13.05.2009
Vitória, derradeira derrota
Ciclópica fortaleza solitária
Pronto estou para deixar-te
E meu ato último, percebo, deve ser esvaziar-te...
Escancaro as pesadas portas dos sombrios porões
E deixo que escapem os escravos
Trazendo nas mãos as espadas e fogo em que as forjavam.
Com espanto observo que harmonicamente se misturam
E tão bem se confundem pelos ardentes salões
Com aqueles guerreiros que reputei os mais bravos...
Antes não os houvesse por tanto tempo aprisionado!
E que dança louca eles todos dançam, incinerados...
Com seus vigorosos passos, os mosaicos
Em intricados, extensos gramados de fogo evaporam.
Mas nunca, uma coreografia assim máscula lhes bastaria,
Do cotidiano amor diário por que se luta, de gestos prosaicos,
E logo eles buscam as vertiginosas escadarias...
Com que inimaginável facilidade ascendem
Às torres impossíveis!
São contínuo movimento, os degraus inacessíveis
Que acolhem e impulsionam um tal peso incendiário.
Urge, encontrar aquelas por quem lutaram todas as batalhas:
As que nunca viram luz do dia,
Princesas de diáfanas vestes púrpuras.
Fúteis vaidades imaginativas,
Vestimentas ideais de formas frustras
-- despidas enfim, belas como nunca,
e pelo chão os abrigos ricos assemelham-se a mortalhas...
Se as tivesse visto antes assim...
Nunca as teria querido protegidas!
Imaginava-as frágeis, delicadas.
Fuga.
Jamais uma tal acolhida
Aos músculos desejáveis, dos escravos e guerreiros irmanados,
Os belos músculos admiráveis, que pelo ascendente caminho perderam,
E em puras serpentes, justas setas de fogo se transformaram.
Inéditos – mas sim, elas os reconhecem,
E com eles no amor amantes se unem.
Com ávida paciência aguardaram,
Como oceanos até praias caminharam,
E agora calmamente em espuma à areia fecunda se entregam...
Se houvesse sabido do suave sofrimento que os unia
Eu não os teria mantido separados!
Mas tudo é, já, passado.
Quanta dor e aflição até que se encontram
Reconciliados, todos eles se me abandonam...
A fortaleza rendida, em ruínas,
E sua pedra alça vôo, surpreendida...
Posso também abandonar-me a esta avassaladora torrente severa
Que varre o solo estrangeiro onde cultivei
Vontades e prazeres
Onde nada mais resta
-- e já ninguém impera.
Notas do blog: outro poema do surto criativo que aconteceu-me no início da "fase adulta", e que durou uns três anos -- já havia trazido antes Ilusão Passageira, Resposta, Teoria, Conhecimento, Kyrie e outros, publicados em Memoirs -- o de hoje eu dedico à Rachel, meu amor, com todo o meu amor.
A ilustração acima é um origami, Rock Climber, por Robert J. Lang; para ver mais origamis por favor acesse:
10:37 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail
13.10.2008
saudades

thank you, dearest Tijen, thank you.
05:28 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail
21.10.2007
Cadê as estrelas?
Na minha infância não ligava muito para estórias em quadrinhos. Minha leitura preferida eram as histórias da mitologia grega.
Mas dentre as personagens dos quadrinhos, havia o dinossaurinho Horácio, ingênuo e poético, melancólico e sábio, desenhado por Maurício de Souza -- talvez a minha personagem preferida, e aquela que melhor caminhou comigo, na minha história.
Compartilho uma sequência bem antiga, que reencontrei recentemente:

O texto acima, que fica pouco legível neste tamanho e resolução, é o seguinte:
Lindas! E tem gente que até se esquece de olhar pra elas!
Se esquecem de que elas existem!
São os que perderam a poesia, o sonho, a noção do belo!
Esses, por mais que espiem o céu, não notarão as estrelas!
(!?)
As estrelas! Cadê as estrelas?
Eu também não estou vendo as estrelas!...
Ah! Era só uma nuvem passageira...
...cobrindo só um pouquinho a poesia, o sonho... o belo!
Como há sempre nuvens no meu céu, não só aprendo que por trás delas permanecem brilhando as estrelas -- mas aprendo a enxergar o belo e a poesia nas próprias nuvens, em cada trecho, todos os aspectos, a cada cambiante paisagem, em todo o céu.
Obrigado.
10:20 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: poesia, belo, sonho, estrelas, nuvem, Horácio, Maurício de Souza
13.10.2007
Ensaio
Kyrie... Sobe, flutua, a voz grave e estrangeira.
Nas sombras em arcos suspensas, ela aderna
e se derrama, desfalece,
a voz pura estremece.
Quer tornar-se infinita, eterna
e quase se esquece de que é humana
em seu desespero por ser a mais bela.
Kyrie! Clama a voz profunda entre murmúrios resgatados
de preces muito antigas e missas fracassadas.
Alongam-se as abóbadas em celestiais transportes,
deslocam-se pedras, círios, anjos e pinturas.
Kyrie! Movem-se os santos pelas estantes,
olhares vazios, inquietantes,
tornam a brilhar.
Mas isso não basta,
é a Deus que a voz perfeita
quer alcançar.
Então
por que não esperas
um só momento
pela sutil resposta sussurrada?
Faze silêncio!
Compreende...
Escuta as coisas que te escutam,
impregnadas de sentido e adoração.
Percebe...
Os lírios parecendo esquecidos,
descansando à beira dos vasos.
As alfaias absortas, os incensórios em repouso...
Os ícones radiantes.
Os púlpitos loquazes – emudecidos.
Entende...
A cruz impassível que finalmente se inclina no altar
e está querendo vir, descer, a teus pés pousar.
Mais não conseguirás.
parasezen (há mais de 20 anos atrás)

10:05 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Kyrie, Anjo, Musée du Petit Palais, Avignon
24.08.2007
Mais sábios do que outros
Vi muitos que filosofavam mais doutamente do que eu, mas sua filosofia lhes era, por assim dizer, estranha. Querendo ser mais sábios do que outros, estudavam o universo para saber como era organizado, como teriam estudado, por pura curiosidade, alguma máquina que tivessem encontrado. Estudavam a natureza humana para dela poderem falar sabiamente, mas não para se conhecerem; trabalhavam para instruir os outros, mas não para se elucidarem por dentro.
Jean-Jacques Rousseau, trecho da Terceira Caminhada em Os Devaneios do Caminhante Solitário, Editora Universidade de Brasília, Brasília, 1986.
(*) notas do blog: outros trechos deste livro encontram-se em Minha Autobiografia por Terceiros, box na coluna à esquerda da sua tela.
E penso que Santa Teresa D'Ávila pode conversar com Rousseau em Entrar en el cielo
E a eles dois, junta-se nesta conversa o Thich Nhat Hanh em A Perfeita Compreensão
Entre silêncios e sorrisos, o chá está servido, aqui em casa.
09:27 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Jean-Jacques Rousseau, Os Devaneios do Caminhante Solitário, Santa Teresa D'Ávila, filosofia, sabedoria, vida espiritual, vida interior
22.07.2007
Aldeia das Ameixeiras

Para quem me pede mais informações sobre Plum Village -- a Aldeia das Ameixeiras, centro de retiro e meditação do monge zen budista Thich Nhat Hanh na França, peço que acesse o link:
http://www.geocities.com/Heartland/2630/PlumVillage.html
Obrigado.
13:05 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Thich Nhat Hanh, Aldeia das Ameixeiras, Plum Village
20.06.2007
Primavera no outono
Depois de tanto tempo, a Primavera chega a mim, em pleno Outono.
Obrigado.

08:35 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: Primavera, Outono, Tijen Inaltong
01.06.2007
Há um ano atrás
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2006/06/02/the-b...
Debaixo do carvalho venerando, a família reune-se para a discussão do Dharma e o compartilhar de nossas histórias... E abrigam-se ali almoços e jantares em silenciosa e suave companhia, sessões musicais, conversas e confissões na rede... Sem paredes que não as outras árvores ao redor, sem telhado que não o céu ou a copa generosa, foi esta a nossa casa durante três semanas, onde havia sempre um sorriso e braços abertos para acolher.

http://www.plumvillage.org/
09:50 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Plum Village, Vilage des Pruniers, Thich Nhat Hahn, sangha
26.05.2007
O pinheiro

Eu rezei ao Buda e aos bodhisattvas (*), rezei a meus antepassados, a meu pai e à minha mãe. Às vezes rezo também a meus alunos, porque alguns têm grande cabedal de energia, estabilidade, liberdade e felicidade; e eu preciso chegar a eles como objeto de minha oração. Também tenho rezado à minha comunidade, presente em várias partes do mundo, porque preciso de sua força. Sempre que rezo, sei que estou em contato com a energia da mente una através dessas pessoas.
E, se rezamos com o corpo, com o coração e com a mente, podemos rezar também ao pinheiro, à lua, às estrelas. O pinheiro é sólido, a lua está sempre ali em seu horário, as estrelas estão no firmamento para nós, livres e brilhantes. Se conseguirmos entrar profundamente em contato com o pinheiro, seremos capazes de entrar em contato com a mente una, com Deus. Se entrar em contato com Deus significa que Deus pode transmitir energia para nós, então o pinheiro também pode transmitir-nos energia.
Thich Nhat Hanh, A Energia da Oração, Editora Vozes, Petrópolis, 2007
(*) Notas do blog: por favor consulte o Glossário de termos budistas na coluna Categorias, à esquerda da sua tela, ou clique em:
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2006/12/10/gloss...
Foto: há um ano atrás, eu estava encerrando minha Experience Week na Findhorn Foundation, Escócia. O quarto onde fiquei hospedado tinha três janelas, e a minha vista preferida era a que dava para este jardim onde aparece o pinheiro -- tudo tanto mais verde depois de uma pancada de chuva, das tão frequentes chuvas que fazem da Escócia um país tão verde... Obrigado a todos que fizeram daquela semana uma experiência profunda e amorosa, e que tenho no meu coração -- e especialmente à querida Bettina, que me guiou até Findhorn, à Christine, um anjo sorrindo pelos corredores, ao Iain, o ser integral, e à Regina, com quem compartilhei a tentativa de reconstrução de nossos corações partidos...
Para saber mais sobre a Fundação Findhorn e os programas disponíveis, por favor acesse:
http://www.findhorn.org/home_new.php
Se desejar ler sobre minha Semana de Experiência em Findhorn (em Português sem acentuação), por favor acesse:
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2006/05/23/anjos...
http://paraserzen.blogspirit.com/archive/2006/05/28/peace.html
10:15 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Thich Nhat Hanh, A energia da oração, rezar, natureza, pinheiro, Findhorn Foundation
31.03.2007
Um convidado importante

Expresse seus sentimentos com todo o coração, mas não se torne mais expressivo que sua verdadeira natureza. Mesmo que esteja só em um quarto escuro, comporte-se como se estivesse diante de um convidade importante.
Getsu, mestre zen
citado por Paul Reps em Histórias zen, Editora Teosófica
(image above: Scholar Gazing at the Moon, Japanese print, Hokusai school, 19th century)
10:35 Escrito em Memoirs | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: Getsu, convidado, expressão sentimentos, zen