04.06.2009

o Reino dos Céus

 

 

Armandteameditationweb.jpg

 

 

dentro dos nossos copos

nuvens flutuam, vêm e vão

-- bebamos então

o Reino dos Céus

 

 

Notas do blog: copos ou corpos? Dedico a postagem de hoje ao querido Armand, com quem compartilhei tantas meditações do chá -- na foto acima, bebendo chá nos jardins do Upper Hamlet, Plum Village durante o Retiro de Inverno 2008/09. Obrigado pelo amor, pelo cuidado, pela irmandade, pela imensa alegria, vigor, poesia, pelos intermináveis sorrisos e abraços -- obrigado por estar sobre a curva deste planeta, e ao mesmo tempo, lá no Avatamsaka -- obrigado por mostrar-me o caminho, por caminhar voando...

Pesquisando no arquivo do blog, descobri que mais de 300 postagens contém a palavra chá -- quase um terço do paraserzen é chá, haha... Clique abaixo em Tags: chá -- e quem sabe pelo menos o paraserzen te inspira a beber nuvens também!

(foto de Leonardo Dobbin)

30.05.2009

Retratos submarinos

underwaterview.jpg





O vento encrespa as águas e o sol
mergulhando em verdes feixes quebradiços
desenha lindos mosaicos luminosos
nos telhados desta cidade, imaginem!
aquática e sobrenatural.

Na superfície está sonhando
o jovem pescador de baleias.
Seu barco errante afunda
numa longa coluna sombreada
de fronde ampla sobre a praça
onde sereias e marinheiros espectrais
trocam borbulhantes palavras de cristal.

Não poderiam ser mais suaves
os sensíveis dias submarinos.
Crianças espalham-se com a corrente
por entre os brancos arcos plantados
pousados sobre colunas estriadas
cobertas de musgo e algas.

E na tranqüilidade dos vales abissais
velhas jardineiras fazem rodopiar
seus claros canteiros de madrepérola
-- as frágeis, raras bolhas de ar
onde brotam lilases e nenúfares
como reflexos longamente aguardados
dos sorrisos e suspiros cultivados.

E quando no Atlântico desponta
a lua cheia
entre alamedas de corais se encontram
e se tocam as sombras dos namorados.
Peixinhos longos e prateados
nadam à distância em cardumes sinuosos
parecendo assim sem rumo mas seu traçado
nada menos que o céu
de estrelas redesenhado.





Notas do blog: os traços da pintura Sumi-e de agora me lembram os traços da escrita de outrora, criando as mesmas imagens...  Mesmas imagens?  Visite o blog do querido  Lécio Ferreira:

http://umafloreoutrascoisassimples.blogspot.com/2009/05/s...

29.05.2009

sem título; submersa

about.jpg




Nota do blog: os traços longos do sumi-e inspiram-me atualmente a pintar paisagens submersas e beiras de rio com suas folhas ondulando à corrente... Curiosamente, outra postagem desta série sem título, bambu, trazia uma paisagem assim tão verde, com o bambu que seria o tema das aulas de Sumi-e que agora faço... E você, o que te inspira?

17.03.2009

O caminho até o mar

driftwood-for-web.jpg




[O Buda] Parou para observar um pedaço de madeira sendo carregado pela correnteza. Ele chamou os outros monges, apontou para o objeto na água e disse: “Bhikkhus! Se aquele pedaço de madeira não ficar preso contra as margens, não afundar, não encalhar num banco de areia, não for retirado da água, não for capturado por algum redemoinho, não apodrecer de dentro para fora, ele flutuará por todo o caminho até atingir o mar. Semelhantemente, é o mesmo para vocês em relação ao caminho. Se vocês não encalharem num banco de areia, se não forem retirados da água, se não se deixarem apanhar por um redemoinho, se não apodrecerem de dentro para fora, certamente atingirão o grande mar da iluminação e emancipação.

Um dos discípulos solicitou: “Por favor, Senhor, explique isso mais detalhadamente. O que significar ficar preso contra as margens, afundar, ou encalhar em bancos de areia?”

O Buda respondeu: “Ficar preso contra as margens é ficar enredado nos seis sentidos e seus objetos. Se vocês praticarem diligentemente, não ficarão enredados em sentimentos que resultam do contato entre os sentidos e seus objetos. Afundar significa tornar-se escravo de desejos e apegos, os quais roubam de vocês a força necessária para manter a sua prática. Encalhar em bancos de areia significa preocupar-se em atender apenas aos seus próprios interesses, sempre buscando vantagens e prestígio para si mesmo, enquanto se esquece da meta da iluminação. Ser retirado da água significa perder-se na dispersão, vagueando em companhia de pessoas sem caráter, ao invés de persistir na prática. Ser apanhado em um redemoinho significa atrelar-se às cinco categorias de desejo – ser capturado por boa comida, sexo, dinheiro, fama e sono. Apodrecer de dentro para fora significa viver uma vida de falsa virtude, decepcionando a sangha enquanto faz uso do Dharma para servir aos seus próprios caprichos.”

“Bhikkhus, se praticarem com diligência e evitarem estas seis armadilhas, vocês certamente atingirão o fruto da iluminação, exatamente como aquele pedaço de madeira atingirá o mar se sobrepujar todos os obstáculos.”



Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas – Seguindo as Pegadas do Buda (Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, de original de 1991)


Nota do blog: para ler outros trechos deste maravilhoso livro, essencial, publicados neste blog, clique baixo em Tags Velho Caminho, Nuvens Brancas, e as outras postagens irão aparecer, ou dirija-se ao site da Editora Bodigaya:
http://www.bodigaya.com.br/

26.02.2009

Em busca da nascente do rio Ganges

1756216-avalanche_at_Gaumukh_source_of_the_Ganges-Gangotri.jpg



Certa vez, vi um documentário na televisão em que se procurava a nascente do rio Ganges, em uma viagem na qual se subia até as geleiras do Himalaia. Mas é impossível identificar aquela primeira gota de água derretendo-se das neves eternas do Himalaia. As geleiras nascem da neve, dos nevoeiros, das nuvens, da evaporação, e a nascente do rio nunca pode ser encontrada.


Hiroyuki Itsuki em Tariki, Aceitando o Desespero e Descobrindo a Paz, Editora Bertrand Brasil, Rio de Janeiro, 2004



foto: Gaumukh, geleira de Gangotri © VA_Dave; para mais detalhes acesse:
http://members.virtualtourist.com/m/4d225/10c378/

27.11.2008

Beber água

Que maravilha
Que mistério
Respiro
Bebo um pouco d’água.


(ditado zen)


afaa91dff1ee32a82af0546dce71d6b8.jpg


Foto: bica d'água ©João Espinho

08.05.2008

Duplamente abençoada

de271813e73f0ecb36828eca5f638ae3.jpg


A excelência da misericórdia nunca é maculada,
Como a delicada chuva, vinda do céu
Sobre a aldeia abaixo: duplamente abençoada,
Abençoa aquele que a dá e aquele que a recebe...



da personagem Pórcia em O Mercador de Veneza, William Shakespeare


(citado por Chagdud Tulku Rinpoche em O Livro Tibetano do Viver e do Morrer, Editora Palas Athena, São Paulo, 1999)

http://www.palasathena.org.br

(*) Nota do blog: ilustração acima, Chuva (1908) por Bertha Lum; para ver mais obras da artista por favor acesse:
http://www.bertha-lum.org/Catalogued%20page%2001.htm

06.05.2008

Você não precisa procurar

Quando você olha para a superfície do oceano, pode ver ondas subindo e descendo. Você pode descrever essas ondas em termos de alta ou baixa, pequena ou grande, mais vigorosa ou menos vigorosa, mais bonitas ou menos bonitas. Você pode descrever uma onda em termos de início e fim, nascimento e morte. Esta pode ser comparada à dimensão histórica. Na dimensão histórica nós estamos preocupados com nascimento e morte, mais poderoso ou menos poderoso, mais bonito ou menos bonito e assim por diante.

Olhando profundamente, podemos também ver que as ondas são ao mesmo tempo água. Uma onda pode querer procurar sua verdadeira natureza. A onda pode sofrer de medos, de complexos. Uma onda pode dizer: “Eu não sou grande como as outras ondas”, “eu estou oprimida”, ”eu não sou tão bonita como as outras ondas”, “eu nasci e eu tenho que morrer”. A onda pode sofrer com essas coisas. Mas se a onda se curvar e tocar sua verdadeira natureza ela tomará consciência que ela é água. Então o medo e os complexos desaparecerão.

A água é livre do nascimento e morte. A água é livre do alto e baixo, do mais bonito e menos bonito. Você pode falar nesses termos de ondas, mas em termos de água esses conceitos são inválidos.

Nossa verdadeira natureza é a natureza do não nascimento e não morte. Nós não precisamos ir a nenhum lugar para tocarmos nossa verdadeira natureza. A onda não precisa procurar pela água porque ela é água. Nós não precisamos procurar por Deus, não precisamos procurar pelo nirvana, a dimensão última, porque nós somos nirvana, nós somos Deus.

Você é o que está procurando. Você já é o que está procurando. Você pode dizer à onda, “minha querida onda, você é água, você não precisa ir e procurar pela água. Sua natureza é a do não nascimento e não morte, de não ser e de não não ser”.

Pratique como uma onda. Use seu tempo olhando profundamente dentro de você mesmo e reconhecendo que sua natureza é a natureza do não nascimento e não morte. Você poderá despontar para a liberdade e para a falta de medo. Este método nos ajuda a viver sem medo e nos ajudará a morrer em paz sem lamentações.



(*) Nota do blog: o trecho acima, traduzido a partir do livro No death, no fear de Thich Nhat Hanh, chegou-me através do Darma online, a comunicação (e minha fonte de alegria e inspiração) semanal do blog Sanga Virtual, blog da Sangha Viver Consciente do Rio de Janeiro, para estudos budistas na tradição do verenável mestre zen Thich Nhat Hanh. Para receber o Darma on line você pode se inscrever no blog Sanga Virtual, cujo link está aqui sempre disponível, na coluna à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs. Desfrute.

05.05.2008

Decepção e o vasto oceano

35f828d985c2dc736f14664156c1e8b8.jpg



No Sutra do Diamante Buda diz: “Um lugar onde alguma coisa pode ser distinguida por sinais, nesse lugar há decepção.” Ainda nos apegamos aos sinais e perdemos a essência, que é inter-existência, sem sinais e vazio. Apegados a sinais, esquecemos que a realidade não é nem eu nem não-eu, pessoa nem não-pessoa, ser vivente nem não-vivente, extensão da vida nem não-extensão da vida.

[...]

Quando olhamos o vasto oceano, vemos muitas ondas. Podemos descrevê-las como altas ou baixas, grandes ou pequenas, vigorosas ou fracas. Mas esses termos não podem ser aplicados à água. Do ponto de vista da onda, há nascimento e morte, mas estes são apenas sinais. A onda é, ao mesmo tempo, água. Se a onda vê a si mesma apenas como onda, terá medo da morte. A onda precisa olhar a si mesma em profundidade a fim de se dar conta de que é, ao mesmo tempo, água. Se retirarmos a água da onda, esta não existe, e se retirarmos as ondas, não haverá água. Onda é água e água é onda. Elas pertencem a diferentes planos da existência. Não podemos comparar as duas. As palavras e conceitos que são atribuídos à onda não podem ser atribuídos à água.

[...] É maravilhoso quando você consegue tocar na água, mas isso não quer dizer que a onda tenha se esvanecido. A onda é sempre água. Se você tentar tocar só a onda e não a água, sofrerá do medo do nascimento e da morte, e terá muitas outras aflições. Mas se olha a si mesmo em profundidade e se dá conta de que é água, todos os medos e aflições se desvanecem.


Thich Nhat Hanh, Cultivando a Mente de Amor (tradução de Odete Lara, Editora Palas Athena, São Paulo, 2000)

03.05.2008

Abertura, também

Uma outra visão sobre o tema da postagem de ontem:

Quando praticamos a tolerância, não precisamos sofrer nem nos resignarmos, mesmo quando precisamos aceitar o sofrimento ou a injustiça. Quando alguém diz ou faz algo que nos deixa com raiva, ou quando talvez algum tipo de injustiça é cometida contra nós. Mas se o coração for grande o bastante, não sofreremos.

O Buda oferece uma linda imagem sobre isso. Se pegarmos um punhado de sal e colocarmos em uma tigela com água, a água ficará salgada demais para beber. Mas a mesma quantidade de sal colocada em um grande rio não afetará sua água, e as pessoas ainda poderão bebê-la (lembrem-se de que esse ensinamento foi dado há 2600 anos, quando ainda era possível beber água dos rios!). Devido à sua imensidão, o rio tem a capacidade de receber e transformar. O rio não sofre por causa de um punhado de sal. Se o seu coração for pequeno, uma palavra ou ação injusta fará você sofrer, mas se o coração for grande, e se tiver compreensão e compaixão, a palavra ou ação injusta não terá o poder de lhe causar sofrimento, porque você terá a capacidade de receber, aceitar e transformar rapidamente. O que conta aqui é a sua capacidade. Para poder transformar o sofrimento, o coração precisa ser grande como um oceano. Outra pessoa talvez sofra, mas se um bodhisattva ouvir as mesmas palavras desagradáveis não sofrerá. Tudo depende da forma de receber, aceitar e transformar. Se você guardar uma dor por muito tempo, é porque ainda não aprendeu a prática da tolerância.


325e7cf0b4738d38fcfd03c416395c2a.jpg



(*) Notas do blog: aqui, Thich Nhat Hanh fala da kshanti paramita, traduzida como tolerância, em seu livro A Essência dos Ensinamentos de Buda (Editora Rocco, Rio de Janeiro, 2001)

A foto acima e o assunto faz-me lembrar do filme Un Buda; esta foto foi retirada de Village des Pruniers, o site em Francês sobre o centro de meditação do mestre zen Thich Nhat Hanh. Mais belas fotos podem ser vistas em:
http://www.villagedespruniers.net/?locate=photo&langue=fr...

Todas as notas