13.10.2007
Ensaio
Kyrie... Sobe, flutua, a voz grave e estrangeira.
Nas sombras em arcos suspensas, ela aderna
e se derrama, desfalece,
a voz pura estremece.
Quer tornar-se infinita, eterna
e quase se esquece de que é humana
em seu desespero por ser a mais bela.
Kyrie! Clama a voz profunda entre murmúrios resgatados
de preces muito antigas e missas fracassadas.
Alongam-se as abóbadas em celestiais transportes,
deslocam-se pedras, círios, anjos e pinturas.
Kyrie! Movem-se os santos pelas estantes,
olhares vazios, inquietantes,
tornam a brilhar.
Mas isso não basta,
é a Deus que a voz perfeita
quer alcançar.
Então
por que não esperas
um só momento
pela sutil resposta sussurrada?
Faze silêncio!
Compreende...
Escuta as coisas que te escutam,
impregnadas de sentido e adoração.
Percebe...
Os lírios parecendo esquecidos,
descansando à beira dos vasos.
As alfaias absortas, os incensórios em repouso...
Os ícones radiantes.
Os púlpitos loquazes – emudecidos.
Entende...
A cruz impassível que finalmente se inclina no altar
e está querendo vir, descer, a teus pés pousar.
Mais não conseguirás.
parasezen (há mais de 20 anos atrás)

10:05 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Kyrie, Anjo, Musée du Petit Palais, Avignon
Comentários
muito bonito amigo
obigado
:)
Escrito por: Lécio | 13.10.2007
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