16.06.2009
Por que palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu:" As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou," por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.
Tam Hyuen Van
Notas do blog: para ler comentários do autor desta história, por favor acesse: http://tamhaovan.multiply.com/journal/item/34
ilustração de Yoshitoshi Tsukioka, Lua da Iluminação: Cem visões da Lua (Moon of Enlightenment: One Hundred Views of the Moon, 1885-1892); para ver mais desta série por favor acesse http://yoshitoshi.verwoerd.info/
The night clouds dissolve
Hotei pointing at the moon
holds no opinion
09:14 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail | Tags: dedo que aponta para a lua, hotei, zen, budismo
20.05.2009
O pássaro e o tempo

O pássaro voava alto sobre a antiga floresta, algumas vezes dias seguidos sem pousar. Lá embaixo ficava a grande árvore, e as criaturas da montanha e da floresta, cobertas pela relva, pelos arbustos e árvores. Desde o dia em que o pássaro ouviu o diálogo entre os monges, sua perplexidade cresceu. De onde vim e para onde vou? Quantos milhares de anos viverá a grande árvore?
O pássaro ouvira os monges falarem sobre o tempo. O que era o tempo? Por que o tempo nos trouxe aqui, e por que irá nos levar embora? A noz que um pássaro come tem sua própria deliciosa natureza. Como posso descobrir a natureza do tempo? O pássaro queria recolher um pequeno pedaço de tempo e ficar quieto em seu ninho por muitos dias para examinar sua natureza. Mesmo que levasse meses ou anos para examina-lo, o pássaro estava disposto a isso.
Planando alto por sobre a antiga floresta, o pássaro se sentia como um balão vagando em meio ao nada. Ele sentia que sua natureza era tão vazia quanto a do balão, e esse vazio era o solo de sua existência e a causa do seu sofrimento também. Se eu pudesse encontrar o tempo, pensava o pássaro, certamente eu encontraria a mim mesmo...
11:58 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: conto, zen, thich nhat hanh, árvore antiga, pássaro, amor, tempo
10.04.2009
Cada um de nós é um rio

Tenho uma boa história para contar. Imagine um riacho descendo do alto da montanha. Ele é muito jovem e quer correr. Seu objetivo é o oceano. Quer chegar lá tão rápido quanto possível. Quando alcança as planícies e o campo, fica mais lento. Se torna um rio. Fluindo lentamente, começa a refletir as nuvens e o céu. Há muitos tipos de nuvens, com diferentes formas e cores, e o rio passa todo o tempo as perseguindo, uma depois da outra. Mas as nuvens não ficam paradas. Elas vêm e vão. O rio chora muito, porque nenhuma das nuvens fica com ele para sempre. As coisas são impermanentes. Ele sofre devido a sua atitude e comportamento.
Um dia um vento forte limpou todas as nuvens e o céu ficou extremamente azul. Não havia absolutamente nuvens. O rio pensou que a vida não valia a pena ser vivida mais. Ele não sabia como desfrutar do céu azul. Ele o via como vazio, e sentia que a vida não tinha significado. Esta noite ele quis se matar. Como pode um rio se matar? De alguém não é possível se tornar ninguém. De algo não é possível se tornar nada. Durante aquela noite ele chorou muito. Este é o som da água batendo nas margens. Esta foi a primeira vez que ele voltou-se para si mesmo.
Até agora, ele tinha apenas corrido para fora de si mesmo. Ele pensava que a felicidade estava fora, não dentro. A primeira vez que voltou a si mesmo e ouviu o som de suas lágrimas, ele descobriu algo. Ele não sabia que um rio era feito de elementos não-rio. Ele estava perseguindo nuvens, pensando que não poderia ser feliz sem elas, e não percebeu que ele era feito de nuvens. O que ele estava procurando já estava dentro dele. Felicidade é assim. Se você sabe como voltar ao aqui e agora e perceber os elementos de sua felicidade que já estão disponíveis, não precisa mais correr.
De repente o rio percebeu que havia algo refletido nele: o céu azul. Ele vê o quão pacífico, sólido, livre e bonito o céu é. Ele não tinha percebido antes. Ele sabe que sua felicidade deveria ser feita de solidez, liberdade e espaço. Ele é preenchido de felicidade porque pela primeira vez soube como refletir o céu. Antes, ele havia somente refletido as nuvens e ignorado completamente o céu. Esta foi uma noite de transformações profundas. Todas as lágrimas e sofrimento foram transformados em alegria, solidez e liberdade.
Na manhã seguinte não havia vento. As nuvens retornaram. Agora ele as reflete sem apego com equanimidade. Ele diz “Oi” cada vez que uma nuvem aparece. Quando a nuvem se vai, ele não fica triste. Ele achou a liberdade. Ele sabe que a liberdade é a fundação da sua felicidade. Ele aprendeu a parar e não correr mais. Naquela noite algo maravilhosos se revelou. A imagem da lua cheia foi refletida. Ele está muito feliz dando as mãos para as nuvens e a lua, praticando meditação caminhando para o oceano. Cada passo, feito em conjunto com as nuvens e a lua traz ao rio muita felicidade.
Cada um de nós é um rio. Começamos como um regato descendo do alto da montanha, querendo correr o mais rápido possível. Então aprendemos como ficar mais lentos um pouco, e começamos a perseguir objetos de nosso desejo. Sofremos. Às vezes sofremos tanto que não queremos nem mais existir. Então temos a chance de voltarmos para nós mesmos e refletir profundamente. Percebemos que o objeto de nosso desejo é a causa de nosso desespero e das nossas aflições. Todos os elementos da felicidade estão disponíveis no aqui e agora. Temos tudo que precisamos. De repente conseguimos o tipo de liberdade que nunca tivemos e somos capazes de viver cada momento de nossa vida diária profundamente. Como nos tornamos um rio feliz, podemos ajudar muitos rios a nossa volta a se tornarem felizes também.
Nota do blog: este texto sobre o não-desejo, do mestre zen Thich Nhat Hanh, foi traduzido pelo amigo e irmão Leonardo Dobbin da Sangha Viver Consciente do Rio de Janeiro -- chegou até mim através do Darma on line, a excelente comunicação semanal preparada pelo Leo, que você também pode receber inscrevendo-se no blog Sanga Virtual, cujo link está aqui sempre disponível, na coluna à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs. Para quem frequenta a Sangha Plena Consciência de São Paulo, será este o texto a ser lido no Domingo de Páscoa. Para lê-lo na íntegra clique aqui e desfrute... Bom feriado!
07:32 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: thich nhat hanh, rio, não-desejo, desejo, felicidade, pressa, ansiedade, momento presente
07.01.2009
Tampouco

Um filósofo pediu ao Buda que não falasse e tampouco se calasse.
Comentário: Apenas meus descendentes ousariam andar de olhos vendados.
Poema:
Sabe-se o quão difícil é
fechar a porta da prisão?
As palavras e a fala desaparecem.
Não permanece apoio algum.
in Ocidente, Oriente e a Experiência do Vazio, tese de Adriana Lisboa
11:56 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: buda, fala, palavra, discurso, conceito, apoio
05.01.2009
O fim é o agora

A mente e o corpo desapareceram. Mente e corpo desaparecidos! Todos deveriam experimentar este estado; é como colher fruta com um cesto sem fundo, como jogar água numa tigela esburacada; por muito que queiramos, jamais podemos encher o recipiente. Quando se compreende isto, atravessa-se o fundo do cubo. Mas enquanto existir um vestígio de conceitualismo que nos faça dizer “compreendi isto” ou “apercebi-me disto”, ainda se continuará brincando com irrealidades.
Dogen foi, talvez, o primeiro mestre zen que compreendeu – pelo menos, foi o primeiro a ensiná-lo – que a vida é única e indivisível; quando a dividimos em fragmentos – alguns deles fascinantes, outros aborrecidos, outros que nos interessam ou não nos interessam pessoalmente, etc. – na realidade estamos perdendo por completo o fluxo da vida. Ao tentar dominar os acontecimentos, ficamos encalhados em falsas ilhas de permanência, vemo-nos como algo estável enquanto a “vida” passa a toda a velocidade. Dogen ensinou que cada momento e cada ação, por insignificantes que sejam, deve contemplar-se como a manifestação real da condição búdica. Não existem meios para chegar a um fim, porque o fim é o agora.
comentando as palavras de Eihei Dogen (1200-1253), in Zen, o Budismo nas Terras do Japão, Anne Bancroft, Edições del Prado, Lisboa, 1997
Foto ©Michael Woods
14:15 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: dogen, impermanência, vazio, interexistência, zen
08.11.2008
Dois homens e a borboleta

Dois homens viajavam juntos em pleno sol de verão. Eles iam aonde vão os peregrinos perpétuos: sempre em frente. Perto do meio dia, depois de caminhar muito desde o amanhecer, resolveram parar para comer e descansar à sombra de um grande carvalho, à beira de uma campina. Almoçaram um pedaço de pão e um copo de vinho. Depois um deles se estendeu sobre a relva, com o chapéu sobre os olhos, as mãos cruzadas sobre o ventre e dormiu.
Então, de dentro de sua boca aberta, seu companheiro viu sair uma borboleta azul. Voando em círculos crescentes a borboleta foi visitando arbustos e flores, até se dirigir para um crânio de cavalo que estava sobre a relva, a certa distância dali.
O homem sentado não perdeu um só dos movimentos da borboleta, que entrava e saía mil vezes daquele crânio, entrando por um olho, saindo pelo outro, depois desaparecendo no fundo das órbitas para reaparecer por entre os dentes, em rápidos volteios incessantes, até finalmente afastar-se e voltar outra vez a voar em círculos em torno da cabeça do homem que dormia e entrar pela sua boca adentro. Nesse momento o homem acordou, esfregou os olhos e disse para o amigo enquanto se espreguiçava longamente:
Acabo de ter um sonho muito agradável. Eu estava em um palácio magnífico, brilhante, maravilhoso. Eu visitava todos os seus aposentos, corria ao longo dos corredores, subia em seus andares mais altos que tinham o teto abobadado como as igrejas, depois descia a seus porões profundos. Este palácio era meu. E eu estava maravilhado porque ele tinha sido construído sobre um imenso tesouro escondido sob suas muralhas.
Foi então que o outro lhe respondeu:
- Você quer que eu diga onde é que você esteve durante seu sono? Está vendo aquele crânio de cavalo que está brilhando ao sol? Foi para lá que você foi. Eu vi seu espírito sair pela sua boca na forma de uma borboleta azul. Ela visitou todos os lugares daquele crânio, do fundo do olho até os dentes e depois voltou para dentro da sua boca. Agora, se você quiser acreditar em mim, vamos fazer um buraco sob as muralhas deste palácio, para ver se o olho do sonho é mesmo clarividente.
Eles levantaram o crânio, cavaram a terra onde ele estava depositado e descobriram o tesouro escondido. Um imenso tesouro: lá havia TUDO, tudo o que um homem pode sonhar.
Extraído de El Caballo Magico, de Idries Shah; do blog http://www.sertaodoperi.com.br
12:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: sufi, broboleta, sonho, Idries Shah
23.05.2008
Dois tipos de renúncia

Quando Upagupta raspou sua cabeça com a idade de dezessete, Shanavasa perguntou a ele, "Você está deixando o lar em corpo ou mente?"
No budismo, há basicamente dois tipos de [renúncia, isto é, de] deixar o lar — a do corpo e a da mente.Aqueles que deixam o lar fisicamente abandonam os sentimentos social e pessoal, deixam seu lugar natal, raspam suas cabeças, vestem-se de preto e não têm quaisquer servos, tornando-se monges. Trabalham sobre o caminho vinte e quatro horas por dia, então não perdem tempo e não têm desejos estranhos. Portanto, não são felizes por estarem vivos e não temem morrer. Suas mentes são como a claridade pura da lua de outono, seus olhos são como a perfeição de um espelho brilhante. Não procuram a mente ou uma essência; nem mesmo praticam as verdades sagradas, muito menos têm quaisquer apegos mundanos. Deste modo, não permanecem no estado dos mortais comuns nem são confinados ao estado dos sábios e santos — são viajantes sem mente. Estas são as pessoas que deixaram o lar fisicamente.
Aqueles que deixaram o lar mentalmente não raspam seu cabelo nem usam roupas especiais. Apesar de viverem em casa e de estarem no meio dos problemas do mundo, são como lótus não maculados pelo barro, como jóias não afetadas pela poeira. Apesar de poderem ter esposas e filhos, de acordo com as circunstâncias, não são apegados a eles. Como a lua no céu, como uma pérola rolando em uma tigela, vêem aquele que está livre no meio de uma cidade agitada, entendem além do tempo enquanto estão no mundo, sabem que "até mesmo cortar as paixões é uma doença" e realizam que "objetivar pela verdadeira talidade também é errado". Para eles, tanto o nirvana quanto o samsara são ilusões; não estão preocupados nem com a iluminação nem com a aflição. Estas são as pessoas que deixaram o lar mentalmente.Portanto Shanavasa perguntou a Upagupta, "Você está deixando o lar física ou mentalmente?"
(Adaptado de Keizan, Transmission of light: Zen in the art of enlightenment.Tradução e introdução de Thomas Cleary. San Francisco: North Point Press, 1990, p. 21-22.)
(*)Nota do blog: encontrei este texto recentemente, publicado num dos blogs que freqüento e onde sempre encontro mensagens que ecoam o coração, o blog Impermanências -- cujo link encontra-se sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela.
Obrigado.
09:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: renúncia, zen, budismo, Keizan, blog Impermanências
19.05.2008
As chamas dos desejos

A primeira palestra-Darma proferida pelo Buda naquela estação foi sobre o tema da felicidade. Ele disse à assembléia que a felicidade é real e pode ser alcançada bem no meio da vida cotidiana. “Em primeiro lugar”, -- disse o Buda, -- “a felicidade não resulta de se entregar aos desejos sensuais. Os prazeres sensuais trazem uma felicidade ilusória e, verdadeiramente, eles são fonte de sofrimento.
“É como um leproso que é forçado a viver sozinho na floresta. Sua carne é atravessada por terrível dor, dia e noite. Então, ele cava um buraco, acende ali dentro uma fogueira e fica bem junto do fogo tentando aliviar temporariamente sua dor, quase queimando os seus membros. É a única maneira de conseguir alguma melhora ou alívio. Miraculosamente, porém, após alguns anos, sua doença desaparece, e ele é capaz de retornar a uma vida normal na vila. Um dia, entra na floresta e vê um grupo de leprosos queimando seus membros sobre as chamas ardentes, exatamente como ele fazia. Sente dó daquelas pessoas, pois sabe que, no seu estado saudável, jamais conseguiria manter seus membros tão próximos das chamas. Se alguém tentasse arrastá-lo para junto do fogo, ele resistiria. Então compreende: aquilo que antes lhe dava algum conforto, na verdade, é fonte de dor para quem está saudável.
“Os prazeres são como uma cova de fogo. Trazem alívio somente para aqueles que estão doentes. Uma pessoa sã evita as chamas dos desejos sensuais.”
em Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007)
(*) Nota do blog: sobre felicidade duradoura em oposição aos prazeres sensuais passageiros há o Samiddhi Sutra, trazido na postagem O monge e o deva, em versão reescrita para este blog, e noutras duas postagens os comentários de Thich Nhat Hanh ao Sutra, disponíveis em:
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/03/comen...
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/04/comen...
09:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: felicidade, sofrimento, prazeres sensuais, Buda, Darma, Velho Caminho Nuvens Brancas, Thich Nhat Hanh
16.05.2008
Como pode?

Árvore da sabedoria, nada de semelhante existe,
nem mesmo um espelho no seu estrado.
Nada existe que seja real.
Como pode, então, a poeira assentar?
em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch, Editora Pensamento, São Paulo, 1997
10:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Árvore da sabedoria, poeira, O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch
01.05.2008
Nossa colheita

Naquela estação de retiro, eles moraram nos montes próximos da cidade de Ekala, ao sul de Rajagaha. Certa tarde, quando os bikkhus passavam por campos de arroz, próximos de Ekala, foram parados por um rico fazendeiro pertencente a uma casta nobre, chamado Baradvaja. Ele possuía vários milhares de hectares. Era época de plantio, e estava dirigindo os esforços de centenas de lavradores. Quando viu o Buda passar, postou-se diretamente em seu caminho e disse com algum desprezo: “Nós somos fazendeiros. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos para comer. Vocês não fazem nada, não produzem nada e, ainda assim, comem. Vocês são inúteis. Não aram, não semeiam, não fertilizam, não cultivam e não ceifam.”
“Oh, mas nós fazemos tudo isso. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos.” – disse o Buda.
“Então, onde estão seus arados, seus búfalos e suas sementes? Quais culturas vocês plantam? Quais culturas ceifam?”
O Buda respondeu: “Nós cultivamos as sementes da confiança na terra do coração verdadeiro. Nosso arado é a mente alerta, e nosso búfalo é a prática da diligência. Nossa colheita é o amor e a compreensão. Senhor, sem confiança, compreensão e amor, a vida não é nada além de sofrimento.”
Baradvaja sentiu-se inesperadamente tocado pelas palavras do Buda. Ele pediu a um servo que trouxesse arroz fragrante fervido em leite, mas o Buda o recusou dizendo: “Não compartilhei estas coisas consigo no intuito de obter comida em retribuição. Se desejar fazer uma oferenda, por favor, faça-o num outro momento.”
(*) Notas do blog: neste Dia do Trabalho, que é feriado, trago este trecho do belo livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007) -- uma reflexão sobre ação e contemplação, sobre o trabalho espiritual, que vem complementar as postagens de anos passados, Ação e contemplação (2006) e O Jesus de Tomé (II) em 2007.
A linda foto acima é da autoria de Rick Gunn; uma outra foto dele foi publicada aqui em Praticar o dharma, onde conto sobre o Wish Tour que levou este fotógrafo a percorrer recentemente mais de 15 mil milhas de bicicleta ao redor do mundo -- sua página pode ser visitada através do link:
http://www.rickgunnphotography.com
09:35 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, sementes, trabalho espiritual, Dia do Trabalho, Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas