21.06.2009

Eu sou livre

08-14p06plants.jpg

 

Inspirando, expirando
eu me abro como uma flor.
Sou fresco como o orvalho.
Sou sólido como a montanha.
Sou firme como a terra.
Sou a água que reflete
o que é real, o que é verdadeiro.
Sou espaço, sou livre.

O Buda é a minha plena consciência
brilhando perto, brilhando longe.
O Dharma é minha respiração
guardando corpo e mente.
A Sangha é meus skandhas,
trabalhando em harmonia.
Tomando refúgio em mim mesmo,
voltando a mim mesmo,
eu sou livre.

 

 

gatha de Plum Village

 

I like the dafodils - Young monks.jpg

 

Notas do blog: na foto acima, alguns do queridos Irmãos vietnamitas de Plum Village, que estão entre as pessoas mais livres que conheço. Liberdade é uma prática, não uma idéia, e é muita prática de liberdade o que meus irmãos monásticos têm.

Em Setembro deste ano teremos o privilégio de receber a visita de dois monges vindos de Plum Village, centro de prática na tradição do mestre zen Thich Nhat Hanh, que durante aquele mês oferecerão palestras públicas e retiros no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Recife -- para saber mais e participar, acesse os links dos blogs das Sanghas ao lado, na coluna à esquerda da sua tela.

Obrigado.

17.06.2009

Trocamos de idéias, e nada mais

vitruvian-man.jpg

 

O engano liberal consiste em crer que, mudando as idéias, tudo o mais será transformado – e que as pessoas podem ter idéias justas independentemente da situação em que se encontrem. O pregador dirá ao leigo: “Tenha uma consciência clara, mude sua forma de pensar e mudaremos as idéias”. Isto também é exato – até certo ponto. Sem uma nova tomada de consciência não é possível produzir nenhuma mudança; como não nos atrevemos a mudar o resto, ao mudar as idéias trocamos de idéias, e nada mais. E tudo continua como antes. Poderíamos lembrar de Mateus (23:3): “Dizem, mas não fazem”. A mesma idéia se encontra no Dhammapada (IV,8): “Estéreis são os discursos dos que não põem em prática”.

 

Raimon Panikkar, O Espírito da Política - Homo Politicus (originalmente publicado em 1999 na Espanha, editado em 2005 no Brasil pela Triom)

 

Notas do blog:  lembra-me muito a famosa frase de Giuseppe Tomasi de Lampedusa (1896-1957) em seu belo livro Il Gattopardo, "Se você quiser que as coisas permaneçam como estão, as coisas terão de mudar"; foto de escultura baseada no Homem Vitruviano de Leonardo da Vinci, Estocolmo, Suécia ©cuddesdon1971

15.06.2009

Quando se deixa encontrar

Siddhartha_and_Jesus_by_DonMak-1.jpg



Graf Dürckheim [...] me disse:

-- É minha prática desde muitos anos. Na postura zen, que eu preconizo, se está nas melhores condições para invocar o Nome de Jesus. O Nome d”Aquele que É”: “Eu Sou”... Não digo isso de modo sempre explícito, isso é uma graça que cada um pode descobrir quando se deixa encontrar... Não somos nós, com efeito, que procuramos Deus, é Deus que nos procura...

Como eu me aventurasse a retrucar:

-- Mas invocar o Nome de Jesus durante a postura silenciosa não significa trair o zen? Não é preciso guardar pura a vacuidade?

Ele olhou-me sorrindo, sabendo que ressonância essas palavras podiam ter em mim (no dia anterior, havíamos evocado Mestre Eckhart!).

-- Não foi Jesus que nos conduziu ao perfeito silêncio, à pura vacuidade que está no seio do Pai? Não procure demais explicar tudo isso, não tenha medo do silêncio puro para onde o conduz a invocação do Nome de Jesus, porque ele o conduz mais seguramente do que quando você quer fabricar o vazio com seu pequeno eu místico!

 

Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)

 

Notas do blog: este diálogo é, basicamente, uma boa explicação não-budista para a prática de apranihita; acima, Sidarta e Jesus, ilustração de Don Mak (site maravilhoso deste excelente ilustrador, cheio de histórias e insights, desfrute!), que colhi no blog El Gran Cambio do querido Ernesto Morales (cujo link encontra-se disponível no box Fraternidade de blogs, na coluna à direita da sua tela), juntamente com o insight que gosto sempre de lembrar: Buda não era budista, Jesus não era cristão.

Dedico esta postagem aos queridos Carla e Kiko.

14.06.2009

Rituais

india_2006-8.jpg



Os moradores ribeirinhos acreditavam que as águas do Banganga podiam lavar o mau carma, tanto da vida presente quanto das vidas pregressas e, assim, com freqüência, mergulhavam nele, mesmo a temperaturas congelantes. Um dia, enquanto estava sentado ao longo da barranca junto com seu servo, Sidarta perguntou: “Chana, você crê que as águas deste rio podem levar embora o carma negativo?”

“Deve ser assim, Alteza, pois, de outro modo, por que tantas pessoas viriam aqui para se lavarem?”

Sidarta sorriu. “Bem, então, o camarão, o peixe e as ostras que passam suas vidas inteiras submersos nestas águas devem ser as criaturas mais puras e virtuosas de todas!”

 

Thich Nhat Hanh, Velho Caminho, Nuvens Brancas – Seguindo as Pegadas do Buda (Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, tradução do original de 1991)

10.06.2009

Não ter nada

emptyhands.jpg

 

 

Por vezes chega-se a desesperar porque o desejo do belo e do verdadeiro está ferido por contrários muito vivos. Continuar fiel, apesar de tudo, a este desejo, em uma fé que não exclui a dúvida, mas que a cada dia aprende a superá-la, faz de nós místicos... não religiosos, menos ainda fanáticos, mas céticos que aprenderam a duvidar de suas próprias dúvidas, diante da evidência de um Real que sem cessar lhes escapa e transcende... Muito nomeá-lo seria, sem dúvida, reduzi-lo ou querer tranqüilizar-se, mas não tender para ele seria entravar-se, ou mesmo morrer.

Foi nesse sentido que Malraux pôde dizer: “O século XXI será místico ou não será.”


[...] O crente que não sabe duvidar não do Absoluto, mas de si mesmo, é perigoso. Ele se servirá de um Deus ou de uma verdade que ele “tem” para sujeitar e dominar aqueles que “não têm”.

O místico não “tem” nada.

Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)

 

 

Notas do blog: para ver mais fotos do álbum ao qual pertence a foto acima, por favor acesse este link.

Em outros tempos, o paraserzen esteve de mãos cheias, outras vezes vazias: veja aqui, ou aqui, e aqui, aqui, aqui, aqui. Mais recentemente, de mãos atadas, tentado libertar-se...

 

 

09.06.2009

Viver na terra árida


continuação do trecho de ontem, retirado da autobiografia de Karen Armstrong, A escada espiral - Memórias (Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005):

 

Meus estudos me mostraram que a busca religiosa não tem a ver com descobrir “a verdade” ou “o sentido da vida”, e sim com viver, da maneira mais intensa possível, no aqui e no agora. Não se trata de cultivar uma personalidade sobre-humana ou ir para o céu, mas de descobrir como ser inteiramente humano – daí as imagens do homem perfeito ou iluminado, ou do ser humano deificado. [...] Certa vez, um sacerdote brâmane perguntou a Buda se ele era um deus, um espírito ou um anjo. Nada disso, Buda respondeu: “Sou um homem desperto!” [...]


Assim, o mito do herói mostra que é psicologicamente danoso viver na terra árida. Quem segue com servilismo as idéias alheias se empobrece e atrofia. [...] A obediência cega e a aceitação impensada de figuras autoritárias podem facilitar o funcionamento de uma instituição, porém as pessoas sujeitas a um regime desses permanecerão num estado de infantilidade e dependência.

 


580407517_22683508af.jpg




Notas do blog: para ler mais trechos deste livro por favor clique abaixo em Tags: Karen Armstrong; para ver mais do autor da foto acima por favor acesse:

http://www.flickr.com/photos/poesia/

08.06.2009

Heróis

575709402_1f8c1c32b3.jpg

 


Explicara-me que, na maioria das tradições, religião não tem a ver com crença, e sim com prática. Religião não é aceitar vinte proposições impossíveis antes do café-da-manhã, e sim fazer coisas que podem mudar seu adepto. É uma estética moral, uma alquimia ética. Comportando-se de determinada maneira, o devoto se transformará. Os mitos e as leis da religião são verdadeiros não porque se coadunam com uma realidade metafísica, científica ou histórica, e sim porque enaltecem a vida. Contam como a natureza humana funciona, mas, para descobrir sua verdade, é preciso aplicá-los à própria existência e colocá-los em prática. Os mitos dos heróis, por exemplo, não surgiram para nos fornecer informações históricas sobre Prometeu ou Aquiles – nem sobre Jesus ou Buda. Seu objetivo é compelir-nos a agir de tal modo que revelemos nosso próprio potencial heróico.

 

Karen Armstrong, A escada espiral - Memórias, Editora Companhia das Letras, São Paulo, 2005

 

Notas do blog: para ler mais trechos deste livro por favor clique abaixo em Tags: Karen Armstrong; para ver mais fotos desta série por favro acesse http://www.flickr.com/photos/77371991@N00/575709402

03.06.2009

Libertar-se

tied-hands-©-web.jpg

 

 

O grande mestre Rikyu declarou em certa ocasião: “A arte do Caminho do Chá consiste apenas em ferver a água, preparar o chá, e bebê-lo.” Que fácil parece, que simples! E, no entanto, muito pouco são os que descobrem como “viver” a vida, como libertar-se da tirania das coisas, como entregar-se completamente a “algo” e, absorvido nesse seu afazer, excluir qualquer pensamento ou medo das circunstâncias externas e irrelevantes.

 

Horst Hammitzsch em O Zen na Arte da Cerimônia do Chá, Editora Pensamento, São Paulo, 1997

 

Notas do blog: a manutenção da liberdade pode converter-se numa prisão...?!

Para ler mais trechos deste inspirador, excelente livro, por favor clique aqui.

 

16.05.2009

o Zen é intransitivo

Monja-Coen-MG-web.jpg

 

Zazen literalmente significa Sentar Zen. Zen é uma palavra que vem do Sânscrito Dhyana ou Jhana e significa um estado meditativo profundo. Geralmente não chamamos o Zazen de meditação, pois o verbo meditar é transitivo direto, ou seja, requer um objeto. Meditar sobre a vida, meditar algo. Enquanto que o Zen é intransitivo. Não há objeto de meditação. Até o sujeito desaparece. E quando isso acontece o Caminho se manifesta em sua plenitude.

Monja Coen (de um folheto do Retiro O Caminho Zen)


Nota do blog: zazen, foto da Monja Coen num retiro em Minas Gerais; se desejar ler mais por favor acesse: http://www.monjacoen.com.br/

 

20.04.2009

Anos e anos

for_the_first_time-web.jpg




[...] todas as tradições insistem sobre a firme necessidade de prolongar-se e sobre a fidelidade aos engajamentos que cada um se propõe. Não se trata de brincar de monge e de ir ao monastério como se vai à praia. Não se trata de se divertir, mas de retornar ao Essencial. Quando tantos homens e mulheres passam anos e anos nos bancos da escola e das universidades para aprender coisas mais ou menos úteis, parece razoável consagrar pelo menos alguns anos à procura “do que é verdadeiramente” e, antes de morrer, não é ridículo procurar conhecer-se a si mesmo.


Jean-Yves Leloup, O absurdo e a graça, Verus Editora, Campinas, 2003 (edição original francesa de 1991)



Notas do blog: foto dos monges na praia for the first time©kevin o'sheehan; isto, eu também aprendi com você... Obrigado.

Todas as notas