30.05.2009

Retratos submarinos

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O vento encrespa as águas e o sol
mergulhando em verdes feixes quebradiços
desenha lindos mosaicos luminosos
nos telhados desta cidade, imaginem!
aquática e sobrenatural.

Na superfície está sonhando
o jovem pescador de baleias.
Seu barco errante afunda
numa longa coluna sombreada
de fronde ampla sobre a praça
onde sereias e marinheiros espectrais
trocam borbulhantes palavras de cristal.

Não poderiam ser mais suaves
os sensíveis dias submarinos.
Crianças espalham-se com a corrente
por entre os brancos arcos plantados
pousados sobre colunas estriadas
cobertas de musgo e algas.

E na tranqüilidade dos vales abissais
velhas jardineiras fazem rodopiar
seus claros canteiros de madrepérola
-- as frágeis, raras bolhas de ar
onde brotam lilases e nenúfares
como reflexos longamente aguardados
dos sorrisos e suspiros cultivados.

E quando no Atlântico desponta
a lua cheia
entre alamedas de corais se encontram
e se tocam as sombras dos namorados.
Peixinhos longos e prateados
nadam à distância em cardumes sinuosos
parecendo assim sem rumo mas seu traçado
nada menos que o céu
de estrelas redesenhado.





Notas do blog: os traços da pintura Sumi-e de agora me lembram os traços da escrita de outrora, criando as mesmas imagens...  Mesmas imagens?  Visite o blog do querido  Lécio Ferreira:

http://umafloreoutrascoisassimples.blogspot.com/2009/05/s...

29.05.2009

sem título; submersa

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Nota do blog: os traços longos do sumi-e inspiram-me atualmente a pintar paisagens submersas e beiras de rio com suas folhas ondulando à corrente... Curiosamente, outra postagem desta série sem título, bambu, trazia uma paisagem assim tão verde, com o bambu que seria o tema das aulas de Sumi-e que agora faço... E você, o que te inspira?

28.05.2009

O Zen no pincel e na espada

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o pincel pousa

na pausa de um instante

em preto e branco

 

(Rita Brant)

 

 

 

 

 

 

 


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pincel é pena

palavra tinge o papel

e rabisca tons

 

(José Roberto Bueno)

 

 

 

 

 

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passeia o pincel

cabelos negros

venta a água


(paraserzen)

 

 

 

 

Notas do blog: as fotos acima são do curso bun bu ryo do - o pincel e a espada, um só caminho, ministrado atualmente na Palas Athena pelo sensei José Roberto Bueno. Durante as aulas fazemos Aikido e Sumi-e, a arte marcial e a pintura, de acordo com a proposta de "descobrir as qualidades que integram o guerreiro ao artista; tanto no Sumi-e como no Aikido encontram-se os elementos básicos da arte Zen: suavidade, simplicidade, pureza e elegância. Cada traço e cada gesto são vividos como únicos e realizados com todo o ser".

O curso, por privilegiar a prática como é da tradição Zen, tem trazido muito aprendizado, não meramente intelectual, mas de vivência, e tem possibilitado cultivar insights -- o curso em si é um tremendo insight --, que os alunos compartilham de maneiras diversas -- uma delas, nos haiku acima. A aula inspira, fortalece, sutiliza, e traz uma alegria e paz que transbordam semana afora -- pois são fruto da prática e não de mero conhecimento intelectual.

Ficou com vontade de praticar também? Uma nova turma do curso está planejada para o segundo semestre de 2009 -- consulte a excelente programação da Associação Palas Athena -- cujo link está permanentemente disponível no box Sites recomendados, na coluna à direita da sua tela --, que considero uma das minhas casas em São Paulo, e onde fui aprendendo a alicerçar minha (des)construção espiritual, e a qual divulgo com reiterada gratidão e respeito.

Se desejar, veja mais fotos da aula no blog do José Roberto Bueno clicando aqui; para ler mais poesias da Rita Brant, por favor acesse o blog esferamanuscrita.

Paz, Amor e Alegria a todos.

Obrigado.

27.05.2009

O mito da caverna

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Recebo da querida Geralda uma atualização do Mito da Caverna, de Platão, feita por Mauricio de Souza -- será que como humanidade nós saímos da caverna e do mundo das sombras, ou só o modernizamos? Veja a tira inteira no blog Após a Sopa, clicando aqui.

Essa reflexão, tão importante, tão importante, já havia aparecido outras vezes no paraserzen, especialmente em Consumindo a raiva e Janelas abertas.

26.05.2009

Para viver bem

Faço o voto de trazer alegria a uma pessoa pela manhã, e de aliviar o sofrimento de uma pessoa à tarde; vivendo de maneira simples e sensata, com poucos pertences, mantendo meu corpo saudável. Faço o voto de abandonar minhas preocupações e ansiedade de maneira a ser leve e livre.


Nota do blog: entre um sino e outro, este é um trecho do Cântico do Refúgio, como cantado lá em Plum Village -- uma bonita inspiração para todos os nossos dias; traduzido a partir de Chanting from the Heart - Buddhist Ceremonies and Daily Practices, Thich Nhat Hanh and the Monks and Nuns of Plum Village, Parallax Press, 2007

 

 

25.05.2009

Meditação do Abraço

Neste final de semana foi a Meditação do Riso, hoje é a Meditação do Abraço que me inspira -- esta, uma "prática bastante praticada" em Plum Village, o centro de meditação na tradição do mestre Zen Thich Nhat Hanh. A minha memória dos meus últimos 5 dias lá, no fim do Retiro de Inverno, é de percorrer os dias inteiros indo de um abraço a outro, de um amigo a outro, pleno de amor e gratidão... Inspirando, expirando, estamos todos juntos.

Abaixo, reproduzo um trecho da brochura Como desfrutar da sua estadia em Plum Village - Um guia das práticas e atividades, compilado pelos monges e monjas de Plum Village, que traduzi para o Português durante o Retiro de Verão de 2008, e que em breve estará disponível no blog Compartilhando Plum Village:


Quando nos abraçamos, nossos corações se conectam e entendemos que não somos seres separados. Abraçar em plena consciência pode trazer-nos cura, reconciliação, entendimento e muita felicidade. A prática da meditação do abraço tem ajudado muitas pessoas a se reconciliarem – pais e filhos, amigos, casais, etc.

Podemos praticar a meditação do abraço com um amigo, nossa filha, nosso pai, nosso parceiro ou mesmo com uma árvore. Para praticar, primeiro fazemos uma reverência com as palmas das mãos unidas, reconhecendo a presença um do outro. Podemos desfrutar de três respirações profundas em plena consciência, para nos sentirmos inteiramente presentes, e só então abrimos os braços e nos abraçamos. Mantemos o abraço por outras três respirações. Na primeira respiração, estamos conscientes de estarmos presentes naquele exato momento, e sentimo-nos felizes. Na segunda respiração, estamos conscientes de que a outra pessoa está presente naquele momento, e sentimos felicidade. Com a terceira respiração, estamos conscientes de estarmos juntos, aqui e agora neste planeta, e sentimos profunda gratidão e alegria pela nossa união. Então, podemos gentilmente liberar a outra pessoa, fazendo uma reverência mútua para demonstrarmos nosso agradecimento.

Quando nos abraçamos dessa maneira, a outra pessoa se torna real, verdadeiramente viva. Não precisamos esperar até que alguém esteja prestes a viajar, podemos nos abraçar agora mesmo e receber o calor e a estabilidade do nosso amigo, neste presente momento. Abraçar pode ser uma prática profunda de reconciliação. Durante o abraço em silêncio, uma mensagem torna-se bastante clara: “Querido, querida, você é precioso para mim. Sinto não ter sido bastante atencioso e compreensivo. Cometi erros. Por favor permita-me começar de novo. Eu te prometo.”

24.05.2009

Mais sorrisos e risos

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Uma postagem que é uma colagem de outras, inspiradas na postagem de ontem sobre a Meditação do Riso, e no sorriso do meu querido amigo e Irmão Arnold Novak, um dos muitos Budas com quem em Plum Village convivi, a quem faço uma homenagem.

Sofrer não basta

O canal de Buda

O trabalho pela paz

O sorriso do Buda

O mundo muda

Por todas as pessoas

 

Com gratidão, com respeito, com admiração -- com amor.

 

 

23.05.2009

Merci!

Assistindo hoje ao vídeo abaixo, que encontrei no blog Pensando Zen (cujo link está sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela), lembrei-me das nossas maravilhosas sessões de Laughing Meditation - Meditação do Riso, promovidas pelo belo Brandt no início do Retiro de Inverno 2008/2009 em Plum Village... Obrigado ao Brandt pela iniciativa, pela gentileza, delicadeza, inocência, sinceridade, dedicação e que você possa superar todo o sofrimento e ser feliz -- monge ordenado na Tailândia ou onde quer que esteja, peregrinando... Merci a tous!

Desfrutem!

Se o vídeo acima não funcionar, por favor acesse:

http://www.youtube.com/watch?v=jedd2FiZTqM

22.05.2009

Quando uma ponte não se estende

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Que enorme distância abissal

quando uma ponte não se estende

entre o agora

e o meu interno tempo -- eterno.

 

 

Notas do blog: este é um poema de juventude, e a prática que me ensina o Buda tem ajudado a minorar os abismos, desfazendo e implodindo o interno, desarmando e explodindo o eterno, desobrigando-me deles, para ficar somente o agora. Lembrou-me as pontes que atravessei quando viajando pela região de Ladakh, nos Himalaias, como na foto acima (Hanupatta, Zanskar - altitude 3400 m ©Hisashi Yuya) -- se desejar ver mais fotos dessa região maravilhosa do planeta, acesse a página abaixo, cortesia e ©P. van de Haar:

http://www.footootjes.nl/Panoramas_Ladakh_2008/Panoramas_...

Clicando em cada foto, aparentemente distorcida, abre-se uma outra tela panorâmica, em que você pode passear com o mouse pela fotografia, e viajar também pelas paisagens deslumbrantes que visitei, até dentro dos vastos céus dos Himalaias.

Se desejar ver outras postagens breves sobre minha viagem de aventura a Ladakh, clique aqui. Desfrute. O planeta é imenso, e começa sob os seus pés.

Dedico esta postagem ao amigo Ilan. Com gratidão.

20.05.2009

O pássaro e o tempo

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[...]

Na antiga floresta de Dai Lao, na encosta de uma colina, ficava uma cabana de eremita. Ali, um monge tinha vivido por quase cinqüenta anos. O pássaro voava freqüentemente sobre a floresta de Dai Lao, e de tempos em tempos via o monge descendo vagarosamente a trilha até a fonte, trazendo uma jarra de água na mão. Um dia, o pássaro viu dois monges andando juntos na trilha que levava da fonte à cabana e, naquela noite, escondido pelos galhos de uma árvore, observou enquanto a luz do fogo tremulava dentro da cabana e os dois monges dialogaram a noite inteira.

O pássaro voava alto sobre a antiga floresta, algumas vezes dias seguidos sem pousar. Lá embaixo ficava a grande árvore, e as criaturas da montanha e da floresta, cobertas pela relva, pelos arbustos e árvores. Desde o dia em que o pássaro ouviu o diálogo entre os monges, sua perplexidade cresceu. De onde vim e para onde vou? Quantos milhares de anos viverá a grande árvore?

O pássaro ouvira os monges falarem sobre o tempo. O que era o tempo? Por que o tempo nos trouxe aqui, e por que irá nos levar embora? A noz que um pássaro come tem sua própria deliciosa natureza. Como posso descobrir a natureza do tempo? O pássaro queria recolher um pequeno pedaço de tempo e ficar quieto em seu ninho por muitos dias para examinar sua natureza. Mesmo que levasse meses ou anos para examina-lo, o pássaro estava disposto a isso.

Planando alto por sobre a antiga floresta, o pássaro se sentia como um balão vagando em meio ao nada. Ele sentia que sua natureza era tão vazia quanto a do balão, e esse vazio era o solo de sua existência e a causa do seu sofrimento também. Se eu pudesse encontrar o tempo, pensava o pássaro, certamente eu encontraria a mim mesmo...



Notas do blog: trecho de um conto escrito por Thich Nhat Hanh, The Ancient Tree, no livro The Stone Boy and other stories, Parallax Press, 1996, tradução deste blog; ilustração ©nicole annette

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