30.01.2009

Uma mente livre

Os buscadores religiosos sempre foram lembrados de que precisam abandonar todos os seus conceitos a fim de experimentar diretamente a realidade, desde os conceitos do eu e do outro, aos de nascimento e morte, permanência e impermanência, existência e não existência. Se a realidade for descrita como inconcebível, a ferramenta usada para experimentar diretamente a realidade deve ser uma mente livre de todos os conceitos.


Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995

26.01.2009

Todos os nossos atos

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Na tradição budista, o bodhisattva é aquele que entrou com determinação no caminho do despertar, no caminho de transformação; ele quer ver claramente o que é, ele quer ver a realidade “tal como ela é”, não somente para si mesmo, mas para o bem-estar de todos, e ele não está despertado, enquanto todos os seres não o estiverem. Ele nunca está despertado sozinho.


[...]

Podemos ocupar-nos do bem-estar dos outros, porque descobrimos que nosso bem-estar se torna acrescido de bem-estar, e isto não é forçosamente uma coisa má. Abrir-se aos outros é uma maneira de alargar seu coração, sua inteligência também, é talvez a melhor maneira de ir “além do ego”; no caminho do bodhisattva, há uma justificativa completamente interessada que é a nossa própria libertação. Tornar-se livre e feliz, amando!

[...]

A compaixão, esta qualidade de ser e de amor nunca é centrada no “eu”. Não é o eu que ama, porque justamente o eu não sabe amar; com todos os defeitos que ele acumula em sua vida, o “eu” somente procura preservar-se, ele só pede para ser amado, sem cessar e sempre mais, e isto nunca é o “bastante”.

Trata-se de despertar para uma qualidade de ser, de consciência e de amor que é a nossa natureza essencial; trata-se de deixá-la vir primeiro em nós, depois, deixar crescer esta capacidade de dom, esta qualidade de despertar, a fim de que todos os nossos atos estejam impregnados dela.



Jean-Yves Leloup, A montanha no oceano, Meditação e compaixão no budismo e no cristianismo, Editora Vozes, Petrópolis, 2002

20.01.2009

Janelas abertas

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Certa noite voltei ao meu eremitério após caminhar nas montanhas, e percebi que todas as portas e janelas da cabana estavam completamente abertas. Ao deixar a casa, eu não as havia fixado, e um vento frio soprou através da habitação, abrindo as janelas e espalhando por toda a sala os papéis que estavam sobre minha mesa. Imediatamente fechei as portas e janelas, acendi uma lâmpada, recolhi os papéis e arrumei-os ordenadamente sobre minha mesa. Acendi então o fogo da lareira, e logo a lenha crepitante voltou a aquecer a sala.

Algumas vezes nos sentimos cansados, com frio e solitários no meio da multidão. Podemos desejar nos retirar para sermos nós mesmos e nos aquecermos novamente, como fiz no eremitério, sentando-me perto do fogo, protegido do vento frio e úmido. Nossos sentidos são janelas para o mundo exterior, e algumas vezes o vento sopra e nos perturba interiormente. Muitos de nós deixamos a janela aberta o tempo todo, permitindo que as visões e os sons do mundo nos invadam, nos penetrem e exponham nosso eu triste e perturbado. Ficamos com muito frio e nos sentimos solitários e temerosos. Você já deu consigo assistindo a um programa horrível na televisão e incapaz de desligá-la? Os sons estridentes e o estampido de armas de fogo são desagradáveis. No entanto, você não se levanta para desligar a televisão. Por que você se tortura dessa maneira? Você não quer fechar suas janelas? Está com medo de ficar sozinho – do vazio e da solidão que poderá encontrar quando se vir a sós?



Thich Nhat Hanh, O Sol meu coração, da atenção à contemplação intuitiva, Editora Paulus, São Paulo, 1995

16.01.2009

Anoitece

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Folhas e troncos são um riscado negro contra o azul pálido.
No bosque, anoiteceu antes do céu.





Foto Tony Howell, para ver maıs por favor acesse
www.tonyhowell.co.uk

12.01.2009

As Oito Realizações

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Um dia, enquanto sentava no Parque Besakala, em Sumsumaragiri, o Buda anunciou: “Bhikkhus, quero contar a vocês sobre as Oito Realizações dos Grandes Seres. Venerável Anuruda falou a respeito destas oito realizações anteriormente. Elas são as realizações ensinadas pelos Grandes Seres para ajudar os outros a superar a distração e atingir a iluminação.

“A primeira realização é a consciência de que todos os darmas são impermanentes e desprovidos de um eu separado. Ao contemplarem a impermanência e a natureza destituída de um eu de todos os darmas, vocês podem escapar do sofrimento e atingir a iluminação, a paz e a alegria.

“A segunda realização é a consciência de que mais desejo conduz a mais sofrimento. Todas as dificuldades da vida surgem do apego e do desejo.

“A terceira realização é a consciência de que viver de modo simples, ter poucos desejos, conduz à paz, à alegria e à serenidade. Viver frugalmente permite mais tempo para a concentração, a prática do Caminho e a ajuda aos outros.

“A quarta realização é a consciência de que somente o esforço diligente conduz à iluminação. Preguiça e entrega a desejos sensuais são obstáculos à prática.

“A quinta realização é a consciência de que a ignorância é a causa do infindável ciclo de nascimento e morte. Vocês devem sempre lembrar de escutar e aprender a fim de desenvolverem sua compreensão e eloqüência.

“A sexta realização é a consciência de que a miséria cria ódio e raiva, o que, por sua vez, gera um ciclo vicioso de pensamentos e ações negativos. Os seguidores do Caminho, quando praticam generosidade, deveriam considerar todos, amigos e inimigos, do mesmo modo, como iguais, não condenando os erros do passado de ninguém ou odiando aqueles que, presentemente, estão causando sofrimento.

“A sétima realização é a consciência de que, embora habitemos no mundo para ensinar e ajudar os outros, deveríamos não nos deixar prender por assuntos mundanos. Aquele que deixa o lar para seguir o Caminho possui apenas três mantos e uma tigela. Ele sempre vive com simplicidade e olha para todos os seres com os olhos da compaixão.

“A oitava realização é a consciência de que não praticamos apenas buscando nossa própria iluminação, mas devotamos todo o nosso ser para orientar todos os demais até os portões da iluminação.

“Bhikkhus, estas são as Oito Realizações dos Grandes Seres. Todos os Grandes Seres, graças a estas oito realizações, alcançaram a iluminação. Aonde quer que fossem em vida, eles usaram estas oito realizações para abrir as mentes e educarem os outros, de modo que cada um pudesse descobrir o caminho que conduz à iluminação e à emancipação.




trecho do excelente livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007).


http://www.bodigaya.com.br/



(*) Nota do blog: A bela foto acima é da autoria de Rick Gunn; outras fotos dele foram publicadas aqui em Nossa colheita e Praticar o dharma, onde conto sobre o Wish Tour que levou este fotógrafo a percorrer recentemente mais de 15 mil milhas de bicicleta ao redor do mundo -- sua página pode ser visitada através do link:
http://www.rickgunnphotography.com

07.01.2009

Tampouco

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Um filósofo pediu ao Buda que não falasse e tampouco se calasse.


Comentário: Apenas meus descendentes ousariam andar de olhos vendados.


Poema:

Sabe-se o quão difícil é

fechar a porta da prisão?

As palavras e a fala desaparecem.

Não permanece apoio algum.




in Ocidente, Oriente e a Experiência do Vazio, tese de Adriana Lisboa

05.01.2009

O fim é o agora

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A mente e o corpo desapareceram. Mente e corpo desaparecidos! Todos deveriam experimentar este estado; é como colher fruta com um cesto sem fundo, como jogar água numa tigela esburacada; por muito que queiramos, jamais podemos encher o recipiente. Quando se compreende isto, atravessa-se o fundo do cubo. Mas enquanto existir um vestígio de conceitualismo que nos faça dizer “compreendi isto” ou “apercebi-me disto”, ainda se continuará brincando com irrealidades.

Dogen foi, talvez, o primeiro mestre zen que compreendeu – pelo menos, foi o primeiro a ensiná-lo – que a vida é única e indivisível; quando a dividimos em fragmentos – alguns deles fascinantes, outros aborrecidos, outros que nos interessam ou não nos interessam pessoalmente, etc. – na realidade estamos perdendo por completo o fluxo da vida. Ao tentar dominar os acontecimentos, ficamos encalhados em falsas ilhas de permanência, vemo-nos como algo estável enquanto a “vida” passa a toda a velocidade. Dogen ensinou que cada momento e cada ação, por insignificantes que sejam, deve contemplar-se como a manifestação real da condição búdica. Não existem meios para chegar a um fim, porque o fim é o agora.


comentando as palavras de Eihei Dogen (1200-1253), in Zen, o Budismo nas Terras do Japão, Anne Bancroft, Edições del Prado, Lisboa, 1997

Foto ©Michael Woods

01.01.2009

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