12.06.2009

No assobio do vento

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Enquanto pregava no deserto da Judéia, João Batista urgia as pessoas a se arrependerem porque “o Reino de Deus está próximo”. Aqui, eu entendo “arrepender” como “parar”: parar de agir com violência, ânsia e ódio. Arrepender-se significa acordar e perceber que o rumo que estamos adotando como sociedade implica loucura. É encobrir o céu azul. Arrepender-se significa começar de novo. Reconhecemos nossas transgressões e nos banhamos nas águas límpidas dos ensinamentos espirituais de amar o próximo como a nós próprios. Comprometemo-nos a abandonar o ressentimento, o ódio e o orgulho. Começamos de novo com a mente renovada e o coração limpo e determinado a agir melhor. Depois de ser batizado por João, Jesus ensinou o mesmo. E este ensinamento condiz perfeitamente com o ensinamento do budismo. Aqui está a Terra Pura, a Terra Pura está aqui. A Terra Pura está em teu coração. A Terra Pura está muito perto.

Se soubermos começar de novo, se soubermos transformar nossa desesperança, nossa violência e nosso medo, a Terra Pura se revelará para nós e os que nos rodeiam. A Terra Pura não pertence ao futuro. Ela pertence ao aqui-e-agora. Em Plum Village nós usamos uma expressão muito vigorosa: “A Terra Pura é agora ou nunca”. Podemos achar tudo o que procuramos neste momento, inclusive a Terra Pura, o Reino de Deus e nossa natureza de Buda. Temos a possibilidade de alcançar o Reino de Deus com os olhos, os pés, o braços e a mente. Quando estamos atentos, estamos concentrados. Quando sua mente e seu corpo se unem, basta você dar um passo para estar no Reino dos Céus. Quando você está atento, quando está livre, tudo o que você toca – quer as folhas das árvores, quer a neve --, está no Reino dos Céus. Tudo o que você ouve pertence ao Reino dos Céus, seja o canto dos pássaros ou o assobio do vento.

 

Thich Nhat Hanh, Serenando a mente – O olhar budista sobre o medo e o terrorismo, Editora Vozes, Petrópolis, 2007

 

Notas do blog: relutei até hoje em trazer trechos deste livro por conta da tradução, que apesar de correta, erra nos termos usados por Thich Nhat Hanh -- apesar da linguagem tão simples e sensata do monge, ou justamente por isso, a tradução está truncada e não reproduz fielmente a mensagem do Thây.  Alegro-me que a Editora Vozes esteja se empenhando em traduzir os livros deste mestre zen para o público brasileiro, mas cada texto fica a cargo de um tradutor diferente, não há unidade e transparece o desconhecimento desta tradição. Infelizmente, falta coordenação editorial e revisão técnica. Assim, o texto acima foi modificado para o paraserzen e traz diferenças sutis com o publicado pela Editora. A melhor e exemplar publicação de Thich Nhat Hanh no Brasil continua sendo Cultivando a Mente de Amor, da Editora Palas Athena.

No topo, ícone portátil cretense de São João Batista, sec XVII, atribuido a Emmanuel Lambardos, Kythera Byzantine Art Collection, Grécia (para saber mais clique aqui ou acesse o site do Ministério Helênico de Cultura)

 

Comentários

Este "amai os outros como a vós próprios"...
acontece que a maior parte das vezes não nos amamos a nós próprios, não temos esse conhecimento, e não sabemos amar os outros.

Escrito por: margarida | 12.06.2009

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