17.05.2009
Uma Arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.
Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.
Elizabeth Bishop
Notas do blog: tradução de Horácio Costa para Uma Arte; se preferir ler este poema -- que há tempos na minha vida existe, e persite, resiste, insiste -- no original, por favor acesse a postagem The beginning and the end.
foto©aphoenix.ca
11:18 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: elizabeth bishop, uma arte, one art, horácio costa
Comentários
Caro Marcelo: (saudades)
há muito tempo me perder!
Porque me tentei achar demais...
Mas sinto que vc sabe que perder-se é cansativo.
Dá muito trabalho... (como nos diz Clarice Lispector...)
Mas é inevitável...inexorável...!
Ajude-me com o seu "perder-se"... Com sua experiência!
De coração: tenho tentado e não conseguido! Meu ego empedernido resiste...
Não quero perder-me nos estertores da dor...
Quero ter a opção de fazer uma perda amorosa.
Benção para ti!
Rogério
Escrito por: Rogério | 18.05.2009
Bom dia Marcelo e comentarístas,
Contabilizamos na própria pele as perdas, mas nunca estamos existencialmente preparados para encarará-las individualmente. Aprender com as perdas que são variadas em grau, intensidade e em sentimento individual, superá-las, ser forte, transformá-las em aprendizado etc, estão nos livros, nos conselhos de familiares e amigos...mas a grande maioria se esquece de respeitar a dor (falo em respeito porque muitos não compreendem o tempo de cada um, pensam que é uma rendição medrosa ou fraqueza) de oferecer compreensão e carinho que é o verdadeiro auxílio na elaboração da perda e na reconstrução emocional.
Não por acaso, vendo um filme na tv, escutei a música -Turn, Turn, Turn, cuja letra , reproduz um trecho do livro bíblico de Eclesiásticos, que explana sobre o tempo adequado para cada ação na terra. Dicotomicamente chorei e pude esperançar um novo tempo.
Escrito por: Maritza | 18.05.2009
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