26.04.2009

Janelaespelho

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ao invés desta tela
olho pela janela

vejo o espelho
do meu olhar sobre o mundo
que a cada segundo nasce
(e o eu com ele)


Nota do blog: acima, pecadillo meu sobre a foto de David Johnson, Magritte's window (1980), 102 x 153cm; para ver o original por favor acesse http://david-johnson.co.uk/item22.html

Esta postagem espelha outras mais antigas, como os ensinamentos de Chagdud Tulku Rinpoche em Mente espelho, de Jean-Yves Leloup citando São João Cassiano em Vigilância: o espelho limpo, e de Chögyam Trungpa em O espelho cósmico.

Costumo publicar fios de postagens como rios de consequência, intuindo que o que antes era aprendizado torna-se vivência, ao decantar e tocar profundo, ou talvez ao libertar-se e voar bem alto... Desfrute dos fios deste blog que é um caminho há muito caminhado, feito passo após passo após passo -- o caminho e a poeira do caminho, adiante e detrás, neste instante, o caminhante e a sombra do caminhante (para onde ela vai, quando o caminho está nublado?), o caminhar e os passos, nada existe por si só -- vão intersendo.

25.04.2009

Livro Três

O seu atordoamento pode me atordoar. Ele me atordoa, e se torna nosso. O meu atordoamento pode te atordoar. Então eu procuro me pacificar -- para que a paz se torne nossa. Não quero espalhar confusão, ansiedade, medo -- já o há bastante, parece que é o que mais as pessoas têm para dar.
Como nos ensina Thich Nhat Hanh, "você cultiva a sua flor para que eu possa ser belo; eu transformo o meu adubo para que você não tenha de sofrer". Mas a maioria das pessoas não vive assim, e espalha por aí o próprio sofrimento, que não sabe transformar.


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Uma amiga me aconselha a abrir um livro de que gosto muito em qualquer página, e ler ali a mensagem que há para mim.
Escolho Velho Caminho, Nuvens Brancas - Seguindo as Pegadas do Buda.
Abro nas páginas 294 -- que está vazia -- e 295, onde só está escrito LIVRO TRÊS.
Há uma parte que se encerra em silêncio, outra parte que em silêncio se inicia.
É o que há para mim.

É também o que me diz a citação de Milarepa que encontro no querido blog samsara:

O mundo ao redor é o melhor de todos os livros;
Não preciso ler um livro em preto e branco.




foto ©Abelardo Morell

11.04.2009

Sem título, patins

Obrigado pelas mensagens no blog, obrigado pelos e-mails, pelos telefonemas e visitas, pelas conversas.
Obrigado pelo amor, pela amizade, pelo apoio.


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terremoto --
ponho patins
para dançar

09.04.2009

De tomates e terremotos

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Terremoto no solo do paraserzen, e eu preciso compartilhar.

Recebi ontem pelo correio um envelope de um amigo de Plum Village, o Paul -- já o havia mencionado em O começo, a continuação. Ele é um rapaz francês de 19 anos de idade que fez os 3 meses do Retiro de Inverno comigo. Sábio, doce, divertido, sensível, inteligentíssimo -- e muito mais, muito mais amplo e profundo do que tudo isso. Ficamos doentes juntos, nos amparamos mutuamente, e nos curamos juntos. Compartilhamos muitas conversas íntimas, muitos insights, risadas e lágrimas. Uma grande amizade, sincera, profunda, calma -- irmandade cultivada em meditação, em silêncio, em paz, com alegria. Buscamos juntos nossa aspiração monástica, cada qual dentro de si -- e terminamos por escrever juntos a carta de aspiração dele, que foi então aceito como aspirante e ordenado como monástico há poucos dias. E eu... eu voltei para o Brasil, um pouco desiludido, decepcionado comigo mesmo.

O Paul, que agora tornou-se o Pháp Thê, enviou-me dentro do envelope um saquinho com sementes de tomate Saint-Pierre de agricultura orgânica, e a seguinte frase: time won't wait for you! you can dream your life, but you'd better live your dreams... (o tempo não espera por você! você pode sonhar a sua vida, mas é melhor você viver seus sonhos) E ele nem assinou. Foi como receber uma carta de mim mesmo, vinda do fundo do meu coração -- um coração de tomate... Tenho dito que quero deixar esta metrópole e encontrar um lugar onde eu possa plantar tomates... Talvez eu já dissesse isso lá em Plum Village durante o inverno -- eu não me lembro, o meu amigo se lembra, ou adivinha? --, mas o saquinho com sementes veio do fundo da minha alma, mais do que do Paul/Pháp Thê, ou lá de Plum Village (onde deixei o meu coração?)... E me dou conta de que ainda não tenho a terra onde plantar, mas meu amigo/irmão me ajuda enviando-me muito concretamente as sementes... Ou talvez eu já tenha a terra, lá mesmo em Plum Village? Gostaria de vencer o marasmo, a acomodação, o medo de mudar, e encontrar a missão, a motivação, o sentido... Por ora, deixo as sementes de tomate dentro do saquinho, transformo-as no meu koan, e hoje as rego com lágrimas bem verdadeiras, lembrando do trecho de um poema do Thây que diz: the tears I shed yesterday have become rain... As lágrimas que derramei ontem tornaram-se chuva... Por enquanto, estou no hoje.

Só posso pensar: vamos em frente.
Mas não mais com pressa, e sim com atenção a cada passo.

Agradeço ao Paul/Pháp Thê pelo amor, pelo terremoto que rasga e abre esse solo, por provocar as lágrimas que chovem e o regam, tornam fértil. Hei de cultivar tomates como amor, amor como tomates. De coração a coração, não há diferença, não há separação.

29.03.2009

Equanimidade

Os dias
eu não mais julgo
-- aceito e desfruto
igualmente
de sol e nuvens
lágrimas e sorrisos



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24.03.2009

Bebendo chá

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Bebendo chá. Bebendo chuva. Bebendo as nuvens do planeta. Bebendo as colinas verdes aos pés dos Himalaias. Bebendo as flores dos jardins. Bebendo borboletas, caracóis, minerais, formigas. Bebendo o sol. Bebendo trilhões de anos. Bebendo trabalho, estudo, família, amigos, professores, médicos, motoristas. Bebendo sabedoria, memória, sobrevivência. Bebendo toda a história da humanidade. Bebendo cuidado, carinho, amor, amizade. Bebendo pessoas que conheço ou só imagino. Bebendo os buracos negros do universo. Bebendo tudo o que aconteceu e acontecerá, e deixou de acontecer, até que enfim acontecesse -- este momento.

Este chá que estou bebendo. Como é que este chá maravilhoso veio parar dentro do meu copo de cerâmica? Como viajaram estas nuvens, o solo, as pessoas e sua alegria, seu trabalho árduo, os estudos dedicados, as madrugadas frias, os poentes -- este chá, que agora se torna um, comigo, em mim, e eu nele.

Bebendo chá, já não há como separar a minha vida da dele -- nem quero --, ou das pessoas que o plantaram e colheram, e cuidam do planeta há milênios, do sol brilhando desde sempre, sem interromper um único momento, e a carreira de formigas adubando o solo, as ventanias aqui, a poeira das galáxias, desertos e orvalho lá -- não há como separar-me do meu avô, do seu avô, dos avós de todos nós.

Bebendo chá -- mais do que sacio a minha sede, eu me inundo de gratidão.

Bebendo chá. É tão maravilhoso poder simplesmente beber chá, poder beber chá simplesmente.


Nota do blog: compartilhei uma outra experiência do chá -- milagre e gratidão de um chá -- numa postagem mais antiga, Fervendo a água para o chá.

foto ©daily inspiration

26.12.2008

Busca

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Buscando seu rosto
através do vidro
eu vejo o meu.

24.12.2008

Você é eu

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Você é eu
eu sou você.
Não é verdade que nós interexistimos?
Você cultiva a flor em você
de modo que serei belo,
E eu transformo o lixo em mim
para que você não sofra.
Eu te apóio, você me apóia.
Estou aqui para trazer-te paz,
você está aqui para trazer-me alegria



Thich Nhat Hanh



Foto ©Plum Village sites

28.08.2008

Copo vazio

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Esta chávena
que se acaba.
Plenamente saboreada
não há porque chorar
você.

26.08.2008

Lazy days

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Pingos na poça
d’água do escorredor
de pratos no salão
amplo, silencioso
deserto

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