25.06.2009

fim

404067463_de6299e921.jpg

 

Você bebe o chá, talvez você aprecie o chá que bebe, e ao fim a caneca se esvazia. Então, pode olhar a caneca e achar que ela está vazia, e lamentar o chá que acabou -- ou dar-se conta de que o chá está em você, tornado você -- você e o chá, irmanados. Você bebe o chá e ele não se acaba -- ele passa a viver em você. E se você viver cultivando amor, paz, bondade, atenção, carinho, calma, poderá dizer que é nestas coisas maravilhosas que o maravilhoso chá terá se transformado. E assim terá valido a pena beber chá, terá valido ao chá ter sido bebido -- e plantado, colhido, preparado. Terá valido a pena viver -- seja como chá, seja como você. Agora, que diferença ainda há?

3 anos e 3 meses foi o tempo que durou o paraserzen, e hoje ele se encerra. Espero que ele tenha sido um chá assim, plenamente saboreado, e que se transformou em paz, felicidade, discernimento, prática. Então terá valido a pena todo o empenho, a dedicação, a inspiração, o compartilhar.

 

Minha gratidão aos amigos, aos leitores e especialmente aos comentaristas -- muito obrigado. Uma ponte tem de tocar a outra margem para ser uma boa ponte. Uma ponte está aberta, e se ninguém a atravessar, não serviu de nada. Muito obrigado por atravessarem esta ponte.

Se você ainda busca, há blogs maravilhosos no espaço virtual, alguns deles indicados aqui ao lado, outros por descobrir, por surgir. Talvez você mesmo se inspire a dedicar-se amorosamente a um blog e compartilhar seus insights. Se você ainda busca, desejo que não busque mais, que apenas desfrute do que você já encontra, do que já se encontra -- neste momento, estes olhos que pousam sobre a tela, a consciência do olhar, e de que como dele nasce o mundo... A conscência de poder ler, de poder aprender, a mágica de transformar estas letrinhas em uma mensagem, em uma emoção, em uma voz que soa na sua cabeça, e você a ouve a-g-o-r-a, mesmo silenciosa... O mistério que faz com que estes símbolos pretinhos signifiquem alguma coisa, enquanto que outros talvez não... A consciência da consciência... E a consciência da respiração, do ar que inspiramos e expiramos e todos, todos sobre o planeta, compartilhamos. Agora.

Sobretudo: pratique.

Em algum outro lugar, o paraserzen continua. Este blog nasceu para compartilhar um caminho, e o caminho não terminou. O paraserzen é também gratidão e uma homenagem a um amor. Um amor imorredouro. Amor, o paraserzen. Ele continua, sereno, silencioso, sincero, sutil.

Inspirando, expirando, estamos todos juntos.

Como o chá, lendo -- você e eu--  e escrevendo -- eu e você --, nós intersomos.

Para você Paz, Amor e Alegria.

E um bom dia a cada dia, um dia bom a cada dia.


 

phapeasyweb.jpg

Notas do blog:

foto do topo ©chikache; para ver mais destas lindas fotos por favor acesse:

http://www.flickr.com/photos/chikache/sets/439295/

Na foto acima, o "Pháp Easy", um monge muito especial que conheci em Plum Village, e que está sempre nos dizendo "Easy", "Relax", "Enjoy"...

Por fim, não pretendo tirar o paraserzen do ar, mas isso provavelmente será feito pelo próprio site que o hospeda, por falta de uso e acessos -- só não sei dizer quando. Por ora, se desejar consultar alguma das postagens anteriores do blog -- cerca de mil -- , por favor clique aqui para ter acesso à totalidade do acervo do paraserzen, imagens incluso.

Obrigado.

 

24.06.2009

Um, dois, três

people-holding-handsweb.jpg

 

Deixem-me terminar com uma anedota que, como todas as anedotas, não diz nada e diz tudo. O primo de um aluno meu, nos anos em que Kennedy havia criado aquela força de paz para enviar ao chamado “Terceiro Mundo” foi realizar uma tarefa docente em um pequeno povoado da África. Mas não queria ensinar às crianças nada do que sabia, porque considerava um ato de colonialismo. A única coisa que aceitou fazer foi dar aulas de ginástica. Um dia, chegou diante das crianças com uma caixa de balas e não sei o que mais. Todas as crianças esperavam esse jovem alto, bom, grande. E o jovem americano lhes disse: “Olhem aquela árvore ali, a cem ou duzentos metros; eu vou contar ‘Um, dois, três’ e vocês vão começar a correr. Quem ganhar terá os prêmios merecidos.” Os sete ou oito meninos do povoado estavam nervosos. Ele disse ‘um, dois, três’ e todos os meninos do povoado deram-se as mãos e correram juntos: queriam dividir o prêmio. Sua felicidade era a felicidade de todos.

 

 

Raimon Panikkar, O Espírito da Política - Homo Politicus (originalmente publicado em 1999 na Espanha, editado em 2005 no Brasil pela Triom)

 

 

 

Notas do blog: foto ©mashada; deixo você com uma Chuva de Bençãos, antiga postagem de um e-mail que enviei a meus amigos, e que continua sempre atual -- a gratidão é cotidiana, diante da água encanada e de um cobertor, seja do que for... E o vídeo para encerrar é um trecho de 25 segundos do final do filme Into the Wild, que contém a mesma conclusão da canção Wave -- é impossível ser feliz sozinho...

 

 

E por favor atente aos novos links preciosos acrescentados ao box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela: dos amigos de Portugal, com sua costumeira capacidade para a beleza, a poesia e a sabedoria, chegam o vasto Reino de Shambala, do Moysés, e a Ana nos traz a delicadeza e sutileza das imagens poéticas e bisextas do habitado... Um porquê meditar pode ser respondido pelo excelente e belo Arte Zen, e no esferamanuscrita você lê as poesias de insight da Rita... Desfrute!

A história das crianças africanas acima comoveu-te? Quer dar as maõs a teus irmãos e amigos, quer participar de um abraço planetário? Você pode acessar o site do Médicos sem Fronteiras, cujo link passa a ficar permanentemente disponível no box Sites recomendados, e fazer a sua doação.

Obrigado.

23.06.2009

Para a sua iluminação

Cada um coloca seu ponto final onde quer, onde pode. Colocá-lo o mais longe possível, obriga-nos a sermos um pouco mais sábios e um pouco menos pretensiosos.


A frase acima, de Jean-Yves Leloup (em O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003) conversa com estes dias e o vídeo abaixo, da música Berlin, colaboração de Alva Noto -- músico que compõe a partir de sons cotidianos desprezados, como modems, impressoras, fax, fotocopiadoras, chiados, interferências (que, com sua milagrosa estética da estática, recorda-me de que todas as coisas são iluminadas, belas, contém em si Amor) --, com o mestre Ryuichi Sakamoto ao piano, autor entre outras maravilhas das trillhas sonoras de Merry Xmas, Mr. Lawrence e The Sheltering Sky. Microscópica delicadeza e sutileza cirúrgica também no vídeo de Karl Kliem-- a derradeira canção de ninar para o paraserzen.

União, desunião, reunião -- para a sua iluminação.

 

 

Não apenas assista ao vídeo acima -- talvez melhor visualizado no escuro --, muito sutil, repleto de texturas (apesar da qualidade sofrível do Youtube). Por favor, enxergue. Perceba. Dê-se conta dos seus olhos, dê-se conta do fundo dos seus olhos. Funcionando agora mesmo. Dê-se conta do seu próprio olhar, desse olhar na moldura das suas pálpebras, desse olhar que vem do fundo, que vem de tudo, do conjunto... Neste exato momento. Desfrute dessa benção que é enxergar, esta maravilha disponível agora mesmo, da qual usufruimos sem fazer esforço. Você vê? Dê-se conta da luz que emana desta tela e que já não está fora, também está dentro, no mesmo momento, está na sua consciência -- agora mesmo! --, já não há dentro nem fora...

Não apenas escute esta música... De onde ela vem, para onde ela vai... Vindo de fora, indo para dentro... Agora, não há nenhum dentro nem fora, limite nenhum, há apenas agora, sempre agora... Por favor, desfrute da sua audição, desta graça maravilhosa, não simplesmente ouça -- tenha consciência do ouvir...

Assim como a respiração, sempre aqui, sempre aqui, sempre aqui... Agora mesmo, neste instante, aqui, diante desta tela... Aperceba-se... O que mais há? O Sol, a energia que anima esta tela, a água que jorra da torneira, o que mais -- tudo vindo de tão longe, e agora tão perto, tão agora, tão aqui, tornando possível este momento... É este momento que nos torna possíveis ou somos nós que tornamos possível este momento?... Nós somos -- e-s-t-e  m-o-m-e-n-t-o.

 

Se desejar, veja e ouça também Trioon I, do mesmo trio Noto+Sakamoto+Kliem. A irresistível beleza desta música mínima inspirou outros internautas a criarem vídeos sobre Moon e Aurora. Desfrute, agradecendo à vida.

Obrigado.

22.06.2009

Resumindo

Se pudesse resumir o paraserzen como um percurso, em apenas algumas frases e todas elas de postagens anteriores, seriam elas (com seus respectivos autores):

 

travelers-sumi-web.jpg


A gente tá na vida emprestado.

Sabedoria popular brasileira

 

Observe atentamente o caminho que seu coração aponta e escolha esse caminho com todas as forças.

Provérbio hassídico


Pensar que hemos de entrar en el cielo, y no entrar en nosotros... es desatino.

Santa Teresa D'Ávila


-- Oh coisa boa a gente andar solto, sem obrigação nenhuma e bem com Deus!

João Guimarães Rosa


Deus me deu o dom da liberdade para pensar um pouco mais em minha alma.

San Juan de la Cruz

 

O essencial não é pensar muito -- é amar muito.

Santa Teresa d'Ávila

 

Ninguém é correto em amor, ninguém jamais ama o bastante.

Jean-Yves Leloup


Onde não há amor
coloca o amor
e receberá o amor.

San Juan de la Cruz


Por favor, nunca acredite que o amor não está presente em você, porque isso não é verdade. O amor está sempre em você, como a luz do sol que, mesmo quando chove, brilha acima das nuvens.

Thich Nhat Hanh


BuddhaHeads.jpg

 

Dedico esta postagem a todos os meus ancestrais espirituais, à sua presente manifestação no Thich Nhat Hanh, a todos os meus irmãos e irmãs de prática espiritual, em todas as tradições ou fora delas; dedico esta postagem a todos os meus ancestres de sangue, desde os tempos imemoriais, e especialmente aos meus pais e ao meu irmão, com gratidão e amor; e a todos os meus ancestrais animais, vegetais e mineriais; dedico esta postagem a todos os nossos descendentes -- em todos os tempos e em todas as direções possamos todos ter e viver em Paz, Alegria e Amor.

Bijam.

09:33 Escrito em Amor/Love | Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail | Tags: amor

21.06.2009

Eu sou livre

08-14p06plants.jpg

 

Inspirando, expirando
eu me abro como uma flor.
Sou fresco como o orvalho.
Sou sólido como a montanha.
Sou firme como a terra.
Sou a água que reflete
o que é real, o que é verdadeiro.
Sou espaço, sou livre.

O Buda é a minha plena consciência
brilhando perto, brilhando longe.
O Dharma é minha respiração
guardando corpo e mente.
A Sangha é meus skandhas,
trabalhando em harmonia.
Tomando refúgio em mim mesmo,
voltando a mim mesmo,
eu sou livre.

 

 

gatha de Plum Village

 

I like the dafodils - Young monks.jpg

 

Notas do blog: na foto acima, alguns do queridos Irmãos vietnamitas de Plum Village, que estão entre as pessoas mais livres que conheço. Liberdade é uma prática, não uma idéia, e é muita prática de liberdade o que meus irmãos monásticos têm.

Em Setembro deste ano teremos o privilégio de receber a visita de dois monges vindos de Plum Village, centro de prática na tradição do mestre zen Thich Nhat Hanh, que durante aquele mês oferecerão palestras públicas e retiros no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Recife -- para saber mais e participar, acesse os links dos blogs das Sanghas ao lado, na coluna à esquerda da sua tela.

Obrigado.

20.06.2009

Silêncio é...

LY-Long-Heaven-Lightweb.jpg

 

 

Silêncio é mansidão
Quando você não defende a si mesmo contra as ofensas
Quando você não chama por seus direitos
Quando você deixa Deus defende-lo
Silêncio é mansidão...

Silêncio é misericórdia
Quando você não revela a outros a falta de seus irmãos
Quando você prontamente perdoa sem remexer o passado
Quando você não julga, mas ora em seu coração
Silêncio é misericórdia...

Silêncio é paciência
Quando você aceita sofrimentos sem reclamar, alegremente
Quando você não procura consolações humanas
Quando você não se torna muito excitado
Mas espera, paciente, que a semente germine
Silêncio é paciência...

Silêncio é humildade
Quando não há competição
Quando você considera a outra pessoa melhor do que você
Quando deixa seu irmão brotar, crescer e amadurecer
Quando você, alegremente, abandona tudo no Senhor
Quando as suas ações podem ser mal interpretadas
Quando você deixa para outros a gloria da recompensa
Silêncio é humildade...

Silêncio é fé
Quando você guarda silêncio porque sabe que o Senhor agirá
Quando você renuncia à voz do mundo para manter-se na presença do Senhor
Quando você não se esforça para ser entendido
Porque é suficiente para você saber que o Senhor o entende
Silêncio é fé...

Silêncio é adoração
Quando você abraça a cruz sem perguntar “por quê”
Silêncio é adoração...


Madre Teresa de Calcutá

 

ly%20hoang%20long6.jpg

Notas do blog: infelizmente, não consegui comprovar a autoria deste texto, do qual tenho simplesmente uma antiga fotocópia já desbotando... De qualquer forma, seria uma tradução da qual não haveria como checar a fonte, portanto tome cuidado ao ler e creditar...

Lembro-me do meu Kyrie, de tantos anos atrás, até pelas palavras que compartilhamos... Juntamente com o chá, o silêncio tem sido um dos temas preferidos do paraserzen, e há um Espaço Silêncio no coração deste blog...  As imagens acima são do excelente fotógrafo vietnamita Ly Hoang Long, cujo site pode ser visitado em:  http://www.lylongphoto.com/

Obrigado.

19.06.2009

O nascimento da borboleta

57527882.papillonnoirbleu.jpg

 

Esta experiência é única. Nela ocorre algo que nunca poderemos esquecer e que não poderemos também explicar. [...] Em um itinerário espiritual, deve-se fazer desta experiência uma oportunidade de iniciação. Não considerá-la como algo que jamais se reproduzirá ou como uma graça maravilhosa que queremos que se repita a todo instante. Porque esta experiência é uma revelação de nossa natureza verdadeira.

[...] São momentos em que, efetivamente, a paz dura um pouco mais e onde, no interior de nossa mente, o silêncio torna-se algo real. [...] é preciso acolher estes momentos gratificantes com gratidão, mas, ao mesmo tempo, não se apegar a eles e não procura-los. [...] Porque, se nós nos apegamos a estes momentos, se quisermos reencontrá-los sem cessar, em lugar de nos ajudarem a avançar, eles nos param, nos bloqueiam, fazendo-nos entrar em uma espécie de complacência com eles. [...] A vida, porém, é uma grande mestra e se encarrega de tirar nossas ilusões.

[...] E o sinal de que a experiência numinosa realmente nos tocou é que não podemos mais viver da mesma maneira que antes. [...] Porque podemos ter tido experiências maravilhosas e magníficas, mas concretamente, em que elas mudaram as nossas vidas? O que mudou em nossa vida cotidiana? Dessa maneira, podemos ter necessidade de uma prática, de um método em nosso itinerário.

[...] ao final de um itinerário espiritual não sobra muito da imagem que se tinha de si mesmo no início do processo. É como se houvesse uma morte de si mesmo. Mas esta morte não é o fim. O que alguns chamam de morte da lagarta, outros chamam de nascimento da borboleta.

 

Jean-Yves Leloup em Terapeutas do Deserto (com Leonardo Boff, Editora Vozes, Petrópolis, 2002)

 

Nota do blog: só gostaria de compartilhar o melhor conselho que ouvi em toda a minha vida, e que pela primeira vez ouvi claramente da Lia Diskin, da Associação Palas Athena, e que depois ouvi de muitos outros mestres: Minha gente, hay que praticar.

É este o caminho.

18.06.2009

A estrada que não tomei

Guy2.jpg

 

 

Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava
Quando se perdia entre os arbustos;

Depois tomei a outra, igualmente bela,
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,

E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabendo como caminhos sucedem a caminhos,
E duvidava se alguma vez lá voltaria.

É com um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez a diferença toda.



Robert Frost (1874-1963), Tradução de José Alberto Oliveira

 

Notas do blog: para ler (e ouvir) o poema The Road Not Taken, por favor acesse:

http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15717

foto ©Yoav Galai; se desejar ver mais fotos desta série por favor acesse:

http://www.yoavgalai.com/

17.06.2009

Trocamos de idéias, e nada mais

vitruvian-man.jpg

 

O engano liberal consiste em crer que, mudando as idéias, tudo o mais será transformado – e que as pessoas podem ter idéias justas independentemente da situação em que se encontrem. O pregador dirá ao leigo: “Tenha uma consciência clara, mude sua forma de pensar e mudaremos as idéias”. Isto também é exato – até certo ponto. Sem uma nova tomada de consciência não é possível produzir nenhuma mudança; como não nos atrevemos a mudar o resto, ao mudar as idéias trocamos de idéias, e nada mais. E tudo continua como antes. Poderíamos lembrar de Mateus (23:3): “Dizem, mas não fazem”. A mesma idéia se encontra no Dhammapada (IV,8): “Estéreis são os discursos dos que não põem em prática”.

 

Raimon Panikkar, O Espírito da Política - Homo Politicus (originalmente publicado em 1999 na Espanha, editado em 2005 no Brasil pela Triom)

 

Notas do blog:  lembra-me muito a famosa frase de Giuseppe Tomasi de Lampedusa (1896-1957) em seu belo livro Il Gattopardo, "Se você quiser que as coisas permaneçam como estão, as coisas terão de mudar"; foto de escultura baseada no Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, Estocolmo, Suécia ©cuddesdon1971

16.06.2009

Por que palavras?

hoteiMoonweb.jpg

 

Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu:" As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou," por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.

 

Tam Hyuen Van

 

Notas do blog: para ler comentários do autor desta história, por favor acesse: http://tamhaovan.multiply.com/journal/item/34

ilustração de Yoshitoshi Tsukioka, Lua da Iluminação: Cem visões da Lua (Moon of Enlightenment: One Hundred Views of the Moon, 1885-1892); para ver mais desta série por favor acesse http://yoshitoshi.verwoerd.info/


The night clouds dissolve
Hotei pointing at the moon
holds no opinion

Todas as notas