilégio de receber a visita de dois monges vindos de Plum Village, centro de prática na tradição do mestre zen Thich Nhat Hanh, que durante aquele mês oferecerão palestras públicas e retiros no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Recife -- para saber mais e participar, acesse os links dos blogs das Sanghas ao lado, na coluna à esquerda da sua tela.

Obrigado.

20.06.2009

Silêncio é...

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Silêncio é mansidão
Quando você não defende a si mesmo contra as ofensas
Quando você não chama por seus direitos
Quando você deixa Deus defende-lo
Silêncio é mansidão...

Silêncio é misericórdia
Quando você não revela a outros a falta de seus irmãos
Quando você prontamente perdoa sem remexer o passado
Quando você não julga, mas ora em seu coração
Silêncio é misericórdia...

Silêncio é paciência
Quando você aceita sofrimentos sem reclamar, alegremente
Quando você não procura consolações humanas
Quando você não se torna muito excitado
Mas espera, paciente, que a semente germine
Silêncio é paciência...

Silêncio é humildade
Quando não há competição
Quando você considera a outra pessoa melhor do que você
Quando deixa seu irmão brotar, crescer e amadurecer
Quando você, alegremente, abandona tudo no Senhor
Quando as suas ações podem ser mal interpretadas
Quando você deixa para outros a gloria da recompensa
Silêncio é humildade...

Silêncio é fé
Quando você guarda silêncio porque sabe que o Senhor agirá
Quando você renuncia à voz do mundo para manter-se na presença do Senhor
Quando você não se esforça para ser entendido
Porque é suficiente para você saber que o Senhor o entende
Silêncio é fé...

Silêncio é adoração
Quando você abraça a cruz sem perguntar “por quê”
Silêncio é adoração...


Madre Teresa de Calcutá

 

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Notas do blog: infelizmente, não consegui comprovar a autoria deste texto, do qual tenho simplesmente uma antiga fotocópia já desbotando... De qualquer forma, seria uma tradução da qual não haveria como checar a fonte, portanto tome cuidado ao ler e creditar...

Lembro-me do meu Kyrie, de tantos anos atrás, até pelas palavras que compartilhamos... Juntamente com o chá, o silêncio tem sido um dos temas preferidos do paraserzen, e há um Espaço Silêncio no coração deste blog...  As imagens acima são do excelente fotógrafo vietnamita Ly Hoang Long, cujo site pode ser visitado em:  http://www.lylongphoto.com/

Obrigado.

19.06.2009

O nascimento da borboleta

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Esta experiência é única. Nela ocorre algo que nunca poderemos esquecer e que não poderemos também explicar. [...] Em um itinerário espiritual, deve-se fazer desta experiência uma oportunidade de iniciação. Não considerá-la como algo que jamais se reproduzirá ou como uma graça maravilhosa que queremos que se repita a todo instante. Porque esta experiência é uma revelação de nossa natureza verdadeira.

[...] São momentos em que, efetivamente, a paz dura um pouco mais e onde, no interior de nossa mente, o silêncio torna-se algo real. [...] é preciso acolher estes momentos gratificantes com gratidão, mas, ao mesmo tempo, não se apegar a eles e não procura-los. [...] Porque, se nós nos apegamos a estes momentos, se quisermos reencontrá-los sem cessar, em lugar de nos ajudarem a avançar, eles nos param, nos bloqueiam, fazendo-nos entrar em uma espécie de complacência com eles. [...] A vida, porém, é uma grande mestra e se encarrega de tirar nossas ilusões.

[...] E o sinal de que a experiência numinosa realmente nos tocou é que não podemos mais viver da mesma maneira que antes. [...] Porque podemos ter tido experiências maravilhosas e magníficas, mas concretamente, em que elas mudaram as nossas vidas? O que mudou em nossa vida cotidiana? Dessa maneira, podemos ter necessidade de uma prática, de um método em nosso itinerário.

[...] ao final de um itinerário espiritual não sobra muito da imagem que se tinha de si mesmo no início do processo. É como se houvesse uma morte de si mesmo. Mas esta morte não é o fim. O que alguns chamam de morte da lagarta, outros chamam de nascimento da borboleta.

 

Jean-Yves Leloup em Terapeutas do Deserto (com Leonardo Boff, Editora Vozes, Petrópolis, 2002)

 

Nota do blog: só gostaria de compartilhar o melhor conselho que ouvi em toda a minha vida, e que pela primeira vez ouvi claramente da Lia Diskin, da Associação Palas Athena, e que depois ouvi de muitos outros mestres: Minha gente, hay que praticar.

É este o caminho.

18.06.2009

A estrada que não tomei

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Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava
Quando se perdia entre os arbustos;

Depois tomei a outra, igualmente bela,
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,

E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabendo como caminhos sucedem a caminhos,
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

É com um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez a diferença toda.



Robert Frost (1874-1963), Tradução de José Alberto Oliveira

 

Notas do blog: para ler (e ouvir) o poema The Road Not Taken, por favor acesse:

http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15717

foto ©Yoav Galai; se desejar ver mais fotos desta série por favor acesse:

http://www.yoavgalai.com/

17.06.2009

Trocamos de idéias, e nada mais

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O engano liberal consiste em crer que, mudando as idéias, tudo o mais será transformado – e que as pessoas podem ter idéias justas independentemente da situação em que se encontrem. O pregador dirá ao leigo: “Tenha uma consciência clara, mude sua forma de pensar e mudaremos as idéias”. Isto também é exato – até certo ponto. Sem uma nova tomada de consciência não é possível produzir nenhuma mudança; como não nos atrevemos a mudar o resto, ao mudar as idéias trocamos de idéias, e nada mais. E tudo continua como antes. Poderíamos lembrar de Mateus (23:3): “Dizem, mas não fazem”. A mesma idéia se encontra no Dhammapada (IV,8): “Estéreis são os discursos dos que não põem em prática”.

 

Raimon Panikkar, O Espírito da Política - Homo Politicus (originalmente publicado em 1999 na Espanha, editado em 2005 no Brasil pela Triom)

 

Notas do blog:  lembra-me muito a famosa frase de Giuseppe Tomasi de Lampedusa (1896-1957) em seu belo livro Il Gattopardo, "Se você quiser que as coisas permaneçam como estão, as coisas terão de mudar"; foto de escultura baseada no Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, Estocolmo, Suécia ©cuddesdon1971

16.06.2009

Por que palavras?

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Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu:" As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou," por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

 

Tam Hyuen Van

 

Notas do blog: para ler comentários do autor desta história, por favor acesse: http://tamhaovan.multiply.com/journal/item/34

ilustração de Yoshitoshi Tsukioka, Lua da Iluminação: Cem visões da Lua (Moon of Enlightenment: One Hundred Views of the Moon, 1885-1892); para ver mais desta série por favor acesse http://yoshitoshi.verwoerd.info/


The night clouds dissolve
Hotei pointing at the moon
holds no opinion

15.06.2009

Quando se deixa encontrar

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Graf Dürckheim [...] me disse:

-- É minha prática desde muitos anos. Na postura zen, que eu preconizo, se está nas melhores condições para invocar o Nome de Jesus. O Nome d”Aquele que É”: “Eu Sou”... Não digo isso de modo sempre explícito, isso é uma graça que cada um pode descobrir quando se deixa encontrar... Não somos nós, com efeito, que procuramos Deus, é Deus que nos procura...

Como eu me aventurasse a retrucar:

-- Mas invocar o Nome de Jesus durante a postura silenciosa não significa trair o zen? Não é preciso guardar pura a vacuidade?

Ele olhou-me sorrindo, sabendo que ressonância essas palavras podiam ter em mim (no dia anterior, havíamos evocado Mestre Eckhart!).

-- Não foi Jesus que nos conduziu ao perfeito silêncio, à pura vacuidade que está no seio do Pai? Não procure demais explicar tudo isso, não tenha medo do silêncio puro para onde o conduz a invocação do Nome de Jesus, porque ele o conduz mais seguramente do que quando você quer fabricar o vazio com seu pequeno eu místico!

 

Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)

 

Notas do blog: este diálogo é, basicamente, uma boa explicação não-budista para a prática de apranihita; acima, Sidarta e Jesus, ilustração de Don Mak (site maravilhoso deste excelente ilustrador, cheio de histórias e insights, desfrute!), que colhi no blog El Gran Cambio do querido Ernesto Morales (cujo link encontra-se disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela), juntamente com o insight que gosto sempre de lembrar: Buda não era budista, Jesus não era cristão.

Dedico esta postagem aos queridos Carla e Kiko.

14.06.2009

Rituais

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Os moradores ribeirinhos acreditavam que as águas do Banganga podiam lavar o mau carma, tanto da vida presente quanto das vidas pregressas e, assim, com freqüência, mergulhavam nele, mesmo a temperaturas congelantes. Um dia, enquanto estava sentado ao longo da barranca junto com seu servo, Sidarta perguntou: “Chana, você crê que as águas deste rio podem levar embora o carma negativo?”

“Deve ser assim, Alteza, pois, de outro modo, por que tantas pessoas viriam aqui para se lavarem?”

Sidarta sorriu. “Bem, então, o camarão, o peixe e as ostras que passam suas vidas inteiras submersos nestas águas devem ser as criaturas mais puras e virtuosas de todas!”

 

Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas – Seguindo as Pegadas do Buda (Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, tradução do original de 1991)

13.06.2009

Para ajudar o céu azul

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continuação da postagem anterior, do livro de Thich Nhat Hanh, Serenando a mente – O olhar budista sobre o medo e o terrorismo (Editora Vozes, Petrópolis, 2007):

 

A condição básica para se alcançar o Reino de Deus é estar livre do medo, da desesperança, da raiva e da ânsia. A prática da plena consciência permite-nos reconhecer a presença da nuvem, da nevoa e das tormentas. Mas também podemos reparar no céu azul detrás disso tudo. Temos a inteligência, coragem e estabilidade suficientes para ajudar o céu azul a se revelar novamente.

Às vezes me perguntam o que pode ser feito para ajudar o Reino dos Céus a se revelar. É uma pergunta muito útil. É como perguntar o que se pode fazer para diminuir o nível de violência e do medo que estão dominando nossa sociedade. Esta é uma pergunta que muitos já fizemos. Ao dar um passo com estabilidade, solidez e liberdade, você contribui para varrer a desesperança do céu. Quando centenas de pessoas caminham juntas atentamente, gerando a energia de solidez, estabilidade, liberdade e alegria, estamos ajudando a nossa sociedade. Quando sabemos olhar para outra pessoa com olhos compassivos, quando sabemos sorrir para ela com esse espírito de compreensão, estamos ajudando o Reino dos Céus a se revelar. Quando inspiramos e expiramos com plena consciência, nós estamos ajudando a Terra Pura a se revelar. Em todo momento da vida cotidiana nós podemos fazer alguma coisa para ajudar o Reino dos Céus a ser revelar. Não se deixe dominar pela desesperança. Podemos usar cada minuto e cada hora do nosso dia-a-dia.

 

 

Notas do blog: sobre restrições a esta tradução, ver a nota da postagem de ontem; sobre a desesperança há uma outra visão muito interessante de Charlotte Joko Beck em Sem esperança; foto Yellowstone ©Jeff Hutchens


12.06.2009

No assobio do vento

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Enquanto pregava no deserto da Judéia, João Batista urgia as pessoas a se arrependerem porque “o Reino de Deus está próximo”. Aqui, eu entendo “arrepender” como “parar”: parar de agir com violência, ânsia e ódio. Arrepender-se significa acordar e perceber que o rumo que estamos adotando como sociedade implica loucura. É encobrir o céu azul. Arrepender-se significa começar de novo. Reconhecemos nossas transgressões e nos banhamos nas águas límpidas dos ensinamentos espirituais de amar o próximo como a nós próprios. Comprometemo-nos a abandonar o ressentimento, o ódio e o orgulho. Começamos de novo com a mente renovada e o coração limpo e determinado a agir melhor. Depois de ser batizado por João, Jesus ensinou o mesmo. E este ensinamento condiz perfeitamente com o ensinamento do budismo. Aqui está a Terra Pura, a Terra Pura está aqui. A Terra Pura está em teu coração. A Terra Pura está muito perto.

Se soubermos começar de novo, se soubermos transformar nossa desesperança, nossa violência e nosso medo, a Terra Pura se revelará para nós e os que nos rodeiam. A Terra Pura não pertence ao futuro. Ela pertence ao aqui-e-agora. Em Plum Village nós usamos uma expressão muito vigorosa: “A Terra Pura é agora ou nunca”. Podemos achar tudo o que procuramos neste momento, inclusive a Terra Pura, o Reino de Deus e nossa natureza de Buda. Temos a possibilidade de alcançar o Reino de Deus com os olhos, os pés, o braços e a mente. Quando estamos atentos, estamos concentrados. Quando sua mente e seu corpo se unem, basta você dar um passo para estar no Reino dos Céus. Quando você está atento, quando está livre, tudo o que você toca – quer as folhas das árvores, quer a neve --, está no Reino dos Céus. Tudo o que você ouve pertence ao Reino dos Céus, seja o canto dos pássaros ou o assobio do vento.

 

Thich Nhat Hanh, Serenando a mente – O olhar budista sobre o medo e o terrorismo, Editora Vozes, Petrópolis, 2007

 

Notas do blog: relutei até hoje em trazer trechos deste livro por conta da tradução, que apesar de correta, erra nos termos usados por Thich Nhat Hanh -- apesar da linguagem tão simples e sensata do monge, ou justamente por isso, a tradução está truncada e não reproduz fielmente a mensagem do Thây.  Alegro-me que a Editora Vozes esteja se empenhando em traduzir os livros deste mestre zen para o público brasileiro, mas cada texto fica a cargo de um tradutor diferente, não há unidade e transparece o desconhecimento desta tradição. Infelizmente, falta coordenação editorial e revisão técnica. Assim, o texto acima foi modificado para o paraserzen e traz diferenças sutis com o publicado pela Editora. A melhor e exemplar publicação de Thich Nhat Hanh no Brasil continua sendo Cultivando a Mente de Amor, da Editora Palas Athena.

No topo, ícone portátil cretense de São João Batista, sec XVII, atribuido a Emmanuel Lambardos, Kythera Byzantine Art Collection, Grécia (para saber mais clique aqui ou acesse o site do Ministério Helênico de Cultura)

 

11.06.2009

Rompe a tela deste doce encontro

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Para a alma que não está preparada tudo se emprega em dispor do espírito, e mesmo depois disto, o fogo ainda custa a atear-se na madeira, seja por causa da muita umidade dela, seja pelo calor insuficiente, ou por ambos os motivos. Naquela, porém, que já está disposta, a ação do amor penetra  em momentos, pois a cada contacto dele a centelha se inflama na madeira já seca. Eis por que a alma deseja mais a brevidade do romper, do que o tempo de cortar e acabar. A quarta (*) é para que se acabe mais depressa a tela da vida. Com efeito, para cortar e acabar alguma coisa, age-se com mais detença esperando que esteja sazonada ou acabada, ou qualquer outra condição: mas para romper, parece que não se espera o tempo adequado nem outra circunstância alguma.


San Juan de la Cruz, A Chama Viva do Amor, tradução de Frei Patrício Sciadini O.C.D., Edições Carmelitanas, São Roque

 

(*) Notas do blog: refere-se às estrofes -- "San Juan de la Cruz explica em texto, a pedido de Dona Ana Peñalosa, os versos das Canções que ele mesmo compôs, em 1584, que tratam da mais íntima e subida união e transformação da alma em Deus" (nota de Frei Patrício Sciadini O.C.D.).

San Juan de la Cruz está entre meus autores preferidos, e das mais frequentes presenças neste blog. Por favor acesse outras postagens de belas fotos e sublimes palavras, com mais links, inclusive para um filme, clicando aqui.

Obrigado.

 

10.06.2009

Não ter nada

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Por vezes chega-se a desesperar porque o desejo do belo e do verdadeiro está ferido por contrários muito vivos. Continuar fiel, apesar de tudo, a este desejo, em uma fé que não exclui a dúvida, mas que a cada dia aprende a superá-la, faz de nós místicos... não religiosos, menos ainda fanáticos, mas céticos que aprenderam a duvidar de suas próprias dúvidas, diante da evidência de um Real que sem cessar lhes escapa e transcende... Muito nomeá-lo seria, sem dúvida, reduzi-lo ou querer tranqüilizar-se, mas não tender para ele seria entravar-se, ou mesmo morrer.

Foi nesse sentido que Malraux pôde dizer: “O século XXI será místico ou não será.”


[...] O crente que não sabe duvidar não do Absoluto, mas de si mesmo, é perigoso. Ele se servirá de um Deus ou de uma verdade que ele “tem” para sujeitar e dominar aqueles que “não têm”.

O místico não “tem” nada.

Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)

 

 

Notas do blog: para ver mais fotos do álbum ao qual pertence a foto acima, por favor acesse este link.

Em outros tempos, o paraserzen esteve de mãos cheias, outras vezes vazias: veja aqui, ou aqui, e aqui, aqui, aqui, aqui. Mais recentemente, de mãos atadas, tentado libertar-se...

 

 

09.06.2009

Viver na terra árida


continuação do trecho de ontem, retirado da autobiografia de Karen Armstrong, A escada espiral - Memórias (Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005):

 

Meus estudos me mostraram que a busca religiosa não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, da maneira mais intensa possível, no aqui e no agora. Não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano – daí as imagens do homem perfeito ou iluminado, ou do ser humano deificado. [...] Certa vez, um sacerdote brâmane perguntou a Buda se ele era um deus, um espírito ou um anjo. Nada disso, Buda respondeu: “Sou um homem desperto!” [...]


Assim, o mito do herói mostra que é psicologicamente danoso viver na terra árida. Quem segue com servilismo as idéias alheias se empobrece e atrofia. [...] A obediência cega e a aceitação impensada de figuras autoritárias podem facilitar o funcionamento de uma instituição, porém as pessoas sujeitas a um regime desses permanecerão num estado de infantilidade e dependência.

 


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Notas do blog: para ler mais trechos deste livro por favor clique abaixo em Tags: Karen Armstrong; para ver mais do autor da foto acima por favor acesse:

http://www.flickr.com/photos/poesia/

08.06.2009

Heróis

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Explicara-me que, na maioria das tradições, religião não tem a ver com crença, e sim com prática. Religião não é aceitar vinte proposições impossíveis antes do café-da-manhã, e sim fazer coisas que podem mudar seu adepto. É uma estética moral, uma alquimia ética. Comportando-se de determinada maneira, o devoto se transformará. Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos dos heróis, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.

 

Karen Armstrong, A escada espiral - Memórias, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005

 

Notas do blog: para ler mais trechos deste livro por favor clique abaixo em Tags: Karen Armstrong; para ver mais fotos desta série por favro acesse http://www.flickr.com/photos/77371991@N00/575709402

06.06.2009

Nada menos que um milagre

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Quando você olha profundamente para um laranja, você percebe que uma laranja, ou qualquer fruta, não é nada menos que um milagre. Tente. Pegue uma laranja e segure-a em sua palma. Inspire e expire lentamente, e olhe para ela como se a estivesse vendo pela primeira vez.

Quando você olha para ela em profundidade, você será capaz de ver muitas coisas maravilhosas: o sol brilhando e a chuva caindo sobre a laranjeira, as flores da laranjeira, a pequenina fruta aparecendo no galho, a cor da fruta mudando de verde para amarelo e, depois, a laranja plenamente madura. Agora, vagarosamente, comece a descasca-la. Sinta o maravilhoso perfume da casca da laranja. Tire um gomo da laranja e ponha-o na boca. Prove o seu suco maravilhoso.

A laranjeira levou três, quatro ou seis meses para produzir esta laranja para você. É um milagre. Agora a laranja está pronta e diz: “estou aqui para você”. Mas se você não estiver presente, você não ouvirá isso. Quando você não está olhando para a laranja no momento presente, a laranja também não estará presente.

Estar plenamente presente enquanto comemos uma laranja, uma casquinha de sorvete ou qualquer outro alimento é uma experiência deliciosa.

 

Thich Nhat Hanh, Eu Busco Refúgio na Sangha – Um caminho espiritual (Editora Vozes, Petrópolis, 2008)

05.06.2009

A grande pergunta

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Por que preocupar-se tanto com seu futuro e estar tão pouco preocupado com a sua eternidade?

A grande pergunta não é” Qual será o meu futuro? Ou qual será o futuro da humanidade ou o futuro da terra? Tudo isso pode durar ainda alguns anos ou milênios, e tudo pode parar de um momento para outro... De todo modo, não se escapa à lei da entropia: “O mundo, tal como o vemos, está desaparecendo.”

A grande pergunta é, de preferência: Qual será minha eternidade, o que fazer de minha vida que escapa ao tempo ou que resgata o tempo?


[...] A inteireza não opõe os dois, refere-se ao meu futuro e à minha eternidade.

 

Jean-Yves Leloup em sua autobiografia O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)

 

Nota do blog: foto The World at my fingertips ©Jill Greenseth; para ver mais fotos, por favor acesse

http://www.flickr.com/photos/blah_oh_well/sets/7215760302...

04.06.2009

o Reino dos Céus

 

 

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dentro dos nossos copos

nuvens flutuam, vêm e vão

-- bebamos então

o Reino dos Céus

 

 

Notas do blog: copos ou corpos? Dedico a postagem de hoje ao querido Armand, com quem compartilhei tantas meditações do chá -- na foto acima, bebendo chá nos jardins do Upper Hamlet, Plum Village durante o Retiro de Inverno 2008/09. Obrigado pelo amor, pelo cuidado, pela irmandade, pela imensa alegria, vigor, poesia, pelos intermináveis sorrisos e abraços -- obrigado por estar sobre a curva deste planeta, e ao mesmo tempo, lá no Avatamsaka -- obrigado por mostrar-me o caminho, por caminhar voando...

Pesquisando no arquivo do blog, descobri que mais de 300 postagens contém a palavra chá -- quase um terço do paraserzen é chá, haha... Clique abaixo em Tags: chá -- e quem sabe pelo menos o paraserzen te inspira a beber nuvens também!

(foto de Leonardo Dobbin)

03.06.2009

Libertar-se

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O grande mestre Rikyu declarou em certa ocasião: “A arte do Caminho do Chá consiste apenas em ferver a água, preparar o chá, e bebê-lo.” Que fácil parece, que simples! E, no entanto, muito pouco são os que descobrem como “viver” a vida, como libertar-se da tirania das coisas, como entregar-se completamente a “algo” e, absorvido nesse seu afazer, excluir qualquer pensamento ou medo das circunstâncias externas e irrelevantes.

 

Horst Hammitzsch em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Editora Pensamento, São Paulo, 1997

 

Notas do blog: a manutenção da liberdade pode converter-se numa prisão...?!

Para ler mais trechos deste inspirador, excelente livro, por favor clique aqui.

 

01.06.2009

Às moscas

Sem palavras, a mensagem profunda sobre a prática.

 

Notas do blog: agradeço ao querido Ilan por ter me possibilitado assistir ao vídeo acima.

E gostaria de compartilhar uma lembrança: demi-koan.

 

30.05.2009

Retratos submarinos

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O vento encrespa as águas e o sol
mergulhando em verdes feixes quebradiços
desenha lindos mosaicos luminosos
nos telhados desta cidade, imaginem!
aquática e sobrenatural.

Na superfície está sonhando
o jovem pescador de baleias.
Seu barco errante afunda
numa longa coluna sombreada
de fronde ampla sobre a praça
onde sereias e marinheiros espectrais
trocam borbulhantes palavras de cristal.

Não poderiam ser mais suaves
os sensíveis dias submarinos.
Crianças espalham-se com a corrente
por entre os brancos arcos plantados
pousados sobre colunas estriadas
cobertas de musgo e algas.

E na tranqüilidade dos vales abissais
velhas jardineiras fazem rodopiar
seus claros canteiros de madrepérola
-- as frágeis, raras bolhas de ar
onde brotam lilases e nenúfares
como reflexos longamente aguardados
dos sorrisos e suspiros cultivados.

E quando no Atlântico desponta
a lua cheia
entre alamedas de corais se encontram
e se tocam as sombras dos namorados.
Peixinhos longos e prateados
nadam à distância em cardumes sinuosos
parecendo assim sem rumo mas seu traçado
nada menos que o céu
de estrelas redesenhado.





Notas do blog: os traços da pintura Sumi-e de agora me lembram os traços da escrita de outrora, criando as mesmas imagens...  Mesmas imagens?  Visite o blog do querido  Lécio Ferreira:

http://umafloreoutrascoisassimples.blogspot.com/2009/05/s...

10:36 Escrito em Águas/Water | Permalink | Comentários (1) | Tags: sincronicidade

29.05.2009

sem título; submersa

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Nota do blog: os traços longos do sumi-e inspiram-me atualmente a pintar paisagens submersas e beiras de rio com suas folhas ondulando à corrente... Curiosamente, outra postagem desta série sem título, bambu, trazia uma paisagem assim tão verde, com o bambu que seria o tema das aulas de Sumi-e que agora faço... E você, o que te inspira?

28.05.2009

O Zen no pincel e na espada

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o pincel pousa

na pausa de um instante

em preto e branco

 

(Rita Brant)

 

 

 

 

 

 

 


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pincel é pena

palavra tinge o papel

e rabisca tons

 

(José Roberto Bueno)

 

 

 

 

 

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passeia o pincel

cabelos negros

venta a água


(paraserzen)

 

 

 

 

Notas do blog: as fotos acima são do curso bun bu ryo do - o pincel e a espada, um só caminho, ministrado atualmente na Palas Athena pelo sensei José Roberto Bueno. Durante as aulas fazemos Aikido e Sumi-e, a arte marcial e a pintura, de acordo com a proposta de "descobrir as qualidades que integram o guerreiro ao artista; tanto no Sumi-e como no Aikido encontram-se os elementos básicos da arte Zen: suavidade, simplicidade, pureza e elegância. Cada traço e cada gesto são vividos como únicos e realizados com todo o ser".

O curso, por privilegiar a prática como é da tradição Zen, tem trazido muito aprendizado, não meramente intelectual, mas de vivência, e tem possibilitado cultivar insights -- o curso em si é um tremendo insight --, que os alunos compartilham de maneiras diversas -- uma delas, nos haiku acima. A aula inspira, fortalece, sutiliza, e traz uma alegria e paz que transbordam semana afora -- pois são fruto da prática e não de mero conhecimento intelectual.

Ficou com vontade de praticar também? Uma nova turma do curso está planejada para o segundo semestre de 2009 -- consulte a excelente programação da Associação Palas Athena -- cujo link está permanentemente disponível no box Sites recomendados, na coluna à direita da sua tela --, que considero uma das minhas casas em São Paulo, e onde fui aprendendo a alicerçar minha (des)construção espiritual, e a qual divulgo com reiterada gratidão e respeito.

Se desejar, veja mais fotos da aula no blog do José Roberto Bueno clicando aqui; para ler mais poesias da Rita Brant, por favor acesse o blog esferamanuscrita.

Paz, Amor e Alegria a todos.

Obrigado.

27.05.2009

O mito da caverna

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Recebo da querida Geralda uma atualização do Mito da Caverna, de Platão, feita por Mauricio de Souza -- será que como humanidade nós saímos da caverna e do mundo das sombras, ou só o modernizamos? Veja a tira inteira no blog Após a Sopa, clicando aqui.

Essa reflexão, tão importante, tão importante, já havia aparecido outras vezes no paraserzen, especialmente em Consumindo a raiva e Janelas abertas.

26.05.2009

Para viver bem

Faço o voto de trazer alegria a uma pessoa pela manhã, e de aliviar o sofrimento de uma pessoa à tarde; vivendo de maneira simples e sensata, com poucos pertences, mantendo meu corpo saudável. Faço o voto de abandonar minhas preocupações e ansiedade de maneira a ser leve e livre.


Nota do blog: entre um sino e outro, este é um trecho do Cântico do Refúgio, como cantado lá em Plum Village -- uma bonita inspiração para todos os nossos dias; traduzido a partir de Chanting from the Heart - Buddhist Ceremonies and Daily Practices, Thich Nhat Hanh and the Monks and Nuns of Plum Village, Parallax Press, 2007

 

 

25.05.2009

Meditação do Abraço

Neste final de semana foi a Meditação do Riso, hoje é a Meditação do Abraço que me inspira -- esta, uma "prática bastante praticada" em Plum Village, o centro de meditação na tradição do mestre Zen Thich Nhat Hanh. A minha memória dos meus últimos 5 dias lá, no fim do Retiro de Inverno, é de percorrer os dias inteiros indo de um abraço a outro, de um amigo a outro, pleno de amor e gratidão... Inspirando, expirando, estamos todos juntos.

Abaixo, reproduzo um trecho da brochura Como desfrutar da sua estadia em Plum Village - Um guia das práticas e atividades, compilado pelos monges e monjas de Plum Village, que traduzi para o Português durante o Retiro de Verão de 2008, e que em breve estará disponível no blog Compartilhando Plum Village:


Quando nos abraçamos, nossos corações se conectam e entendemos que não somos seres separados. Abraçar em plena consciência pode trazer-nos cura, reconciliação, entendimento e muita felicidade. A prática da meditação do abraço tem ajudado muitas pessoas a se reconciliarem – pais e filhos, amigos, casais, etc.

Podemos praticar a meditação do abraço com um amigo, nossa filha, nosso pai, nosso parceiro ou mesmo com uma árvore. Para praticar, primeiro fazemos uma reverência com as palmas das mãos unidas, reconhecendo a presença um do outro. Podemos desfrutar de três respirações profundas em plena consciência, para nos sentirmos inteiramente presentes, e só então abrimos os braços e nos abraçamos. Mantemos o abraço por outras três respirações. Na primeira respiração, estamos conscientes de estarmos presentes naquele exato momento, e sentimo-nos felizes. Na segunda respiração, estamos conscientes de que a outra pessoa está presente naquele momento, e sentimos felicidade. Com a terceira respiração, estamos conscientes de estarmos juntos, aqui e agora neste planeta, e sentimos profunda gratidão e alegria pela nossa união. Então, podemos gentilmente liberar a outra pessoa, fazendo uma reverência mútua para demonstrarmos nosso agradecimento.

Quando nos abraçamos dessa maneira, a outra pessoa se torna real, verdadeiramente viva. Não precisamos esperar até que alguém esteja prestes a viajar, podemos nos abraçar agora mesmo e receber o calor e a estabilidade do nosso amigo, neste presente momento. Abraçar pode ser uma prática profunda de reconciliação. Durante o abraço em silêncio, uma mensagem torna-se bastante clara: “Querido, querida, você é precioso para mim. Sinto não ter sido bastante atencioso e compreensivo. Cometi erros. Por favor permita-me começar de novo. Eu te prometo.”

24.05.2009

Mais sorrisos e risos

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Uma postagem que é uma colagem de outras, inspiradas na postagem de ontem sobre a Meditação do Riso, e no sorriso do meu querido amigo e Irmão Arnold Novak, um dos muitos Budas com quem em Plum Village convivi, a quem faço uma homenagem.

Sofrer não basta

O canal de Buda

O trabalho pela paz

O sorriso do Buda

O mundo muda

Por todas as pessoas

 

Com gratidão, com respeito, com admiração -- com amor.

 

 

23.05.2009

Merci!

Assistindo hoje ao vídeo abaixo, que encontrei no blog Pensando Zen (cujo link está sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela), lembrei-me das nossas maravilhosas sessões de Laughing Meditation - Meditação do Riso, promovidas pelo belo Brandt no início do Retiro de Inverno 2008/2009 em Plum Village... Obrigado ao Brandt pela iniciativa, pela gentileza, delicadeza, inocência, sinceridade, dedicação e que você possa superar todo o sofrimento e ser feliz -- monge ordenado na Tailândia ou onde quer que esteja, peregrinando... Merci a tous!

Desfrutem!

Se o vídeo acima não funcionar, por favor acesse:

http://www.youtube.com/watch?v=jedd2FiZTqM

22.05.2009

Quando uma ponte não se estende

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Que enorme distância abissal

quando uma ponte não se estende

entre o agora

e o meu interno tempo -- eterno.

 

 

Notas do blog: este é um poema de juventude, e a prática que me ensina o Buda tem ajudado a minorar os abismos, desfazendo e implodindo o interno, desarmando e explodindo o eterno, desobrigando-me deles, para ficar somente o agora. Lembrou-me as pontes que atravessei quando viajando pela região de Ladakh, nos Himalaias, como na foto acima (Hanupatta, Zanskar - altitude 3400 m ©Hisashi Yuya) -- se desejar ver mais fotos dessa região maravilhosa do planeta, acesse a página abaixo, cortesia e ©P. van de Haar:

http://www.footootjes.nl/Panoramas_Ladakh_2008/Panoramas_...

Clicando em cada foto, aparentemente distorcida, abre-se uma outra tela panorâmica, em que você pode passear com o mouse pela fotografia, e viajar também pelas paisagens deslumbrantes que visitei, até dentro dos vastos céus dos Himalaias.

Se desejar ver outras postagens breves sobre minha viagem de aventura a Ladakh, clique aqui. Desfrute. O planeta é imenso, e começa sob os seus pés.

Dedico esta postagem ao amigo Ilan. Com gratidão.

20.05.2009

O pássaro e o tempo

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[...]

Na antiga floresta de Dai Lao, na encosta de uma colina, ficava uma cabana de eremita. Ali, um monge tinha vivido por quase cinqüenta anos. O pássaro voava freqüentemente sobre a floresta de Dai Lao, e de tempos em tempos via o monge descendo vagarosamente a trilha até a fonte, trazendo uma jarra de água na mão. Um dia, o pássaro viu dois monges andando juntos na trilha que levava da fonte à cabana e, naquela noite, escondido pelos galhos de uma árvore, observou enquanto a luz do fogo tremulava dentro da cabana e os dois monges dialogaram a noite inteira.

O pássaro voava alto sobre a antiga floresta, algumas vezes dias seguidos sem pousar. Lá embaixo ficava a grande árvore, e as criaturas da montanha e da floresta, cobertas pela relva, pelos arbustos e árvores. Desde o dia em que o pássaro ouviu o diálogo entre os monges, sua perplexidade cresceu. De onde vim e para onde vou? Quantos milhares de anos viverá a grande árvore?

O pássaro ouvira os monges falarem sobre o tempo. O que era o tempo? Por que o tempo nos trouxe aqui, e por que irá nos levar embora? A noz que um pássaro come tem sua própria deliciosa natureza. Como posso descobrir a natureza do tempo? O pássaro queria recolher um pequeno pedaço de tempo e ficar quieto em seu ninho por muitos dias para examinar sua natureza. Mesmo que levasse meses ou anos para examina-lo, o pássaro estava disposto a isso.

Planando alto por sobre a antiga floresta, o pássaro se sentia como um balão vagando em meio ao nada. Ele sentia que sua natureza era tão vazia quanto a do balão, e esse vazio era o solo de sua existência e a causa do seu sofrimento também. Se eu pudesse encontrar o tempo, pensava o pássaro, certamente eu encontraria a mim mesmo...



Notas do blog: trecho de um conto escrito por Thich Nhat Hanh, The Ancient Tree, no livro The Stone Boy and other stories, Parallax Press, 1996, tradução deste blog; ilustração ©nicole annette

19.05.2009

+ delicadeza

 

 

 

 

voltando às postagens da delicadeza, compartilho esta que nos chega pelo Oren Lavie, músico israelense, em seu vídeo stop motion.

Se não for possível assistir ao vídeo no formato acima, por favor acesse:

http://www.youtube.com/watch?v=2_HXUhShhmY

Se desejar verficar a letra da canção Her morning elegance, por favor acesse:

http://www.lyricsmode.com/lyrics/o/oren_lavie/her_morning...

Para mais delicadeza, acesse o tag abaixo com este nome, e terá uma surpresa. Ou não.

Dedico esta postagem à Geralda, em quem penso como sinônimo de delicada delicadeza e generosa gentileza.

18.05.2009

Dia após dia

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As mudanças que ocorrem através da prática espiritual não são da sua alçada. Se tentarem fazer destas mudanças a sua alçada, vocês tentarão mudar a sua vida, diretamente. Se tentarem mudar a sua vida diretamente, isto não os satisfará, não importa quanto tempo vocês gastem com isto. Se quiserem mudar a sua vida, de verdade, devem somente formar a rotina de fazer as pequenas coisas, dia após dia. Aí então sua vida mudará além das expectativas. Se praticarem continuamente, dia após dia, vocês se tornarão pessoas pacíficas, gentis, e harmoniosas. Não há explicação para isto.

 

Dainin Katagiri, You Have to Say Something: Manifesting Zen Insight

 

Notas do blog: trecho de um texto traduzido por Lucas Seigaku e publicado no blog Pensando Zen , cujo link fica disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela -- para ler mais por favor clique aqui.

Foto © rinko kawauchi; para ver mais fotos deste artista do cotidiano por favor acesse:

http://www.designboom.com/contemporary/kawauchi.html

 

Esta postagem, e a mensagem nela contida, é dedicada a VOCÊ.

17.05.2009

Uma Arte

Terminando a semana... Mas não tem semana nenhuma, só um dia após o outro, e não há nenhum dia, só o conceito de dia...
Recomeçando: continuando a vida, este poema:
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A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.

 

Elizabeth Bishop

 

Notas do blog: tradução de Horácio Costa para Uma Arte; se preferir ler este poema -- que há tempos na minha vida existe, e persite, resiste, insiste -- no original, por favor acesse a postagem The beginning and the end.

foto©aphoenix.ca

16.05.2009

o Zen é intransitivo

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Zazen literalmente significa Sentar Zen. Zen é uma palavra que vem do Sânscrito Dhyana ou Jhana e significa um estado meditativo profundo. Geralmente não chamamos o Zazen de meditação, pois o verbo meditar é transitivo direto, ou seja, requer um objeto. Meditar sobre a vida, meditar algo. Enquanto que o Zen é intransitivo. Não há objeto de meditação. Até o sujeito desaparece. E quando isso acontece o Caminho se manifesta em sua plenitude.

Monja Coen (de um folheto do Retiro O Caminho Zen)


Nota do blog: zazen, foto da Monja Coen num retiro em Minas Gerais; se desejar ler mais por favor acesse: http://www.monjacoen.com.br/

 

15.05.2009

Pausa para inspirar

No início, podemos achar que há um “eu” inspirando e expirando. Mas se praticarmos realmente, iremos descobrir que ninguém está inspirando ou expirando. Há somente a inspiração acontecendo, e a expiração acontecendo. Claro que há a intenção de inspirar, a intenção de expirar, o prazer de inspirar, o prazer de expirar. O fato é que a respiração está lá, existe. Mas você não precisa de um “ser respirador” para respirar. Isso pode ser difícil de aceitar, no começo, porque você ainda está no nível da conceitualização. Porém, com um pouco de prática você irá enxergar e tocar a verdade. Não há um “respirador”, há somente a respiração acontecendo. Não há um pensador, há apenas os pensamentos se sucedendo.

Nós não estamos familiarizados com isso, porque achamos que precisa existir um pensador para tornar possível o pensar. Penso, logo existo, logo sou. Se o eu não existir, o pensar não poderá existir, então o fato de o pensamento existir é uma prova de que há um “eu”, um pensador.

Há uma diferença de pensamento, de percepção das coisas, dentro dessa tradição. E todos nós fomos influenciados pelo modo cartesiano de pensar -- precisamos reconsiderar isso.

Você está convidado a inspirar e a olhar em profundidade e ver que, enquanto está inspirando, todos os seus ancestrais estão inspirando junto com você.
[pausa para inspirar] E este é o início da verdadeira experiência do não-eu.

 

Thich Nhat Hanh

 

Notas do blog: mais um trecho da palestra dada recentemente pelo Thây, no dia 26 de Março de 2009, cujo áudio original -- em Inglês -- encontra-se disponível acessando o site Lang Mai. Quando estiver traduzida e transcrita, será publicada no blog Compartilhando Plum Village, onde já estão disponíveis outras Palestras e textos longos do Thich Nhat Hanh.

Para ler mais sobre o não-eu, acesse as postagens anteriores Decepção e o vasto oceano, Mente e corpos saudáveis, e a excelente O martelo, onde há links para outras postagens ainda mais antigas, entre as minhas preferidas, sobre o mesmo tema -- esta proposta de conversa entre postagens está no cerne da missão deste blog, que é compartilhar um caminho de paz. Obrigado!