16.06.2009
Por que palavras?

Um monge aproximou-se de seu mestre - que se encontrava em meditação no pátio do Templo à luz da lua - com uma grande dúvida:
"Mestre, aprendi que confiar nas palavras é ilusório; e diante das palavras, o verdadeiro sentido surge através do silêncio. Mas vejo que os Sutras e as recitações são feitas de palavras; que o ensinamento é transmitido pela voz. Se o Dharma está além dos termos, porque os termos são usados para defini-lo?"
O velho sábio respondeu:" As palavras são como um dedo apontando para a Lua; cuida de saber olhar para a Lua, não se preocupe com o dedo que a aponta."
O monge replicou: "Mas eu não poderia olhar a Lua, sem precisar que algum dedo alheio a indique?"
"Poderia," confirmou o mestre, "e assim tu o farás, pois ninguém mais pode olhar a lua por ti. As palavras são como bolhas de sabão: frágeis e inconsistentes, desaparecem quando em contato prolongado com o ar. A Lua está e sempre esteve à vista. O Dharma é eterno e completamente revelado. As palavras não podem revelar o que já está revelado desde o Primeiro Princípio."
"Então," o monge perguntou," por que os homens precisam que lhes seja revelado o que já é de seu conhecimento?"
"Porque," completou o sábio, "da mesma forma que ver a Lua todas as noites faz com que os homens se esqueçam dela pelo simples costume de aceitar sua existência como fato consumado, assim também os homens não confiam na Verdade já revelada pelo simples fato dela se manifestar em todas as coisas, sem distinção. Desta forma, as palavras são um subterfúgio, um adorno para embelezar e atrair nossa atenção. E como qualquer adorno, pode ser valorizado mais do que é necessário."
O mestre ficou em silêncio durante muito tempo. Então, de súbito, simplesmente apontou para a lua.
Tam Hyuen Van
Notas do blog: para ler comentários do autor desta história, por favor acesse: http://tamhaovan.multiply.com/journal/item/34
ilustração de Yoshitoshi Tsukioka, Lua da Iluminação: Cem visões da Lua (Moon of Enlightenment: One Hundred Views of the Moon, 1885-1892); para ver mais desta série por favor acesse http://yoshitoshi.verwoerd.info/
The night clouds dissolve
Hotei pointing at the moon
holds no opinion
09:14 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail | Tags: dedo que aponta para a lua, hotei, zen, budismo
20.05.2009
O pássaro e o tempo

O pássaro voava alto sobre a antiga floresta, algumas vezes dias seguidos sem pousar. Lá embaixo ficava a grande árvore, e as criaturas da montanha e da floresta, cobertas pela relva, pelos arbustos e árvores. Desde o dia em que o pássaro ouviu o diálogo entre os monges, sua perplexidade cresceu. De onde vim e para onde vou? Quantos milhares de anos viverá a grande árvore?
O pássaro ouvira os monges falarem sobre o tempo. O que era o tempo? Por que o tempo nos trouxe aqui, e por que irá nos levar embora? A noz que um pássaro come tem sua própria deliciosa natureza. Como posso descobrir a natureza do tempo? O pássaro queria recolher um pequeno pedaço de tempo e ficar quieto em seu ninho por muitos dias para examinar sua natureza. Mesmo que levasse meses ou anos para examina-lo, o pássaro estava disposto a isso.
Planando alto por sobre a antiga floresta, o pássaro se sentia como um balão vagando em meio ao nada. Ele sentia que sua natureza era tão vazia quanto a do balão, e esse vazio era o solo de sua existência e a causa do seu sofrimento também. Se eu pudesse encontrar o tempo, pensava o pássaro, certamente eu encontraria a mim mesmo...
11:58 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: conto, zen, thich nhat hanh, árvore antiga, pássaro, amor, tempo
10.04.2009
Cada um de nós é um rio

Tenho uma boa história para contar. Imagine um riacho descendo do alto da montanha. Ele é muito jovem e quer correr. Seu objetivo é o oceano. Quer chegar lá tão rápido quanto possível. Quando alcança as planícies e o campo, fica mais lento. Se torna um rio. Fluindo lentamente, começa a refletir as nuvens e o céu. Há muitos tipos de nuvens, com diferentes formas e cores, e o rio passa todo o tempo as perseguindo, uma depois da outra. Mas as nuvens não ficam paradas. Elas vêm e vão. O rio chora muito, porque nenhuma das nuvens fica com ele para sempre. As coisas são impermanentes. Ele sofre devido a sua atitude e comportamento.
Um dia um vento forte limpou todas as nuvens e o céu ficou extremamente azul. Não havia absolutamente nuvens. O rio pensou que a vida não valia a pena ser vivida mais. Ele não sabia como desfrutar do céu azul. Ele o via como vazio, e sentia que a vida não tinha significado. Esta noite ele quis se matar. Como pode um rio se matar? De alguém não é possível se tornar ninguém. De algo não é possível se tornar nada. Durante aquela noite ele chorou muito. Este é o som da água batendo nas margens. Esta foi a primeira vez que ele voltou-se para si mesmo.
Até agora, ele tinha apenas corrido para fora de si mesmo. Ele pensava que a felicidade estava fora, não dentro. A primeira vez que voltou a si mesmo e ouviu o som de suas lágrimas, ele descobriu algo. Ele não sabia que um rio era feito de elementos não-rio. Ele estava perseguindo nuvens, pensando que não poderia ser feliz sem elas, e não percebeu que ele era feito de nuvens. O que ele estava procurando já estava dentro dele. Felicidade é assim. Se você sabe como voltar ao aqui e agora e perceber os elementos de sua felicidade que já estão disponíveis, não precisa mais correr.
De repente o rio percebeu que havia algo refletido nele: o céu azul. Ele vê o quão pacífico, sólido, livre e bonito o céu é. Ele não tinha percebido antes. Ele sabe que sua felicidade deveria ser feita de solidez, liberdade e espaço. Ele é preenchido de felicidade porque pela primeira vez soube como refletir o céu. Antes, ele havia somente refletido as nuvens e ignorado completamente o céu. Esta foi uma noite de transformações profundas. Todas as lágrimas e sofrimento foram transformados em alegria, solidez e liberdade.
Na manhã seguinte não havia vento. As nuvens retornaram. Agora ele as reflete sem apego com equanimidade. Ele diz “Oi” cada vez que uma nuvem aparece. Quando a nuvem se vai, ele não fica triste. Ele achou a liberdade. Ele sabe que a liberdade é a fundação da sua felicidade. Ele aprendeu a parar e não correr mais. Naquela noite algo maravilhosos se revelou. A imagem da lua cheia foi refletida. Ele está muito feliz dando as mãos para as nuvens e a lua, praticando meditação caminhando para o oceano. Cada passo, feito em conjunto com as nuvens e a lua traz ao rio muita felicidade.
Cada um de nós é um rio. Começamos como um regato descendo do alto da montanha, querendo correr o mais rápido possível. Então aprendemos como ficar mais lentos um pouco, e começamos a perseguir objetos de nosso desejo. Sofremos. Às vezes sofremos tanto que não queremos nem mais existir. Então temos a chance de voltarmos para nós mesmos e refletir profundamente. Percebemos que o objeto de nosso desejo é a causa de nosso desespero e das nossas aflições. Todos os elementos da felicidade estão disponíveis no aqui e agora. Temos tudo que precisamos. De repente conseguimos o tipo de liberdade que nunca tivemos e somos capazes de viver cada momento de nossa vida diária profundamente. Como nos tornamos um rio feliz, podemos ajudar muitos rios a nossa volta a se tornarem felizes também.
Nota do blog: este texto sobre o não-desejo, do mestre zen Thich Nhat Hanh, foi traduzido pelo amigo e irmão Leonardo Dobbin da Sangha Viver Consciente do Rio de Janeiro -- chegou até mim através do Darma on line, a excelente comunicação semanal preparada pelo Leo, que você também pode receber inscrevendo-se no blog Sanga Virtual, cujo link está aqui sempre disponível, na coluna à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs. Para quem frequenta a Sangha Plena Consciência de São Paulo, será este o texto a ser lido no Domingo de Páscoa. Para lê-lo na íntegra clique aqui e desfrute... Bom feriado!
07:32 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: thich nhat hanh, rio, não-desejo, desejo, felicidade, pressa, ansiedade, momento presente
07.01.2009
Tampouco

Um filósofo pediu ao Buda que não falasse e tampouco se calasse.
Comentário: Apenas meus descendentes ousariam andar de olhos vendados.
Poema:
Sabe-se o quão difícil é
fechar a porta da prisão?
As palavras e a fala desaparecem.
Não permanece apoio algum.
in Ocidente, Oriente e a Experiência do Vazio, tese de Adriana Lisboa
11:56 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: buda, fala, palavra, discurso, conceito, apoio
05.01.2009
O fim é o agora

A mente e o corpo desapareceram. Mente e corpo desaparecidos! Todos deveriam experimentar este estado; é como colher fruta com um cesto sem fundo, como jogar água numa tigela esburacada; por muito que queiramos, jamais podemos encher o recipiente. Quando se compreende isto, atravessa-se o fundo do cubo. Mas enquanto existir um vestígio de conceitualismo que nos faça dizer “compreendi isto” ou “apercebi-me disto”, ainda se continuará brincando com irrealidades.
Dogen foi, talvez, o primeiro mestre zen que compreendeu – pelo menos, foi o primeiro a ensiná-lo – que a vida é única e indivisível; quando a dividimos em fragmentos – alguns deles fascinantes, outros aborrecidos, outros que nos interessam ou não nos interessam pessoalmente, etc. – na realidade estamos perdendo por completo o fluxo da vida. Ao tentar dominar os acontecimentos, ficamos encalhados em falsas ilhas de permanência, vemo-nos como algo estável enquanto a “vida” passa a toda a velocidade. Dogen ensinou que cada momento e cada ação, por insignificantes que sejam, deve contemplar-se como a manifestação real da condição búdica. Não existem meios para chegar a um fim, porque o fim é o agora.
comentando as palavras de Eihei Dogen (1200-1253), in Zen, o Budismo nas Terras do Japão, Anne Bancroft, Edições del Prado, Lisboa, 1997
Foto ©Michael Woods
14:15 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: dogen, impermanência, vazio, interexistência, zen
08.11.2008
Dois homens e a borboleta

Dois homens viajavam juntos em pleno sol de verão. Eles iam aonde vão os peregrinos perpétuos: sempre em frente. Perto do meio dia, depois de caminhar muito desde o amanhecer, resolveram parar para comer e descansar à sombra de um grande carvalho, à beira de uma campina. Almoçaram um pedaço de pão e um copo de vinho. Depois um deles se estendeu sobre a relva, com o chapéu sobre os olhos, as mãos cruzadas sobre o ventre e dormiu.
Então, de dentro de sua boca aberta, seu companheiro viu sair uma borboleta azul. Voando em círculos crescentes a borboleta foi visitando arbustos e flores, até se dirigir para um crânio de cavalo que estava sobre a relva, a certa distância dali.
O homem sentado não perdeu um só dos movimentos da borboleta, que entrava e saía mil vezes daquele crânio, entrando por um olho, saindo pelo outro, depois desaparecendo no fundo das órbitas para reaparecer por entre os dentes, em rápidos volteios incessantes, até finalmente afastar-se e voltar outra vez a voar em círculos em torno da cabeça do homem que dormia e entrar pela sua boca adentro. Nesse momento o homem acordou, esfregou os olhos e disse para o amigo enquanto se espreguiçava longamente:
Acabo de ter um sonho muito agradável. Eu estava em um palácio magnífico, brilhante, maravilhoso. Eu visitava todos os seus aposentos, corria ao longo dos corredores, subia em seus andares mais altos que tinham o teto abobadado como as igrejas, depois descia a seus porões profundos. Este palácio era meu. E eu estava maravilhado porque ele tinha sido construído sobre um imenso tesouro escondido sob suas muralhas.
Foi então que o outro lhe respondeu:
- Você quer que eu diga onde é que você esteve durante seu sono? Está vendo aquele crânio de cavalo que está brilhando ao sol? Foi para lá que você foi. Eu vi seu espírito sair pela sua boca na forma de uma borboleta azul. Ela visitou todos os lugares daquele crânio, do fundo do olho até os dentes e depois voltou para dentro da sua boca. Agora, se você quiser acreditar em mim, vamos fazer um buraco sob as muralhas deste palácio, para ver se o olho do sonho é mesmo clarividente.
Eles levantaram o crânio, cavaram a terra onde ele estava depositado e descobriram o tesouro escondido. Um imenso tesouro: lá havia TUDO, tudo o que um homem pode sonhar.
Extraído de El Caballo Magico, de Idries Shah; do blog http://www.sertaodoperi.com.br
12:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: sufi, broboleta, sonho, Idries Shah
23.05.2008
Dois tipos de renúncia

Quando Upagupta raspou sua cabeça com a idade de dezessete, Shanavasa perguntou a ele, "Você está deixando o lar em corpo ou mente?"
No budismo, há basicamente dois tipos de [renúncia, isto é, de] deixar o lar — a do corpo e a da mente.Aqueles que deixam o lar fisicamente abandonam os sentimentos social e pessoal, deixam seu lugar natal, raspam suas cabeças, vestem-se de preto e não têm quaisquer servos, tornando-se monges. Trabalham sobre o caminho vinte e quatro horas por dia, então não perdem tempo e não têm desejos estranhos. Portanto, não são felizes por estarem vivos e não temem morrer. Suas mentes são como a claridade pura da lua de outono, seus olhos são como a perfeição de um espelho brilhante. Não procuram a mente ou uma essência; nem mesmo praticam as verdades sagradas, muito menos têm quaisquer apegos mundanos. Deste modo, não permanecem no estado dos mortais comuns nem são confinados ao estado dos sábios e santos — são viajantes sem mente. Estas são as pessoas que deixaram o lar fisicamente.
Aqueles que deixaram o lar mentalmente não raspam seu cabelo nem usam roupas especiais. Apesar de viverem em casa e de estarem no meio dos problemas do mundo, são como lótus não maculados pelo barro, como jóias não afetadas pela poeira. Apesar de poderem ter esposas e filhos, de acordo com as circunstâncias, não são apegados a eles. Como a lua no céu, como uma pérola rolando em uma tigela, vêem aquele que está livre no meio de uma cidade agitada, entendem além do tempo enquanto estão no mundo, sabem que "até mesmo cortar as paixões é uma doença" e realizam que "objetivar pela verdadeira talidade também é errado". Para eles, tanto o nirvana quanto o samsara são ilusões; não estão preocupados nem com a iluminação nem com a aflição. Estas são as pessoas que deixaram o lar mentalmente.Portanto Shanavasa perguntou a Upagupta, "Você está deixando o lar física ou mentalmente?"
(Adaptado de Keizan, Transmission of light: Zen in the art of enlightenment.Tradução e introdução de Thomas Cleary. San Francisco: North Point Press, 1990, p. 21-22.)
(*)Nota do blog: encontrei este texto recentemente, publicado num dos blogs que freqüento e onde sempre encontro mensagens que ecoam o coração, o blog Impermanências -- cujo link encontra-se sempre disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela.
Obrigado.
09:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: renúncia, zen, budismo, Keizan, blog Impermanências
19.05.2008
As chamas dos desejos

A primeira palestra-Darma proferida pelo Buda naquela estação foi sobre o tema da felicidade. Ele disse à assembléia que a felicidade é real e pode ser alcançada bem no meio da vida cotidiana. “Em primeiro lugar”, -- disse o Buda, -- “a felicidade não resulta de se entregar aos desejos sensuais. Os prazeres sensuais trazem uma felicidade ilusória e, verdadeiramente, eles são fonte de sofrimento.
“É como um leproso que é forçado a viver sozinho na floresta. Sua carne é atravessada por terrível dor, dia e noite. Então, ele cava um buraco, acende ali dentro uma fogueira e fica bem junto do fogo tentando aliviar temporariamente sua dor, quase queimando os seus membros. É a única maneira de conseguir alguma melhora ou alívio. Miraculosamente, porém, após alguns anos, sua doença desaparece, e ele é capaz de retornar a uma vida normal na vila. Um dia, entra na floresta e vê um grupo de leprosos queimando seus membros sobre as chamas ardentes, exatamente como ele fazia. Sente dó daquelas pessoas, pois sabe que, no seu estado saudável, jamais conseguiria manter seus membros tão próximos das chamas. Se alguém tentasse arrastá-lo para junto do fogo, ele resistiria. Então compreende: aquilo que antes lhe dava algum conforto, na verdade, é fonte de dor para quem está saudável.
“Os prazeres são como uma cova de fogo. Trazem alívio somente para aqueles que estão doentes. Uma pessoa sã evita as chamas dos desejos sensuais.”
em Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007)
(*) Nota do blog: sobre felicidade duradoura em oposição aos prazeres sensuais passageiros há o Samiddhi Sutra, trazido na postagem O monge e o deva, em versão reescrita para este blog, e noutras duas postagens os comentários de Thich Nhat Hanh ao Sutra, disponíveis em:
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/03/comen...
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2007/08/04/comen...
09:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: felicidade, sofrimento, prazeres sensuais, Buda, Darma, Velho Caminho Nuvens Brancas, Thich Nhat Hanh
16.05.2008
Como pode?

Árvore da sabedoria, nada de semelhante existe,
nem mesmo um espelho no seu estrado.
Nada existe que seja real.
Como pode, então, a poeira assentar?
em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch, Editora Pensamento, São Paulo, 1997
10:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Árvore da sabedoria, poeira, O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch
01.05.2008
Nossa colheita

Naquela estação de retiro, eles moraram nos montes próximos da cidade de Ekala, ao sul de Rajagaha. Certa tarde, quando os bikkhus passavam por campos de arroz, próximos de Ekala, foram parados por um rico fazendeiro pertencente a uma casta nobre, chamado Baradvaja. Ele possuía vários milhares de hectares. Era época de plantio, e estava dirigindo os esforços de centenas de lavradores. Quando viu o Buda passar, postou-se diretamente em seu caminho e disse com algum desprezo: “Nós somos fazendeiros. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos para comer. Vocês não fazem nada, não produzem nada e, ainda assim, comem. Vocês são inúteis. Não aram, não semeiam, não fertilizam, não cultivam e não ceifam.”
“Oh, mas nós fazemos tudo isso. Nós aramos, semeamos, fertilizamos, cultivamos e ceifamos.” – disse o Buda.
“Então, onde estão seus arados, seus búfalos e suas sementes? Quais culturas vocês plantam? Quais culturas ceifam?”
O Buda respondeu: “Nós cultivamos as sementes da confiança na terra do coração verdadeiro. Nosso arado é a mente alerta, e nosso búfalo é a prática da diligência. Nossa colheita é o amor e a compreensão. Senhor, sem confiança, compreensão e amor, a vida não é nada além de sofrimento.”
Baradvaja sentiu-se inesperadamente tocado pelas palavras do Buda. Ele pediu a um servo que trouxesse arroz fragrante fervido em leite, mas o Buda o recusou dizendo: “Não compartilhei estas coisas consigo no intuito de obter comida em retribuição. Se desejar fazer uma oferenda, por favor, faça-o num outro momento.”
(*) Notas do blog: neste Dia do Trabalho, que é feriado, trago este trecho do belo livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007) -- uma reflexão sobre ação e contemplação, sobre o trabalho espiritual, que vem complementar as postagens de anos passados, Ação e contemplação (2006) e O Jesus de Tomé (II) em 2007.
A linda foto acima é da autoria de Rick Gunn; uma outra foto dele foi publicada aqui em Praticar o dharma, onde conto sobre o Wish Tour que levou este fotógrafo a percorrer recentemente mais de 15 mil milhas de bicicleta ao redor do mundo -- sua página pode ser visitada através do link:
http://www.rickgunnphotography.com
09:35 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, sementes, trabalho espiritual, Dia do Trabalho, Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas
29.04.2008
Uma prática da contemplação
Continuação da postagem anterior, um trecho do livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007):
“Graças à compreensão, um praticante pode evitar que a dor seja intensificada em si mesmo e nos demais. Quando um sentimento desagradável, físico ou mental, surge, o sábio não se preocupa, reclama, chora, bate no peito, puxa os cabelos, tortura seu corpo e mente, ou foge. Calmamente, ele observa seu sentimento e está cônscio de que é só um sentimento. Ele sabe que ele não é o sentimento e que não pode ser subjugado pelo sentimento. Consequentemente, a dor não pode aderir a ele. Quando tem um sentimento associado a uma dor física, sabe que há um sentimento associado a uma dor física. Ele não perde a calma, não se desespera, não teme e não reclama. Assim, o sentimento permanece tal como é e não pode crescer e tomar conta de todo o seu ser.”
“Bhikkhus, sejam diligentes em sua prática de olhar profundamente a fim de que o fruto da Compreensão possa surgir e vocês não permaneçam mais aderidos à dor. Nascimento, doença, velhice e morte também deixarão de importunar vocês.”
“Quando um bhikkhu estiver para realizar seu passamento, ele deveria manter a contemplação do corpo, dos sentimentos, da mente e dos objetos da mente. Cada posição e cada ato do corpo deveriam ser postos sob a mente atenta. O bhikkhu contempla a natureza da impermanência e a natureza da interdependência do corpo e dos sentimentos, de modo que não fique ligado ao corpo e aos sentimentos, ainda que prazerosos.”
“Se precisa de todas as suas forças para suportar a dor, ele deveria apenas observar: Este é um tipo de dor que necessita de todas as minhas forças para ser tolerada. Esta dor não sou eu. Eu não sou esta dor. Não estou preso a esta dor. O corpo e os sentimentos são, neste momento, uma lamparina cujo óleo e pavio estão se extinguindo. É por meio de condições que a luz se manifesta ou cessa de se manifestar. Eu não estou ligado às condições. Se um monge praticar deste modo, calma e alívio surgirão.”
09:25 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Buda biografia, Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, Thich Nhat Hanh
28.04.2008
A segunda e a terceira setas
Um dia, no monastério Kutagara, nas Grandes Madeiras, o Buda disse aos bhikkhus: “Como seres vivos, as pessoas têm de sofrer, um pouco mais ou um pouco menos. Todavia, aqueles que devotam a si mesmos ao estudo e à prática da Darma sofrem bem menos que os demais, pelo fato de desenvolverem a sua compreensão, que é o fruto da sua prática.”
Naquele dia, estava muito quente, mas o Buda ficou sentado com os monges sob a sombra de muitas belas árvores. Ele tomou um pequeno torrão de terra, segurou-o entre seu polegar e indicador, e perguntou: “Bhikkuhs, se nós compararmos este pedaço de terra com a montanha Gayasisa, qual seria maior?”
“É claro que Gayasisa é muito maior, Senhor.”
“É assim, ó bhikkhus, para aqueles que alcançaram a Compreensão graças ao estudo e prática do Darma – seu sofrimento é quase nada se comparado ao sofrimento daqueles que se acham subjugados pela ignorância. A ignorância amplifica o sofrimento milhões de vezes.”
“Bhikkhus, suponham que alguém seja atingido por uma seta. Ele sentirá dor. Mas, se uma segunda seta atingi-lo no mesmo ponto, a dor será bem mais do que o dobro. E, se uma terceira seta atingi-lo no mesmo ponto novamente, a dor será milhares de vezes mais intensa. Bhikkhus, a ignorância é a segunda e a terceira setas. Ela intensifica a dor.”
trecho do belo livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007), com continuação amanhã.
http://www.bodigaya.com.br/
09:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, Darma, ignorância, Compreensão, Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, Thich Nhat Hanh
10.04.2008
Que extraordinário!
A Clara Luz auto-gerada, que jamais, nem mesmo no princípio, teve nascimento,
É a filha de Rigpa, que por sua vez não tem pais – que extraordinário!
Essa sabedoria que a si mesma gerou e não foi criada por ninguém – que extraordinário!
Que nunca experienciou nascimento, e não tem nada em si mesma que poderia causar-lhe a morte – que extraordinário!
Embora obviamente visível, não há ninguém lá que a veja – que extraordinário!
Embora tenha vagado pelo samsara, nenhum mal a atingiu – que extraordinário!
Embora tenha visto o próprio estado búdico, disso não lhe adveio nenhum bem – que extraordinário!
Embora exista em todos e em toda parte, passou irreconhecida – que extraordinário!
E no entanto você continua esperando conseguir, em outro lugar, algum outro fruto que não esse – que extraordinário!
Ainda que ela seja o mais essencialmente seu, você a procura em outra parte – que extraordinário!
Padmasambhava, descrevendo a Luminosidade Base ou "Clara Luz", em que a própria consciência se dissolve no espaço todo-abrangente da verdade -- como citado por Sogyal Rinpoche em seu luminar O Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Editora Palas Athena, São Paulo, 1999).
(*) Nota do blog: Rigpa, mencionada no texto acima, é a palavra tibetana para (citando Sogyal Rinpoche) a natureza mesma da mente, que é absoluta e intocada pela mudança ou pela morte. No presente ela está oculta dentro da nossa própria mente, envolvida e obscurecida pela disparada correria mental dos nossos pensamentos e emoções; [...] uma consciência primordial, pura, original, que é ao mesmo tempo inteligente, cognitiva, radiante e sempre desperta. [...] Não cometa o erro de imaginar que a natureza da mente é uma exclusividade da nossa mente. Ela é de fato a natureza de tudo. Nunca é demais repetir que realizar a natureza da mente é realizar a natureza de todas as coisas. (citações retiradas do livro mencionado acima)
09:33 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Padmasambhava, Luminosidade Base, Clara Luz, Rigpa, consciência, Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano do Viver e do Morrer
08.04.2008
Atsi, atsi...
Aqui está a continuação da história iniciada ontem, retirada do livro de Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista (Edições Chagdud Gonpa, Três Coroas, 2003):
Certo dia, nasceu no pescoço de Dodrup Tchen Rinpoche um furúnculo que cresceu tanto que quase o sufocava. Muitos médicos tentaram tratá-lo, mas nada se mostrava eficaz. Uma pessoa que estava de visita, vindo da região do velho, disse ao lama, “Um de seus alunos mora perto de nós. Ele pode curá-lo.”
“Quem é ele?” perguntou o lama.
“Um velho que passou três anos com o senhor.”
“Não me lembro dele, mas diga-lhe que venha me ajudar.”
Imediatamente alguém foi enviado para buscar o velho. “Você tem de vir agora mesmo”, disseram-lhe, “o lama está precisando de ajuda.”
O velho disse, “O lama deu-me a transmissão dos três versos. Eu vou tentar ajudá-lo.”
Antes que o velho chegasse, uma almofada muito bonita foi disposta para ele se sentar, um sinal de grande respeito. Assim que ele entrou no aposento, o lama viu o nariz e se lembrou dele, pensando, “Como é que esse aí vai poder me curar?”
Lentamente, com concentração unidirecional, o velho começou a entoar, “Atsi, atsi..”. O lama caiu na gargalhada, o furúnculo estourou e ele sarou.
10:05 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: fé, humor, Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista
07.04.2008
Atsi, atsi!

Havia uma vez, um velho pastor que a cada verão ia com a família ao alto de uma determinada montanha para criar seus carneiros e iaques. Muitas pessoas passavam pela tenda da família e o pastor sempre perguntava-lhes para onde se dirigiam. Invariavelmente respondiam, “Vamos ver Dodrup Tchen Rinpoche e receber a transmissão direta dos três versos”.
Num verão, o velho decidiu que ele também iria ver o lama. Perguntou a uma família que passava se poderia se juntar a ela, e as pessoas concordaram que fosse junto. Assim, ele partiu, deixando para trás todos os seus carneiros e iaques.
Quando chegaram à casa do lama, o velho, sem saber o que fazer e nada tendo a pedir ao lama, dirigiu-se à cozinha, recebeu um pouco de comida e esperou por ali. Nesse ínterim, a família solicitou e recebeu do lama um ensinamento curto e em seguida partiu e voltou para casa.
O velho ficou naquele lugar por três anos, ajudando na cozinha em troca de comida, tornando-se como que um membro da família dos que ali trabalhavam. Durante esse tempo todo, ele nunca se encontrou com o lama.
Um dia, os cozinheiros pediram ao velho que levasse chá ao lama. Pela primeira vez ele entrou na sala do mestre. Quando o lama o viu, exclamou, “Atsi! Atsi! Na ka ru rakshe treng ua dra shig yin!”, que quer dizer, “Minha nossa! Minha nossa! Seu nariz é como uma semente de rudraksha!" De fato, o nariz do velho era muito grande e rugoso. O velho pensou consigo, “Então é isso. Finalmente recebi do lama a transmissão dos três versos!”
Ele retornou à sua aldeia, entoando dia e noite, “Atsi! Atsi! Na ka ru rakshe treng ua dra shig yin!”, contando as recitações em seu rosário. As pessoas da aldeia passaram a ter grande fé nele porque, afinal de contas, havia ficado com o lama por três anos. Elas imaginavam que ele, agora, seguramente deveria ter qualidades extraordinárias. Sempre que ficavam doentes, tinham alguma dor ou inchaço, iam se avistar com ele. O velho assoprava sobre a parte afetada e elas saravam. Ele se tornou bem famoso por toda a região.
Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista, Edições Chagdud Gonpa, Três Coroas, 2003
(*) Nota do blog: não, a história não acabou. O desenlace virá na postagem de amanhã.
Por ora, mais e belas fotos podem ser vistas em http://www.wholeearthimages.com/html/bhutan.html
09:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: fé, humor, Chagdud Tulku Rinpoche, Portões da Prática Budista
04.04.2008
Praticar o dharma

Certo dia, um ancião perambulava pelo mosteiro de Reting. Geshe Drom disse-lhe: “Fico feliz em vê-lo perambulando, mas não seria melhor se você praticasse o dharma?”
Após ponderar a respeito, o ancião achou que faria melhor se lesse algumas escrituras budistas. Enquanto ele lia no pátio do templo, Geshe Drom disse: “Fico feliz em vê-lo lendo o dharma, mas não seria melhor praticá-lo?”
Ouvindo isso, o ancião pensou que o melhor a fazer seria apenas meditar. Deixou de lado a leitura e sentou-se em uma almofada, com os olhos semicerrados. Drom disse: “É bom vê-lo meditando, mas você não deveria estar praticando o dharma?”
Não pensando em nada que restasse a fazer, o ancião perguntou: “Geshe-la, por favor, como eu deveria praticar o dharma?”
“Quando você pratica”, Drom respondeu, “não existe distinção entre o dharma e sua própria mente.”
Tsun ba je gom (Máximas variadas de mestres Kadampa)
citado por Stephen Batchelor em Budismo sem crenças, A consciência do despertar (Editora Palas Athena, São Paulo, 2005)
(*) Nota do blog: a foto acima é da autoria de Rick Gunn, que está encerrando seu Wish Tour, uma viagem de bicicleta ao redor do planeta, que durou 2 anos e meio e levou-o a 32 países. O diário de viagens (em Inglês) que disponibilzou na internet sobre o seu Wish Tour é realmente maravilhoso -- não só nas centenas de fotos (que são belas mas não exatamente ou sempre bonitas; sobretudo parecem sinceras e sentidas) mas no seu texto envolvente, muito pessoal, algumas vezes confessional, em que compartilha experiências e lições valorosas, acrescidas de citações bem colocadas. É também o relato de uma aventura, com todo o inesperado de mover-se por novas paragens a cada dia, de nunca retornar, e embrenhar-se cada vez mais profundamente na natureza (a humana inclusive) sempre cambiante e imprevisível. Há também galerias de suas fotos em http://www.rickgunnphotography.com/galleries.html.
Desfrute!
09:13 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: prática dharma, escrituras, meditação, Geshe Drom, Reting, Tsun ba je gom, Kadampa
02.04.2008
Uma braçada de folhas

[...] Um monastério importante foi construído lá, numa grande floresta chamada Gosita, nomeado após a doação da floresta por um discípulo leigo. [...]
Gosita era repleta de árvores simsapa, sob as quais o Buda gostava de meditar nas tardes quentes. Certo dia, após sua meditação, ele retornou para a comunidade segurando uma braçada de folhas de simsapa. Ele segurou-as no alto e perguntou aos bhikkhus: “Qual é maior – o número de folhas em minha mão ou o número de folhas na floresta?”
Os discípulos responderam: “O número de folhas na floresta.”
O Buda prosseguiu: “Do mesmo modo, o que vejo é muito maior do que aquilo que ensino. Por quê? Porque ensino apenas aquelas coisas que são verdadeiramente necessárias e podem ajudar na realização do Caminho.”
O Buda disse isto porque, em Gosita, havia muitos monges que tendiam a se perder em especulação filosófica. [...]
trecho do livro Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, de Thich Nhat Hanh (tradução de Enio Burgos, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007).
http://www.bodigaya.com.br/
(*) Nota do blog: bosque na neblina ©Toño. Mais fotos podem ser vistas em: http://antoniobichoacuatico.spaces.live.com/photos/
09:44 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, Dharma, Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do BUDA, Editora Bodigaya
26.03.2008
Pergunta atrasada

Sorrio.
Não pude deixar de colocar uma segunda postagem hoje, quando recebi esta propaganda pelo correio: creio que a resposta à questão feita por eles é uma terceira alternativa que não é sequer cogitada pela pergunta... Nem no passado nem no futuro está a coisa mais importante a fazer.
A resposta a esta pergunta que chega atrasada já havia sido respondida por Thich Nhat Hanh em Mais importante, trazida aqui algumas horas atrás -- se bem que ele já a havia respondido no século passado (1976), e Tolstói no século retrasado (o conto mencionado é de 1855), eles e tantos antes deles, como o Buda, há 2600 anos...
Temos de ser vigilantes, sempre, para não sermos vítimas. Pois há muitos querendo se aproveitar do nosso sofrimento, das nossas dúvidas, da nossa ansiedade e angústia, dos nossos vícios e das nossas fraquezas.
A atenção é o nosso vigia e a plena consciência nossa fortaleza.
00:20 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail
25.03.2008
Mais importante
Lembre-se de que só existe um tempo importante e este tempo é agora. O presente é o único tempo sobre o qual temos domínio. A pessoa mais importante é aquela que está à sua frente. E a coisa mais importante é fazer essa pessoa feliz.
Thich Nhat Hanh, Para viver em paz, Editora Vozes, Petrópolis, 2005 (edição original 1976)
(*) Notas do blog: A estas preciosas palavras deste mestre, que resume a mensagem do conto As Três Perguntas escrito por Leon Tolstói, só gostaria de acrescentar que isto não é poesia nem utopia -- é prática, e uma prática capaz de mudar o mundo num instante, se todos seguirem este conselho de fazer feliz a pessoa à sua frente, seja ela seu cônjuge ou o frentista do posto... Ou, no caso de você estar sozinho, de se fazer feliz, isto também é importante (o que me faz lembrar de uma postagem antiga, Um convidade importante)!
Outro trechos deste livro foram trazidos nas postagens Brando e firme, Lavando, O seu banho e Lavar a louça, beber o chá.
E se desejar ler o conto citado acima, como recontado por Thich Nhat Hanh, fico muito feliz de sugerir a leitura dele na página da União Budista do Porto (Portugal), esta preciosa casa de prática, em As Três Perguntas.
Obrigado!
09:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: agora, presente, felicidade, Thich Nhat Hanh, Para viver em paz, Três Perguntas, Leon Tolstói
31.01.2008
O eu não sabe
O Imperador Wu perguntou a Bodhidharma:
“Quem és tu?”
Ele respondeu:
“Eu não sei”.
(*) Nota do blog: o que me lembra uma outra postagem, das primeiras neste blog, a excelente parábola indiana O monge e a carruagem -- que não me canso de ler ou de recontar.
10:50 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: ego, eu, não-eu, budismo, Bodhidharma
28.11.2007
O presente fica com quem?
Um mestre budista estava meditando com seus discípulos.
Chegou um homem, fazendo gestos para atrapalhar o mestre e seus discípulos.
O mestre não se distraiu.
O homem, então, passou também a falar alto.
O mestre não lhe deu atenção.
O homem passou a insultar o mestre.
O mestre permaneceu impassível.
O homem passou a insultar a família do mestre, ao Buda, a todos.
O mestre permaneceu na calma.
Furioso, o homem chegou mais perto do mestre, na tentativa de agredi-lo com gestos. Chegou até a ameaçá-lo de morte.
O mestre não reagiu.
Finalmente, cuspindo no chão e exausto, o homem foi embora, ainda esbravejando.
Durante todo o tempo, os discípulos assitiram a cena, assustados e temerosos. Finalmente, quando o homem se afastara, exclamaram:
-- Mestre! Este homem interrompeu nossa meditação! Este homem insultou o senhor, insultou seus ancestres, insultou o Buda! Este homem o ameaçou, quase bateu no senhor, e cuspiu no chão a seu lado! E o senhor não fez nada!
O mestre sorriu e perguntou aos discípulos:
-- Quando alguém vem lhe trazer um presente, e você recusa receber o presente, com quem é que o presente fica?
(*) Nota do blog: volto a publicar este texto por gostar muito da lição contida nele. Mas penso também que há presentes que devemos aceitar, principalmente o presente, seja ele como for. Aceitação. Será que somos capazes? Será que sou?
Lembro-me agora das palavras de Chagdud Tulku Rinpoche: "A compreensão intelectual não traz realização. No início é difícil até mesmo reconhecer a sabedoria. Uma vez tendo removido algumas camadas de obscurecimentos, podemos saboreá-lo, mas ainda não somos capazes de estabilizar nosso conhecimento. Podemos acreditar que o corpo, a fala e a mente são vacuidade, mas quando alguém nos diz algo desagradável, o que aflora é a raiva, não a sabedoria."
Estou bem no início.
09:38 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Trackbacks (0) | Enviar por e-mail | Tags: Raiva, limite, meditação, cotidiano, budismo, zen, mestre
16.10.2007
Folhas caídas

Joo, professor de Rikyu, encarregou-o, certa vez, de varrer o jardim. Mas, na realidade, o jardim já havia sido tão bem varrido, que não se via sequer uma única folha caída no chão. Quando lhe foi confiada a tarefa de varrer um jardim já tão perfeitamente limpo, Rikyu saiu imediatamente e, dirigindo-se a uma árvore, tomou-a com ambas as mãos e a sacudiu levemente. Observou como quatro ou cinco folhas, ondulando devagar e suavemente, caíram no chão, e, assim, ele voltou a entrar na casa. Mestre Joo contemplou o jardim e elogiou Rikyu com as seguintes palavras: "Isso é o que se chama varrer bem!"
em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch, Editora Pensamento, São Paulo, 1997
Rikyu foi um dos Grandes Mestres do Caminho do Chá, no Japão do século XVI. Para quem desejar ler mais passagens do livro acima, por favor acesse Haikai, O quanto me falta (I), Anseios, Crisântemos e violetas gencianas, O exercício do coração.
Esta postagem é dedicada à minha querida mãe.
09:51 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Rikyu, Mestre Joo, varrer o jardim, folhas caídas, O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Horst Hammitzsch
14.08.2007
Amor a todas as criaturas

[...] tenho para mim que o amor é o que há de mais importante no mundo. Analisar o mundo, explicá-lo, menosprezá-lo, talvez caiba aos grandes pensadores. Mas a mim me interessa exclusivamente que eu seja capaz de amar o mundo, de não sentir desprezo por ele, de não odiar nem a ele nem a mim mesmo, de contemplar a ele, a mim, a todas a criaturas com amor, admiração e reverência.
Sidarta, Hermann Hesse, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968
(*) nota do blog: e embora não seja esta a última frase do livro, é esta a última frase que transcrevo.
Obrigado.
10:46 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Sidarta, Hermann Hesse, Amor
13.08.2007
Tudo deve ser como é
-- Presta atenção, meu querido, muita atenção! O pecador que eu sou, e que tu és, é pecador, mas um dia voltará a ser Brama. Em determinado momento alcançará o Nirvana e será o Buda. Mas, olha bem: esse “um dia” é apenas uma ilusão, um termo convencional. O pecador não se encontra a caminho do estado de Buda; não está em plena evolução, muito embora o nosso cérebro seja incapaz de imaginar as coisas de outro modo. Pelo contrario, no pecador já se acha contido, hoje, agora mesmo, o futuro Buda. Todo o seu porvir já está presente. Tu deves respeitar na pessoa desse pecador, na tua própria pessoa, na de qualquer homem, o Buda em botão, o Buda possível, o Buda oculto. O mundo, amigo Govinda, não é imperfeito e não se encaminha lentamente rumo à perfeição. Não! A cada instante é perfeito. Todo e qualquer pecado já traz em si a graça. Em todas as criancinhas já existe o ancião. Nos lactentes já se esconde a morte, como em todos os moribundos há vida eterna. A homem algum é dado perceber até que ponto o seu próximo já avançou na senda que lhe coube. No salteador e no jogador, o Buda espera a sua hora, e no brâmane, o salteador. Na meditação profunda oferece-se-nos a possibilidade de aniquilarmos o tempo, de contemplarmos, simultaneamente, toda a vida passada, presente e futura. Então tudo fica bem; tudo, perfeito; tudo, Brama. Por isso, o que existe me parece bom. A morte, para mim, é igual à vida; o pecado, igual à santidade; a inteligência igual à tolice. Tudo deve ser como é. Unicamente o meu consenso, a minha vontade, a minha compreensão carinhosa são necessários para que todas as coisas sejam boas, a ponto de me trazerem vantagens, sem nunca me prejudicarem. No meu corpo e na minha alma fiz a experiência de quanto carecia do pecado, da volúpia, da cobiça de bens materiais, da vaidade, de quanto precisava até do mais abjeto desespero, para que aprendesse a desistir da minha obstinação, a querer bem o mundo, a cessar de compará-lo a qualquer outro mundo imaginário, que correspondesse aos meus desejos, a algum tipo de perfeição brotado do meu cérebro e para que, deixando-o tal como é, me limitasse a amá-lo e a gostar de fazer parte dele...
Sidarta, Hermann Hesse, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968
10:05 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Sidarta, Hermann Hesse, Buda, perfeição
12.08.2007
Buscar e achar

-- É verdade que sou velho – admitiu Govinda – Mas nunca cessei de pesquisar. Parece que será meu destino jamais abandonar a busca. Tenho a impressão de que também tu procuraste a senda. Não me queres revelar algo a esse respeito, meu prezado amigo?
Ao que replicou Sidarta:
-- Que poderia eu dizer-te , ó reverendo? Só, talvez, que procuras demais, que de tanta busca não tens tempo para encontrar coisa alguma.
-- Por quê? – replicou Govinda.
-- Quando alguém procura muito – explicou Sidarta – pode facilmente acontecer que seus olhos se concentrem exclusivamente no objeto procurado e que ele fique incapaz de achar o que quer que seja, tornando-se inacessível a tudo e a qualquer coisa porque sempre só pensa naquele objeto, e porque tem uma meta, que o obceca inteiramente. Procurar significa: ter uma meta. Mas achar significar: estar livre, abrir-se a tudo, não ter meta alguma. Pode ser que tu, ó venerável, sejas realmente um buscador, já que, no afã de te aproximares da tua meta, não enxergas certas coisas que se encontram bem perto dos teus olhos.
Sidarta, Hermann Hesse, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968
10:05 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Sidarta, Hermann Hesse, busca espiritual, caminho espiritual, meta, aqui agora
07.08.2007
Por ter ouvido uma voz

Agora carecia sondar o seu íntimo. Na verdade percebera, havia muito, que seu eu e o Atman eram uma e a mesma coisa e tinham sua essência eterna em comum com o Brama. Mas nunca lograra achar esse eu, portanto se empenhara em enredá-lo nas malhas do pensamento. Posto que o corpo e o jogo dos sentidos certamente não fossem o eu, não convinha tampouco identificar com ele o pensamento, a inteligência, a sabedoria assimilada ou, finalmente, a técnica de tirar conclusões e de tecer, à base de raciocínios feitos, pensamentos novos. Não! também essa esfera do espírito pertencia ainda a este mundo. Quem matasse o eu casual dos sentidos e, em compensação, alimentasse o eu igualmente casual do pensar e da erudição não alcançaria nenhum objetivo. Uns e outros, os pensamentos tanto como os sentidos, eram coisas bonitas. O derradeiro significado jazia, porém, atrás de ambos. Era preciso ouvir os dois, brincar com eles, sem desprezá-los nem superestimá-los. Cumpria depreender de tudo quanto diziam a voz secreta do nosso íntimo. Sidarta estava decidido a aspirar somente àquilo que a voz mandasse perseguir. Não se ateria a coisa alguma a não ser àquela que a voz lhe recomendasse. Por que sentara Gotama (*) em determinado momento, na hora das horas, ao pé daquele baobá, onde lhe viesse a iluminação? Por ter ouvido uma voz, a ressoar dentro do seu próprio coração, e que lhe ordenava repousar na sombra dessa árvore. E ele, sem dar preferências às mortificações, aos sacrifícios, aos banhos, às orações, sem pensar em comer, beber, dormir, sonhar, obedecera à ordem. Tal obediência prestada, não a prescrições vindas de fora, senão unicamente à voz íntima, tal prontidão irrestrita, era boa, era necessária e o mais não tinha importância alguma.
Sidarta, Hermann Hesse, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968
(*) notas do blog: Gotama, ou Gautama, Buda Shakyamuni, o Buda histórico.
Foto: o rapaz nepalês Ram Bahadur Banjan, que durante alguns meses entre 2005 e 2006 sentou-se imóvel debaixo de uma árvore num bosque em Bara, a 160 quilômetros de Kathmandu. Foi designado o 'Buddha Boy', e seus seguidores afirmaram que ele se manteve 10 meses sem se mover, comer ou beber, em estado meditativo. Depois ele desapareceu por outros nove meses, e então foi visto novamente em outra floresta... A história é polêmica -- a foto é bonita.
11:40 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Sidarta, Hermann Hesse, Buda, Gotama, Gautama, meditação, iluminação
06.08.2007
A mesma língua
Sidarta parou. Quedou-se imóvel. Notando a que ponto iria sua solidão, sentiu, por um instante, pela duração de um respiro, que o coração se lhe gelava no peito, estremecendo de frio, como um bichinho, um pássaro, uma lebre. Durante muitos anos andara sem lar e, no entanto, não o percebera. Nesse momento, porém, dava-se conta da falta. Sempre, ainda que se distanciasse de tudo, nas mais longínquas meditações, prosseguira sendo o filho de seu pai, fora brâmane, aristocrata, intelectual. Daí por diante, seria apenas Sidarta, o homem que acabava de acordar e nada mais. Com toda a sua força, aspirou o ar. Por um momento, tremeu de frio e de horror. Ninguém estaria tão solitário quanto ele. Não havia nenhum nobre que não fizesse parte dos nobres; nenhuma artesão que não pertencesse à classe dos artesãos, encontrando agasalho entre seus semelhantes, vivendo a vida deles e falando a mesma língua; nenhum brâmane que não se incluísse no grupo de seus pares e convivesse com eles; nenhum asceta que não pudesse buscar abrigo com os samanas. Nem sequer o mais isolado de todos os ermitões da selva era um homem só, não levava uma existência solitária, porquanto também ele pertencia a uma classe que lhe propiciava um lar. Govinda tornara-se monge e milhares de monges eram seus irmãos, vestiam os mesmos trajes, tinham a mesma fé, falavam a mesma língua. E ele, Sidarta? Qual seria o seu lugar? Participaria ele da existência de outrem? Haveria pessoas que falassem a mesma língua que ele?
Sidarta, Hermann Hesse, Editora Civilização Brasileira, Rio de Janeiro, 1968
(*) nota do blog: há 20 anos atrás, comecei a escrever um livro, quando um amigo meu, ao ler o que eu havia escrito, disse-me: 'Mas este livro já existe!'. De fato, tinha me apropriado da idéia do livro O Lobo da Estepe, de Herman Hesse, sem conhecê-lo. Foi a primeira vez em que ouvi falar deste autor, que ganhou o Prêmio Nobel em 1946, e foi quando passei a ler a sua obra.
Estou lendo o belo livro transcrito acima, e nos próximos dias me dedicarei a compartilhar alguns trechos.
12:00 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Sidarta, Hermann Hesse, solidão, isolamento, incompreensão
05.08.2007
Comentários ao Samiddhi Sutra (II)
Completando os comentários ao Samiddhi Sutra, que se encontram no livro Ensinamentos sobre o Amor, de Thich Nhat Hanh (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2005):
Sou uma ilha para mim.
Como uma ilha para mim mesmo.
O Buda é minha atenção plena.
Brilhando aqui, brilhando longe.
O dharma é o ar que respiro,
protegendo corpo e mente,
sou livre.
Sou uma ilha para mim.
Como uma ilha para mim mesmo.
O sangha é feito de meus skandhas,
trabalhando em harmonia.
Buscando refúgio em mim mesmo.
Regressando a mim mesmo.
Sou livre.
Embora essa prática possa ser usada em qualquer lugar e a qualquer hora, ela é especialmente útil quando estamos ansiosos e não sabemos o que fazer. Ao praticá-la, somos transportados até o lugar mais tranqüilo e mais estável que pode existir. A ilha do eu interior é a atenção plena, nossa natureza desperta, a base da estabilidade e da calma que habita em nós e que irradia luz no nosso caminho. Quando nossos cinco skandhas (*) estão em harmonia, agimos naturalmente de um modo que nos proporciona paz. A respiração consciente produz essa tranqüilidade. Pode alguma outra coisa ser mais importante?
O quarto tema relevante no sutra diz respeito à armadilha dos complexos – pensar que somos melhores, piores ou iguais aos outros. Todos esses complexos se manifestam porque pensamos que somos um eu separado. E felicidade erguida sobre essa noção é fraca e pouco confiável. Por meio da prática da meditação chegamos a reconhecer a “interconexão” com todos os outros seres, e, como resultado, desaparecem os medos, a ansiedade, a raiva e a tristeza. Se praticamos a felicidade verdadeira, confiando no dharma e reconhecendo a natureza interligada e interdependente de todas as coisas, a cada dia nos tornaremos mais livres e firmes nesse propósito. Aos poucos, estaremos em um paraíso onde o amor profundo descrito pelo Buda tudo permeia. Seus ensinamentos sobre o amor são autênticos e completos. Esse tipo de amor sempre conduz à verdadeira felicidade.
A felicidade não é um acontecimento individual – sua natureza é a interconexão. Quando somos capazes de fazer um amigo sorrir, a felicidade dele vai nos nutrir também. Sempre que descobrimos os caminhos que levam à paz, alegria e felicidade, fazemos isso por todas as pessoas.
(*) nota do blog: Favor consultar o pequeno Glossário de Termos Budistas deste blog, sempre disponível em Categorias, na coluna à esquerda da sua tela, ou acessando:
http://paraserzen.blogspirit.com/gloss%C3%A1rio_de_termos...
11:35 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Samiddhi Sutra, Thich Nhat Hanh, Ensinamentos sobre o Amor, felicidade, amor, skandhas, paz
04.08.2007
Comentários ao Samiddhi Sutra (I)
Estes comentários ao Samiddhi Sutra, publicado no post de ontem, encontram-se no livro Ensinamentos sobre o Amor, de Thich Nhat Hanh (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2005):
No Samiddhi Sutra, quatro temas importantes são discutidos: a idéia de felicidade, a existência da verdadeira alegria, a prática da confiança e a armadilha dos complexos.
As noções que temos de felicidade nos armam ciladas. Esquecemos que elas são apenas idéias. Nosso conceito de felicidade pode nos impedir de ser realmente felizes. Quando nos apegamos ao ponto de vista de que a felicidade deve assumir determinada forma, deixamos de ver a alegria que está bem na nossa frente.
O segundo tema discutido nesse sutra é a existência da alegria verdadeira. A deusa (*) perguntou ao monge Samiddhi por que ele preferia abandonar a felicidade no momento presente por uma vaga promessa de felicidade no futuro, e Samiddhi respondeu: “A verdade é o oposto. O que abandonei foi a idéia de felicidade no futuro, assim como vivo profundamente o momento presente”. O monge explicou como os desejos nocivos, em última análise, terminam provocando ansiedade e tristeza, enquanto uma vida de alegrias sadias traz a felicidade logo no momento presente. O sutra usa o termo akalika (“livre do tempo”).
O terceiro tema importante abordado no Samiddhi Sutra é a prática da confiança, ou apoio. Confiar no dharma não é somente uma idéia. Vivendo de acordo com o dharma, o caminho de amor e compreensão do Buda, entendemos o que é alegria, tranqüilidade, estabilidade e liberdade. A confiança no dharma também pode chamar-se “buscar refúgio na ilha do eu”, a ilha de paz que existe em cada um de nós. Temos que aprender como retornar a essa ilha quando necessário. Quando o Buda estava quase para morrer, disse para a assembléia de monges e monjas: “Meus queridos amigos, busquem refúgio na ilha do eu interior. Não busquem refúgio em nada mais. Ao regressarem para essa ilha, lá encontrarão o Buda, o dharma e o sangha”.
(*) nota do blog: nos textos que usei como base para minha versão do Samiddhi Sutra, a deusa aqui mencionada aparece em forma masculina de um deva.
09:55 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Samiddhi Sutra, Thich Nhat Hanh, Ensinamentos sobre o Amor, felicidade, amor, confiança
03.08.2007
O monge e o deva

Tento recontar aqui o trecho inicial de um dos textos do Budismo no qual busco apoio sempre que confrontado com as seduções mundanas, o Samiddhi Sutra (ou Sutta):
Quando a noite estava para acabar, o monge Samiddhi levantou e foi banhar-se no rio. Quando terminou seu banho, quedou-se às margens do rio, vestido apenas com o manto inferior, para secar-se.
E ainda não havia raiado o dia quando um deva aproximou-se dele, iluminando toda a margem com sua sedutora e radiante beleza. Flutuando acima da grama, o deva dirigiu-se a Samiddhi com voz melodiosa:
-- Sem ter aproveitado os prazeres que a vida oferece, você se tornou um monge mendicante. E agora que se tornou monge, não pode mais desfrutar de tais prazeres. Por que você não aproveita os prazeres agora e se torna monge depois? Jovem, não desperdice este tempo de juventude.
Samiddhi respondeu:
-- Eu não conheço este seu tempo. Seu tempo não é o meu tempo. Para mim este é o tempo certo de eu ser monge, embora assim não lhe pareça, e por isso eu não desfruto dos prazeres de que falas. Não estou desperdiçando o meu tempo.
Como Samiddhi não se afastasse dele nem o repelisse, o belo deva aproximou-se mais e, finalmente pousando sobre o solo, postou-se com firmeza ao lado do monge.
-- Jovem monge, você é muito novo para ter deixado a casa de sua família e viver assim sozinho, levando uma vida de privações. Vejo que seu cabelo é preto e brilhante. Sua pele é fresca e radiante. Seu corpo é rijo e vigoroso. Venerável monge, sua natureza é humana, e humano é aproveitar os prazeres sensuais. Não abra mão da felicidade que lhe é oferecida aqui e agora em troca de uma felicidade que virá somente e talvez com o tempo.
Samiddhi respondeu:
-- Meu amigo, eu não estou abrindo mão do que me é oferecido aqui e agora em troca do que só poderá ser realizado com o tempo. Eu estou abrindo mão do que está sujeito ao tempo para me dedicar a viver profundamente o aqui e o agora, sem esperar por algo que só o tempo poderá me trazer. Sou feliz aqui e agora. O Abençoado disse que os prazeres sensuais são temporários, e trazem em si stress, ansiedade e desespero, e enorme inconstância, enquanto que o Dharma é visível no aqui e no agora, não sujeito ao tempo, e é a felicidade duradoura que pode ser experimentada por todos.
-- Mas monge, em que sentido O Abençoado disse que os prazeres sensuais são temporários, e trazem em si stress, ansiedade e desespero, e enorme inconstância, enquanto que o Dharma é visível no aqui e no agora, não sujeito ao tempo, e é a felicidade duradoura que pode ser experimentada por todos?
-- Querido deva, eu pratico os ensinamentos do Buddha de viver profundamente o momento presente, e sou feliz. Correr atrás dos cinco prazeres mundanos – fama, riqueza, sexo, sono e comida – não traz a felicidade duradoura, pois nenhum desses prazeres é duradouro. Eu pratico a plena consciência em meu cotidiano, vivendo profundamente cada momento, não sujeito ao tempo, sem prender-me ao que o passado me trouxe nem ao que o futuro me trará. E vivendo solidamente o presente eu experimento paz, liberdade e alegria. A felicidade do Dharma é aqui e agora.
(*) nota do blog: Repito, o texto acima é uma versão minha, a partir das que pesquisei. Espero não estar cometendo nenhuma injustiça para com o texto, muito menos com sua preciosa mensagem. Para ler o texto integral do Samiddhi Sutra, na versão em Inglês, por favor acesse:
http://www.accesstoinsight.org/tipitaka/sn/sn01/sn01.020....
http://www.abuddhistlibrary.com/Buddhism/G%20-%20TNH/TNH/Chanting%20Book/Sunday%20Morning%20Contains%20Turning%20to%20the%20%20Tathagata/SUNDAY%20MORNING.htm
(fotomontagem ©paraserzen sobre foto de monge banhando-se por ©kevin o'sheehan)
10:30 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Samiddhi Sutra, monge, deva, prazeres sensuais, juventude, prática espiritual, Buda
08.06.2007
O menino, o pássaro e o sábio
Certa feita, um menino quis desafiar um sábio que passava pela sua aldeia. Com um passarinho preso nas suas mãos, aproximou-se dele e perguntou:
— Tenho um pássaro entre as mãos. O senhor sabe se ele está vivo ou se está morto?
Obviamente a pergunta era maldosa, pois se o sábio respondesse que o pássaro estava vivo, o menino pretendia esmagá-lo; se respondesse que morto, abriria suas mãos e o deixaria voar. Contudo, a esperteza do menino sequer desconfiou da extensão dos horizontes da sabedoria, ficando perplexo ante a resposta do venerável homem.
— Isso depende apenas de você, meu filho.
Na vida nem sempre é possível escolher as situações pelas quais passamos. Ocontingente é uma constante, e uma constante inevitável. Entretanto, sempre é possível escolher o modo, o como viveremos essas situações, é aí que reside a nossa liberdade, a única que podemos verdadeiramente exercer.
Fazer a paz ou fazer a guerra no nosso dia-a-dia, dentro de nosso lar, com o nosso vizinho, com o colega de trabalho ou estudos, com o nosso próximo na rua, no ônibus ou numa reunião de amigos, depende da nossa escolha. É como se a própria sabedoria encarnada na vida estivesse nos dizendo a todo instante:
— Isso depende apenas de você, meu filho.
História contada pelo Swami Tilak em sua visita ao Brasil, em 1983, e publicada na Revista Thot, nº 53, 1990, editada pela Palas Athena.
Este e outros muitos textos podem ser encontrados no site do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz:
http://www.comitepaz.org.br/
10:30 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: Paz, cultura de paz, Swami Tilak, Revista Thot, Editora Palas Athena, Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz
31.05.2007
Fui o único
Quatro amigos estavam estudando meditação. Para iluminar suas mentes, resolveram fazer voto de silêncio e ficar sete dias sem falar. No primeiro dia, meditaram sem falar uma palavra. Mas, quando caiu a noite e a luz das lâmpadas a óleo do salão de meditação foi se enfraquecendo, um dos amigos sussurrou para um criado:
-- Cuide das lâmpadas.
Um outro, chocado ao ouvir o amigo, disse:
-- Você não deveria falar!
O terceiro se irritou:
-- Seus idiotas! – ele disse – Por que estão falando?
-- Fui o único que não falou – disse o quarto amigo, sorrindo orgulhoso.
Este conto faz parte do livro de coletânea Contos Budistas, recontados por Sherab Chödzin e Alexandra Kohn, linda e ricamente ilustrados por Marie Cameron, editado no Brasil pela Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, São Paulo, 2003
10:30 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Desatenção, arrogância, raiva, orgulho, silêncio, meditação, Contos Budistas
27.04.2007
Aonde você vai?

Os mestres Zen estimulam seus discípulos a superar uns aos outros em debates que desafiam a inteligência. Um discípulo faz perguntas até conseguir que o outro responda alguma tolice. Cada um tem muito cuidado ao responder até às perguntas mais simples, pois ninguém quer cair na armadilha de suas próprias palavras.
Havia dois templos Zen que ficavam muito próximos um do outro. Todas as manhãs, cada um deles enviava um discípulo à feira para comprar legumes. E os dois meninos sempre se encontravam no caminho.
-- Aonde você vai? – certo dia um deles perguntou ao outro.
-- Vou aonde meus pés estão me levando – respondeu o segundo.
Essa resposta deixou o primeiro menino perplexo. Não conseguia pensar em outra pergunta que pudesse confundir o segundo menino. Ao voltar da feira, ele contou ao mestre o que havia acontecido.
-- Amanhã – disse o mestre --, faça-lhe a mesma pergunta. Ele dará a mesma resposta, então você poderá confundi-lo dizendo: “Supondo que você não tivesse pés, aonde iria?”
Na manhã seguinte, o primeiro menino perguntou:
-- Aonde você vai?
O segundo respondeu:
-- Aonde o vento está soprando.
O primeiro menino atrapalhou-se de novo. Não soube o que dizer. Chegando em sua casa, falou com o mestre sobre essa segunda derrota.
-- Amanhã, pergunte a ele aonde estaria indo se não houvesse vento – disse o mestre.
No dia seguinte, os meninos se encontraram mais uma vez.
-- Aonde você vai? – perguntou o primeiro.
-- Vou à feira comprar legumes – respondeu o segundo.
Este conto faz parte do lindo livro de coletânea Contos Budistas, recontados por Sherab Chödzin e Alexandra Kohn, belamente ilustrados por Marie Cameron, editado no Brasil pela Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, São Paulo, 2003
12:10 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Zen, mestre, discípulo, Contos budistas, Sherab Chödzin
14.04.2007
A canoa

No Sutra da Serpente, Buda nos diz também que o darma é um barco que podemos usar para atravessar o rio a fim de alcançar a outra margem. Seria porém uma asneira continuar a carregar o barco nos ombros depois de ter atravessado o rio. “O barco não é a margem”. Estas são as palavras de Buda: “Bhikkus, já lhes falei muitas vezes sobre a importância de saber quando é tempo de largar o barco e não apegar-se a ele desnecessariamente. Quando o riacho de uma montanha transborda e se transforma em enchente carregando escombros, um homem ou uma mulher que queira atravessá-lo poderia pensar: Qual a maneira mais segura de atravessar esta enchente? Avaliando a situação, a pessoa pode decidir recolher galhos e capim, improvisar uma canoa e usá-la para atravessar para o outro lado. Mas, depois de ter lá chegado, ela pensa: Gastei um bocado de tempo e energia construindo este barco. É um bem precioso, vou carregá-lo comigo enquanto sigo em frente. Uma vez em terra firme, se a pessoa põe a canoa sobre os ombros ou a cabeça, e prossegue carregando-a, vocês acham, Bhikkus, que seria inteligente?
Os Bhikkus responderam: “Não, honrado Senhor.”
Buda disse: “Como teria ela agido mais sabiamente? Ela poderia ter pensado: Esta canoa me ajudou a cruzar as águas a salvo. Agora a deixarei na margem para que alguém possa usá-la. Não seria essa uma coisa mais inteligente a ser feita?”
Os Bhikkus responderam: “Sim, honrado Senhor.”
Buda pensou: “Tenho dado este ensinamento sobre o barco muitas vezes, para lembrar como é necessário soltar todos os ensinamentos verdadeiros, sem falar dos que não são verdadeiros.”
Thich Nhat Hahn, Cultivando a Mente de Amor, tradução de Odete Lara, Editora Palas Athena, São Paulo, 2000
http://www.palasathena.org/editora/index.html
11:05 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Buda, ensinamentos, desapego, conceitos, canoa, rio, outra margem
03.04.2007
A coisa mais importante
Certa vez, um famoso poeta chinês quis estudar a sabedoria do Buda. Viajou uma longa distância para encontrar um famoso mestre e lhe perguntou:
-- Qual é a coisa mais importante dos ensinamentos do Buda?
-- Não prejudique ninguém e só faça o bem – respondeu o mestre.
-- Que bobagem! – exclamou o poeta. – O senhor é considerado um grande mestre, por isso viajei milhas e milhas para encontrá-lo. E é essa a resposta que me dá? Até uma criança de três anos seria capaz de dizer isso!
-- Pode ser que uma criança de três anos seja capaz de dizer isso, mas o difícil é colocar em prática, mesmo para um homem muito velho, como eu – disse o mestre.
Este conto faz parte do lindo livro de coletânea Contos Budistas, recontados por Sherab Chödzin e Alexandra Kohn, ilustrados por Marie Cameron, editado no Brasil pela Editora Martins Fontes, tradução de Monica Stahel, São Paulo, 2003
09:20 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: prática, Contos budistas, Sherab Chödzin
17.03.2007
Pobre e carente
Chögyam Trungpa, no livro Meditação na Ação (Editora Cultrix, São Paulo, 1995), nos conta:
Há uma história do tempo de Buda que fala sobre uma mendiga, das mais pobres da Índia, já que era pobre em espécie e também em espírito. Ela desejava tanta coisa que isso a fazia sentir-se mais pobre ainda. Certo dia, ela ouviu dizer que Buda havia sido convidado para a casa de Anathapindika, no Bosque de Jeta. Anathapindika era um rico chefe de família e um grande benemérito. Ela decidiu, então, seguir Buda, porque sabia que ele lhe daria comida, o que quer que sobrasse. Ela compareceu à cerimônia de oferecimento de comida ao Sangha, a Buda e, então, sentou-se na expectativa de que Buda a visse. Ele se voltou e perguntou-lhe: “O que você quer?” Ele sabia a resposta, naturalmente, porém ela devia admiti-lo de fato e dizê-lo. E ela disse: “Quero comida. Quero que você me dê o que sobrou.” Então Buda disse: “Nesse caso, você tem primeiro de dizer Não. Você tem de recusar quando eu a oferecer a você.” Ele estendeu a comida para ela, mas ela achou muito difícil dizer Não. Percebeu que, em toda a sua vida, nunca havia dito Não. Todas as vezes que alguém tinha algo ou lhe oferecia alguma coisa, ela sempre havia dito, “Sim, eu quero”, de forma que achou muito difícil dizer Não, pois não estava familiarizada com essa palavra. Depois de grande dificuldade, ela finalmente disse Não e só aí Buda lhe deu a comida. Com isso, ela percebeu que a verdadeira fome em seu interior era o seu desejo de ter, de agarrar, de possuir e de querer.
10:20 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Chögyam Trungpa, Meditação na Ação, Buda, mendiga, generosidade, pobreza, Bosque de Jeta
12.03.2007
Avalokiteshvara

Sogyal Rinpoche, em seu maravilhoso O Livro Tibetano do Viver e do Morrer (Editora Palas Athena, São Paulo, 1999) nos conta:
Conta-se que, há inumeráveis eras, mil príncipes juraram tornar-se budas. Um deles quis tornar-se o buda que conhecemos como Sidarta Gautama. Avalokiteshvara, no entanto, prometeu não obter a iluminação até que todos os outros mil príncipes a tivessem conseguido. Na sua infinita compaixão, ele também fez o voto de liberar todos os seres sencientes do sofrimento dos vários reinos do samsara (*). Diante dos budas das dez direções, ele rezou: “Possa eu ajudar todos os seres, e se alguma vez cansar nesse trabalho imenso, possa o meu corpo ser despedaçado em mil partes”. Conta-se que primeiro ele desceu aos infernos, subindo gradualmente através do mundo dos fantasmas famintos até o reino dos deuses. De lá olhou para baixo e viu horrorizado que, embora tivesse salvo inúmeros seres do inferno, incontáveis outros estavam caindo lá. Isso o deixou na mais profunda dor. Por um instante ele quase perdeu a fé no seu nobre voto, e seu corpo explodiu em mil pedaços. Em desespero, pediu ajuda a todos os budas, que vieram em sua direção de todos os recantos do universo como uma suave tempestade de neve com seus flocos brancos, segundo diz um texto. Com seu grande poder, os budas deixaram-no inteiro de novo, e a partir de então Avalokiteshvara tem onze cabeças e mil braços, e em cada palma das mil mãos tem um olho, significando a união da sabedoria e dos meios hábeis – marca da verdadeira compaixão. Nessa forma ele ficou ainda mais resplandecente e poderoso do que antes para ajudar todos os seres, e sua compaixão aumentou de intensidade com a contínua repetição de seu voto diante dos budas: "Possa eu não obter o estado búdico supremo antes que todos os seres sencientes alcancem a iluminação”.
Nota do blog: o Mantra da Compaixão é OM MANI PADME HUM. "Ele encarna a compaixão e a bênção de todos os budas e bodhisatvas, e invoca especialmente a benção de Avalokiteshvara, o Buda da Compaixão", diz Sogyal Rinpoche.
(*) por favor consulte o Glossário de Termos Budistas neste blog, em Categorias, coluna à esquerda na sua tela.
http://www.palasathena.org/editora/index.html
08:36 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: OM MANI PADME HUM, Avalokiteshavara, Buda da Compaixão, mantra, compaixão, Sogyal Rinpoche, O Livro Tibetano do Viver e do Morrer
27.02.2007
Palestra silenciosa

O método zen de ensino consiste em manifestar a realidade e não em falar dela e deve sempre tomar-se a sério embora nunca seja solene. Para apreciar a sua autêntica capacidade de ensinar temos de ultrapassar a nossa tendência a exprimir tudo com palavras. As palavras são imprescindíveis; o problema é que confiamos tanto nelas que as utilizamos como substitutos da realidade, conformando-nos com um mundo de conhecimento indireto – conhecimento acerca de – em vez do impacto intenso e imediato do que realmente existe antes de surgirem os pensamentos e as palavras. Utilizando as palavras adequadas a cada situação podemos viver nossas vidas sem jamais experimentar nada diretamente. Os métodos fundamentais do zen estão dirigidos a ajudar o discípulo para que este veja que a maneira convencional de conceitualizar o mundo é útil apenas em certos casos, mas carece de solidez; quando se decompõe o mundo dos conceitos, o discípulo consegue experimentar a realidade sem mediações, descobrindo a inexpressável maravilha que é a própria existência.
Pensa-se que o iniciador do ensino zen foi o próprio Buda quando fazia discursos diários aos seus seguidores no Parque do Pico dos Abutres. Numa manhã, ao chegar, encontrou mil e duzentas pessoas que o esperavam, sentadas, para o ouvir falar. Sentou-se diante delas em silêncio e assim permaneceu por muito tempo. Finalmente, sempre em silêncio, mostrou-lhes uma flor. Ninguém compreendeu este gesto exceto uma pessoa que sorriu, percebendo que o que ele queria dizer é que não havia palavras que pudessem substituir a flor viva. O Buda disse então: “Este é o verdadeiro caminho, e eu transmito-o a vocês.”
Deste modo indicou que a experiência direta da existência – a experiência do “aqui e agora” – consiste numa profunda penetração mística.
Zen, o Budismo nas Terras do Japão, Anne Bancroft, Edições del Prado, Lisboa, 1997
09:06 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: zen, Buda, budismo, sermão da flor, Pico dos Abutres, experiência direta, silêncio
18.02.2007
Senhora Nguyen!
Quando praticamos sentar(*) e andar(*) precisamos estar atentos à sua qualidade e não à sua quantidade. Temos que praticar com inteligência. Temos que criar o tipo de prática que se ajuste às nossas circunstâncias.
Eu gostaria de contar a vocês a estória de uma mulher que praticava a invocação do nome de Buda Amitabha. Ela era muito dura e praticava a meditação três vezes ao dia, usando um tambor de madeira enquanto recitava Namo Amitabha Buda por uma hora seguida. Quando ela chegava à milésima recitação convidava o sino a soar – no Vietnã não dizemos bater ou tocar sino.
Embora ela viesse fazendo isso ao longo de 10 anos, sua personalidade não mudou. Continuava bastante mesquinha e gritando com as pessoas o tempo todo. Um amigo quis dar-lhe uma lição. Quando ela acabou de acender o incenso, convidou o sino a soar três vezes e se preparava para recitar Namo Amitabha Buda, ele se achegou até sua porta e chamou:
-- Senhora Nguyen, Senhora Nguyen!
Sendo essa sua hora de praticar, ficou bastante indignada, mas ele continuou do outro lado da porta chamando pelo seu nome. Ela pensou consigo mesmo: Tenho que lutar contra minha raiva; vou, portanto, ignorá-la. E continuou: Namo Amitabha Buda, Namo Amitabha Buda.
O cavalheiro insistia em gritar o seu nome e a raiva dela começou a ficar mais e mais opressiva. Ela lutava contra isso ao mesmo tempo em que pensava: Devo parar de recitar e conceder-lhe parte da minha mente? Mas continuou recitando, lutando muito consigo mesma. Seu sangue começou a ferver, mas mesmo assim continuava: -- Namo Amitabha Buda. O cavalheiro sabia disso e continuou chamando:
-- Senhora Nguyen, Senhora Nguyen!
Ela não agüentou mais. Atirou para longe o tambor e o sino. Abriu a porta com força e disse:
-- Por que está fazendo isso? Por que está chamando meu nome centenas de vezes, assim?
O cavalheiro sorriu e disse-lhe:
-- Eu chamei seu nome apenas por 10 minutos e a Senhora ficou tão furiosa. A Senhora tem chamado o nome de Buda durante 10 anos. Pense como ele deve estar furioso agora!
O problema não é fazer muito, mas fazer corretamente. Se você faz a coisa corretamente, torna-se melhor, mais bondoso, compreensivo e amável. Ao praticar sentar e andar devemos prestar atenção na qualidade e não na quantidade. Se praticamos apenas pela quantidade não estaremos sendo diferentes da Senhora Nguyen. Acho que ela aprendeu a lição. E acho que depois disso ela melhorou.
Thich Nhat Hanh, Caminhos para a Paz Interior, prefácio e tradução de Odete Lara, Editora Vozes, Petrópolis, 3ª edição, 1989
(*) termo simplificado, comumente usado por meditadores. Significa, respectivamente, meditar sentado e meditar caminhando.

10:15 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Thich Nhat Hahn, Caminhos para a paz interior, Buda Amitabha, invocação, meditação, raiva
20.01.2007
Um homem integral
Li na revista Você SA. algo que me impressionou: passou a moda do livro A Arte da Guerra de Sun Tzu entre os executivos globalizados e agora a moda é ler o Bhagavad Gita. Este é um poema metafísico em que Krishna dirige-se a seu discípulo o príncipe Arjuna, aconselhando-o antes do início de uma guerra para reaver seu trono e reino usurpados por parentes, e lhe mostra a vereda do reto agir que vem através do auto-conhecimento e desemboca na auto-redenção e na auto-realização... Parece-me incrível que o mundo corporativo esteja lançando mão deste texto de muitos milhares de anos -- mas isso é também maravilhoso! Que o faça sem deturpá-lo... E que a moda chegue igualmente por aqui, às corporações em solo brasílico, de ler esse texto que era tido como essencial por Gandhi, Tagore, Schopenhauer, Thoreau, Goethe e outros homens do mesmo valor. E que através das corporações ele chegue aos corações e às ações!
Fala Krishna:
1- Quem faz o que deve fazer, e não depende dos frutos da sua ação, esse é um sábio e um santo – mas não é sábio nem santo quem apenas acende a chama do sacrifício ritual e se recusa a trabalhar pela grande obra.
2- Pelo que, ó príncipe, compreende o que quer dizer renúncia: é realizar no verdadeiro espírito o que deve ser realizado. Quem não realiza com supremo devotamento os seus atos, esse não renunciou.
3- Renúncia é obra feita com total desinteresse; por ela atinge o devoto santidade, e santidade é paz, que só se alcança pela desistência de qualquer desejo pessoal.
4- O sábio age sabiamente; nenhum desejo de lucro pessoal, nenhuma intenção de cuidar de si mesmo o move na sua sapiente atividade. Ele é inteiramente livre do querer do ego finito.
5- Todo homem deve erguer-se pela força do se próprio Eu divino, e não decair jamais das alturas desse estado. O Eu divino é o melhor amigo do homem, mas o ego humano é seu pior inimigo.
6- Quem domina o pequeno ego pelo grande Eu, esse é amigo de si mesmo; mas, se o ego não odiar a sua própria egoidade, então se torna inimigo do Eu (da alma) do homem. (*)
7- O espírito do homem que repousa plenamente em si mesmo e adquiriu perfeita serenidade, é imune do contágio das coisas externas, indiferente a calor e frio, prazer e sofrimento, louvores e vitupérios.
8- Esse é um yogui, um homem integral, com o coração cheio de sabedoria e beatitude; iluminado, se alteia às regiões do espírito, senhor dos seus sentidos; dá o mesmo valor a todas as coisas: a uma pedra ou um torrão de barro – a um pedaço de ouro.
9- O que o caracteriza é a sua atitude de serena benevolência para com todos os que dele se aproximam, amigos ou inimigos, conhecidos ou estranhos, bons ou maus, afetos ou desafetos – todos lhe merecem amor.
10- Imerso em Deus, em longínqua solitude, permanece o yogui liberto da escravidão de sentimentos, pensamentos e desejos.
[...]
(*) um trecho do comentário do filósofo Huberto Rohden – Cf. as palavras de Cristo: “Quem quiser ganhar a sua vida (ego), perdê-la-á; mas, quem perder a sua vida por minha causa (Eu), esse a ganhará”. A filosofia oriental sintetizou esta sabedoria na fórmula: “O ego é o pior inimigo do Eu – mas o Eu é o melhor amigo do ego”. Inimigo só pode ser quem é ignorante, como o ego; amigo é o que é sapiente, como o Eu.
trechos do Bhagavad Gita na tradução de Huberto Rohden, Editora Alvorada, 10ª edição, São Paulo, 1989
08:55 Escrito em Clássicos/Classics | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Bhagavad Gita, Krishna, Arjuna, Huberto Rohden, mundo corporativo
