21.04.2009
O grande silêncio

Quer ouvir o silêncio?
Então dedique algumas horas deste seu feriado, torne-as preciosas e assista a O Grande Silêncio, documentário praticamente sem diálogos, sobre o cotidiano dos monges do mosteiro da Grande Cartuxa em Grenoble, nos Alpes Franceses. Para filmar no mosteiro, o documentarista Philip Gröning aceitou as condições impostas pelos monges cartuxos -- ausência de comentário, narração, depoimentos (o que dizer dos gestos, dos olhares, dos closes, e sim, há um depoimento no final) e trilha sonora (para quê, se eles atravessam o filme cantando lindamente?) --, após quase 20 anos de espera pela autorização. O resultado são imagens de "deslumbrante simplicidade", poéticas e fortes. Devoção, contemplação, trabalho, disciplina. É um filme maravilhoso, um milagre de beleza a cada plano, e está disponível para ser assistido on-line (já que não se encontra em dvd no Brasil) através do link:
http://www.webislam.com/?idv=491
Se desejar saber mais sobre o filme, acesse o belo site oficial em http://www.diegrossestille.de/english/
Se desejar saber mais sobre a Ordem dos Cartuxos, monges contemplativos, filhos e filhas de São Bruno, o Solitário, por favor acesse:
http://www.chartreux.org/pt/frame.html
O Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura de Portugal traz diversos artigos interessantes relacionados ao filme e à Ordem Cartuxa, como o Viagem à casa dos "últimos homens que sabem escutar", e uma entrevista com o diretor Philip Gröning, acesse aqui.
Desfrute! Obrigado.
10:31 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (6) | Enviar por e-mail | Tags: o grande silêncio, philip gröning, grande cartuxa grenoble, cartuxos, são bruno
27.04.2008
Somos todos Um

Perdi diversas chances e convites de assitir a Somos todos Um, mas afinal consegui. E, para minha surpresa, não foram as palavras de nenhum dos intelectos e espíritos estrelados e best-sellers do filme as que mais me emocionaram -- apesar de entre eles encontrar-se o meu mestre, Thich Nhat Hanh. É do rapaz da foto acima, Chris Willis, o depoimento que me fez chorar, por ser o mais corajoso e honesto, em sua vulnerabilidade -- quando a maior parte das resposta dadas no filme parece estar na ponta da língua (alguns entrevistados sequer respiram antes de falar)... Dizer "eu não sei", depois de tentar refletir um tanto, é mais do que honesto. E é sábio, lindamente humilde dizer: eu não sou merecedor de desejar para toda a humanidade... Mas também me vi emocionado, e entre lágrimas sorrindo, com a doçura plena -- palavras, mensagem, voz, sorriso, olhar, presença -- da Irmã Chan Khong, a parceira espiritual do meu mestre, que aparece na foto abaixo. É dela o rosto mais absolutamente belo do filme, deste e de muitos outros, pois é a beleza do Amor e da santidade, beleza pura sem maquiagem. Repare... os olhos dela irradiam luz!

Quanto ao conteúdo geral do filme, é algo assim como "a classe média parte em busca de Deus" -- e consulta os especialistas disponíveis nas redondezas. Uma colagem de depoimentos colhidos em diversas localidades dos EUA juntos a diversas pessoas dos mais diversos caminhos espirituais e/ou religiosos, inclusive aquelas sem caminho determinado -- e sempre haverá algum a nos tocar e inspirar, embora dificilmente todos... E o filme, modestamente, logra ao buscar -- e exibir -- a unidade nesta enorme diversidade.
Somos todos Um (One: the movie), dirigido por Ward M. Powers, EUA, 2005, com depoimentos de Thich Nhat Hanh, Deepak Chopra, Swami, Ram Dass e outros; disponível em dvd pela Dreamland Filmes.
Para mais informações há o site :
http://www.onetheproject.com/TheMovie.jsp
Obrigado.
10:00 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: Somos todos Um, One the movie, Thich Nhat Hanh, Irmã Chan Khong
13.04.2008
As primeiras 50 vezes

Já contei na postagem DJ Buda a sensação que venho tendo de viver cercado de incontáveis Budas que me ensinam lições preciosas, entre elas a de sorrir e rir mais, de encarar a vida com mais humor e alegria. Tive a sorte de ter por hóspede recentemente um Buda que não só era DJ, mas também VJ, e que promoveu um festival de cinema aqui em casa.
Entre os filmes que me apresentou está Como se Fosse a Primeira Vez, com Adam Sandler e Drew Barrymore (acima). É o que se chama de comédia romântica -- e esta é mesmo adorável. Meu espírito crítico retiraria algumas gracinhas e muitas caretas do Sandler, deixando porém intocada a linda história de amor que é tema do filme -- que nos dá a chance tanto de rir como de chorar, muitas vezes de rir ainda enxugando as lágrimas ou de chorar sorrindo; o que é muito interessante de se observar.
E sugiro aqui este filme pois trata de empenho e dedicação no amor -- em todo os dias, a cada manhã, despertar o amor de uma pessoa que dele se esquece a cada sono... A cada manhã, o "herói" do filme se empenha em fazer com que a "heroína" se apaixone por ele novamente, e atravesse o dia feliz a seu lado... Para isso ele a retira dos hábitos a que ela se encontra presa, e ao invés de tentar preservá-la do sofrimento, de enredá-la numa ilusão cor de rosa, ele corajosamente a confronta com a realidade e a verdade nem sempre agradável...
Isto, parece-me, é a própria prática da meditação. Como nos diz Thich Nhat Hanh (em Brando e firme), meditação não é evasão; é um sereno confronto com a realidade. Assim como o herói deste filme, temos de nos lembrar a cada manhã, e a cada momento, da prática, e do porquê da prática -- como nos pede Chagdud Tulku Rinpoche em A prática, ao acordar. Trata então de fazer com que nosso "herói interno" -- nossa inteligência, nossa diligência e determinação -- a cada manhã desperte nossa "heroína interna" -- nossa prática de bondade amorosa, de compaixão, de generosidade. Se no filme são flores e canções a alimentar o amor, em nós mesmos é a atenção e a plena consciência com que olhamos as flores e escutamos as canções, e tudo o mais, tudo o mais que fazemos, a alimentar nossa prática.
De coração a coração, com risos e lágrimas, este filme é uma agradável e bonita inspiração.
Por favor desfrute, reflita, pratique.
Obrigado.
(Como se Fosse a Primeira Vez - 50 First Dates; elenco: Adam Sandler, Drew Barrymore, Sean Astin, Rob Schneider; direção: Peter Segal; 2004, 100 Minutos; disponível em dvd; Columbia Pictures)
09:45 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Como se fosse a Primeira Vez, Adam sandler, Drew Barrymore, Fifty First Dates, budismo, prática
09.04.2008
Somente o necessário
Eu uso o necessário
Somente o necessário
O extraordinário é demais
Eu digo o necessário
Somente o necessário
Por isso é que essa vida eu vivo em paz...
Este é o trecho inicial da canção Somente o necessário, do desenho animado Mogli, da Disney, baseado no The Jungle Book de Rudyard Kipling.
Clicando no vídeo abaixo você ouve esta canção, e assiste ao urso Balu, o menino Mogli e a pantera Baguera. Nos tempos atuais de consciência ecológica, algumas situações no filme podem parecer "politicamente incorretas" -- mas além disso, assista ao vídeo se desejar e pergunte-se: Eu uso somente o necessário? Eu digo somente o necessário?
E mais: Eu uso a cabeça para abrir um côco, ou eu quebro a cabeça por um côco? Ou será que abro um côco e não abro a cabeça? Com uma banana eu me alimento ou me embanano?
O que é, afinal, somente o necessário?
Se o vídeo acima não funcionar, por favor assista-o em:
http://www.youtube.com/watch?v=mM_Wc1dQRbM
No original em Inglês a canção chama-se Bare necessities, e pode ser ouvida em:
http://www.youtube.com/watch?v=9ogQ0uge06o
Divirta-se, reflita!
E obrigado à amiga Denise por compartilhar!
09:40 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail | Tags: Mogli, Somente o necessário, Bare necessities, Disney
30.03.2008
Vale das Flores
A questão não é com quem se vive. A questão é com quem não se pode deixar de viver... [pois] A paixão e a paz não podem conviver.
De Nan Palin, o diretor do bonito Samsara, este é um filme sobre o samsara, sobre o ciclo de nascimento, morte e sofrimento a que ficam presos os seres humanos, segundo o budismo. Baseado numa lenda dos Himalaias, é um filme mais sobre o misticismo, lendas e crenças do budismo, do que sobre os ensinamentos. É aventura e romance, e muito competente nesse sentido, mais do que palestra sobre o Dharma.
Vale das flores começa citando o iogue e santo tibetano Milarepa sobre demônios; passa-se nos Himalaias do século XIX, na rota da seda, especiarias e do sal, e segue até o Japão do século XXI -- e a elipse que faz a transposição entre estes dois tempos é uma das mais bonitas do cinema... Visualmente, o filme é deslumbrante. Os atores principais são lindos, os figurinos parecem ser do Armani, toda a direção de arte é cuidadíssima, e os cenários, as tomadas, os enquadramentos -- tudo é exageradamente impecável. Muito adequado para tratar do samsara, e como não há qualquer vestígio de interesse por uma prática espiritual nas personagens principais do filme, é deste estado que encontram-se presas. Os temas são a paixão, o desejo, a cobiça, o poder, o apego, a imortalidade e até a eutanásia... Há sensualidade e violência, e por isso normalmente eu não recomendaria aqui este filme -- mas não é assim também nas nossas vidas? À medida que o filme se desenrola vai tornando-se mais budista, usando de alguns símbolos, descontruindo outros -- mas não é este um filme que proponha redenção: simplesmente rendição. Interessante contrastar com outros dois filmes, Crash e Poder Além da Vida.
Com a prática, há Caminho para a liberação. Sem ela, é um beco sem saída -- e contra o muro bate-se e volta, bate-se e volta, parecendo haver muros por todos os lados...

Vale das Flores (Valley of Flowers, Alemanha/ Índia/ França/ Japão, 2007, Casablanca Filmes), dirigido por Pan Nalin; com Milind Soman Mylène Jampanoi, Naseeruddin Shah, Eri; disponível em dvd
Foi criada uma bela página de internet, com infomações e imagens que enriquecem o conteúdo do filme, em:
www.valleyofflowers.com
10:01 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: Vale das flores, Pan Nalin, Samsara, budismo, Himalaia
16.03.2008
Este momento
Onde você está?
Aqui.
Que horas são?
Agora.
Quem é você?
Este momento.

Um filme que não prima pela estética, pela intelectualidade, pela originalidade -- está mais para Sessão da Tarde. É quase constrangedor, não fosse este um filme com forte mensagem budista, baseado no livro O Caminho do Guerreiro Pacífico, de Dan Millman. Trata-se de Poder Além da Vida (título original Peaceful Warrior) -- e o título em Português é bobo e errôneo, pois não há nada de além da vida nem de poder no filme. Trata-se de uma relação mestre-discípulo, e do aprendizado de uma prática espiritual, aqui e agora mesmo, nesta vida.
Para quem está neste Caminho, é interessante compartilhar os degraus da prática, os percalços, a superação -- e foi o que tentei fazer um pouco durante esta semana. Então, a coleção de frases de efeito citadas no enredo adquire sentido, e muito depois de assistido o filme algumas delas permanecem como lembrete, o que é sempre proveitoso e de grande ajuda.
09:40 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: meditação, prática espiritual, Poder Além da Vida, O Caminho do Guerreiro Pacífico, de Dan Millman
25.01.2008
Palavras em silêncio
Um filme delicado, tocado em uma nota baixa, sobre pessoas solitárias tentando comunicar-se e alcançarem umas às outras; a história e as interpretações são fortes, emocionantes, porém discretas, sem excesso: trata-se de A vida secreta das palavras, de Isabel Coixet, que realizou também o lindo Minha vida sem mim, ambos já disponíveis em dvd. Para abrir o coração e se deixar ser tocado...
Se não puder assistir ao trecho acima, por favor acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=X23QLjbshkw
12:00 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: A vida secreta das palavras, Isabel Coixet, solidão, comunicação, compaixão
29.07.2007
Beleza
Dolls, de Takeshi Kitano, é dos meus filmes preferidos nos últimos anos, e talvez um dos preferidos em toda a minha vida -- não que isso tenha qualquer importância.
Reencontrei-o assim, picotado em 11 partes e disponível gratuitamente no Youtube. Há a sequência com os amantes atados caminhando entre as cerejeiras em flor, outra com os cata-ventos... tantos momentos emotivos e visualmente deslumbrantes. Se você ainda não o assitiu, por favor, aviso que esta é a sequência de encerramento do filme, e não gostaria aqui de estragar o prazer de assistir este belíssimo filme.
Dolls, dirigido por Takeshi Kitano, com Miho Kanno, Hidetoshi Nishijima, Tatsuya Mihashi, Chieko Matsubara, Kyoko Fukada, Japão, 2002
Se não conseguir assistir o clip acima, por favor acesse:
http://www.youtube.com/watch?v=4UQJSsCMuB8
11:15 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Dolls, Takeshi Kitano
23.03.2007
58 segundos
Desde garoto eu sonhava – e ainda sonho – em criar uma música que abrisse o coração das pessoas... O que me impediu foi que achava difícil amar as pessoas.
Você tem um sonho? E qual a maneira de realizá-lo? Ganhando o mundo ou isolando-se numa aldeia? Onde é que se encontra o seu sonho? E se a realização desse sonho durar menos de 1 minuto? E se a realização de 1 minuto desse sonho mudar a vida de muitas pessoas – qual será a extensão da realização do seu sonho? Qual será a extensão da sua vida, considerando as vidas das outras pessoas com quem você entra em contato, e nesse contato as modifica e se modifica? O que são 58 segundos – se todas as pessoas estiverem de mãos dadas, todas sorrindo, corações e mentes unidos numa só Voz... O que seriam estes 58 segundos? Qual, de quem seria esta Voz?

16:05 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: As it is in Heaven, A vida no Paraíso, Kay Pollak, música, sonho, cinema sueco
03.02.2007
Espiritualidade, religiosidade
Pode um filme quase sem nenhum aspecto religioso ser muito espiritualizado? Crash – no limite é assim, e me lembra uma frase de Joseph Campbell, em que ele diz que a religião pode muitas vezes afastar-nos da experiência espiritual...
Há poucas menções sobre religião no filme... As pequeninas imagens de São Cristóvão... Uma tatuagem de cruz, e algumas outras cruzes entrevistas ou sugeridas... Uma personagem dita budista... A menção de um anjo... Alguns presépios. E é Natal.
E a meu ver, este é um dos filmes não só mais espiritualizados, mas dos mais budistas que pode haver. Na maneira como nenhuma personagem sustenta um único lado até o final do filme, enviando sinais contraditórios... Na maneira como todas elas se apresentam como Budas umas no caminho das outras, e na maneira como esses caminhos estão intricadamente relacionados... Na maneira como o medo, o apego e principalmente a raiva são mostradas como causa do sofrimento... Na maneira como apresenta a lei do carma em ação, com todas as suas infinitas escolhas a cada passo, e suas correspondentes conseqüências nem sempre previsíveis... Ações maléficas que quando conduzidas como uma chance de redenção resultam em algum bem, como o ladrão que resolve libertar o “precioso conteúdo” de um furgão que rouba após ter atropelado o seu dono... Ações benéficas que resultam no que poderíamos chamar de malefício, quando uma carona resulta em morte... Mas nada se sustenta, nada pode ser classificado, dividido, separado, “maniqueisado”: duas armas disparam no filme -- uma mata, a outra não.
Há o policial “ruim” que enfim salva uma vida, enquanto que o policial “bom” tira outra... Um ganha a capacidade de ajudar o próximo que havia perdido, e redimir-se com uma das pessoas a quem molestou; o bom policial perde sua máscara no espelho e se confronta com a própria sombra... Enquanto trabalham em dupla, o policial “ruim” faz o papel da sombra do “bom”, e tenta mostrá-la ao outro, insistentemente, até o último momento de separação dos dois... O que se apresenta como sombra e o que não quer encará-la, ambos se aferram a seus papéis até que, enfim separados, dirigindo carros diferentes, o policial “ruim” se livra de seu papel de sombra e em pleno dia encontra a redenção ao salvar a mesma pessoa que antes fora sua vítima... E então arde a primeira fogueira do filme. O “bom” policial, depois de inúmeras chances de auto-conhecimento e reconhecimento ao longo do dia, aferrado ao seu papel mesmo sem o uniforme oficial, vai encontrar afinal dentro da noite escura e deserta sua própria sombra, e tem de encará-la da maneira mais dramática... E arde para ele a outra fogueira do filme. O que é que arde nessas fogueiras?...
O tempo todo as personagens perdem o que lhes é mais caro. Não é só o policial “bom” que perde a ilusão de sua verdade pessoal... Há o comerciante que perde sua loja, e em seguida perde também seu ódio ao tentar matar (e só não mata por uma escolha anterior de sua filha) e encontra a paz através de um firishte (um anjo), que é a menininha que passa do medo para o destemor num “passe de mágica”; menininha esta que é o maior tesouro do pai, um chaveiro, que por um momento a perde para sempre, fortemente agarrado a ela... Há o pai do policial “ruim”, que perdeu tudo menos o sofrimento, a doença, e o próprio filho... O filme fala muito de apego, da lição de perdermos aquilo que nós é mais caro... Mas há sempre um bodhisattva(*) lá, disposto a tornar a perda uma lição maravilhosa... Há o detetive de polícia que perde sua honestidade, e perde também seu orgulho e boa imagem, ao perder o próprio irmão, que por sua vez exercia para ele o papel de sombra: o errado e imperfeito irmão delinqüente do defensor da justiça... Por fim no luto familiar ele perde também a mãe, e com silêncio resignado perde seu papel de bom filho caridoso, para restituir à mulher a boa imagem de seu irmão ladrão, que fica com o mérito de um gesto filial carinhoso...
Há sempre um bodhisattva presente, permeando as situações, e em sua infinita compaixão dando às pessoas a chance de se redimir... O ladrão raivoso, que liberta os imigrantes depois de ser liberado de seu próprio preconceito racial e sua duvidosa “ética de crimes” pela vítima de um de seus assaltos... O ladrão compreensivo, o próprio bodhisattva, que através da oferenda de sua morte com olhos abertos, encarando seu agressor e segurando um santo entre os dedos, joga luz sobre o policial bonzinho e o toca profundamente...
Há tantas personagens... Não vou comentar todas elas... Mas há duas que me chamam mais a atenção.
O chinês vítima de atropelamento é uma personagem incrível e complexa... É fácil sentir “pena” quando do seu atropelamento, e ficar indignado ou revoltado com o ladrão que displicentemente o atropelou, pois parece ser uma tremenda injustiça com um cidadão inocente e desavisado -- mas como transformar isso em compaixão quando o chinês atropelado se revela um traficante de pessoas... Pessoas estas que ao final são libertadas por causa do atropelamento que antes se condenava, quando afinal o ladrão escolhe a liberdade dos imigrantes ao invés do dinheiro que receberia por suas cabeças... E o traficante atropelado, por estar imobilizado no hospital, deixa de ter no seu carma todas essas pessoas que por sua condução seriam escravizadas.
A dona de casa ricaça, papel de poucas cenas, é no entanto para mim o maior símbolo do filme, quando ela relativiza toda a sua vida glamourosa depois de uma queda, e percebe que a empregada doméstica que a irrita, a qual considera uma intrusa em sua própria casa, é na verdade o seu anjo da guarda...
E o filme termina sobrevoando uma cruz, num entroncamento de Los Angeles...
Enfim... Merecidos os Oscar de melhor filme e melhor roteiro para Crash - no limite. A meu ver é premiar a própria vida, uma visão espiritualizada dela, e a potência que tem a espiritualidade de conduzir a vida para o seu melhor.
(*) por favor consulte o Glossário de Termos Budistas neste blog
09:45 Escrito em Filmes/Movies | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Crash - no limite, espiritualldade, religiosidade, bodhisattva
