18.06.2009
A estrada que não tomei

Duas estradas separavam-se num bosque amarelo,
Que pena não poder seguir por ambas
Numa só viagem: muito tempo fiquei
Mirando uma até onde enxergava
Quando se perdia entre os arbustos;
Depois tomei a outra, igualmente bela,
E que teria talvez maior apelo,
Pois era relvada e fora de uso;
Embora, na verdade, o trânsito
As tivesse gasto quase o mesmo,
E nessa manhã nas duas houvesse
Folhas que os passos não enegreceram.
Oh, reservei a primeira para outro dia!
Mas sabendo como caminhos sucedem a caminhos,
E duvidava se alguma vez lá voltaria.
É com um suspiro que conto isto,
Tanto, tanto tempo já passado:
Duas estradas separavam-se num bosque e eu -
Eu segui pela menos viajada,
E isso fez a diferença toda.
Robert Frost (1874-1963), Tradução de José Alberto Oliveira
Notas do blog: para ler (e ouvir) o poema The Road Not Taken, por favor acesse:
http://www.poets.org/viewmedia.php/prmMID/15717
foto ©Yoav Galai; se desejar ver mais fotos desta série por favor acesse:
10:25 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: robert frost, caminho, vida, morte, escolha
22.05.2009
Quando uma ponte não se estende

Que enorme distância abissal
quando uma ponte não se estende
entre o agora
e o meu interno tempo -- eterno.
Notas do blog: este é um poema de juventude, e a prática que me ensina o Buda tem ajudado a minorar os abismos, desfazendo e implodindo o interno, desarmando e explodindo o eterno, desobrigando-me deles, para ficar somente o agora. Lembrou-me as pontes que atravessei quando viajando pela região de Ladakh, nos Himalaias, como na foto acima (Hanupatta, Zanskar - altitude 3400 m ©Hisashi Yuya) -- se desejar ver mais fotos dessa região maravilhosa do planeta, acesse a página abaixo, cortesia e ©P. van de Haar:
http://www.footootjes.nl/Panoramas_Ladakh_2008/Panoramas_...
Clicando em cada foto, aparentemente distorcida, abre-se uma outra tela panorâmica, em que você pode passear com o mouse pela fotografia, e viajar também pelas paisagens deslumbrantes que visitei, até dentro dos vastos céus dos Himalaias.
Se desejar ver outras postagens breves sobre minha viagem de aventura a Ladakh, clique aqui. Desfrute. O planeta é imenso, e começa sob os seus pés.
Dedico esta postagem ao amigo Ilan. Com gratidão.
11:15 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: ladakh, juventude, ponte, abismo, conceitos, eterno, interno, agora
17.05.2009
Uma Arte

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.
Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.
Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.
Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.
Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.
- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda – escreva tudo! – lembre desastre.
Elizabeth Bishop
Notas do blog: tradução de Horácio Costa para Uma Arte; se preferir ler este poema -- que há tempos na minha vida existe, e persite, resiste, insiste -- no original, por favor acesse a postagem The beginning and the end.
foto©aphoenix.ca
11:18 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: elizabeth bishop, uma arte, one art, horácio costa
02.05.2009
Sonho Impossível
Sonhar
Mais um sonho impossível
Lutar
Quando é fácil ceder
Vencer
O inimigo invencível
Negar
Quando a regra é vender
Sofrer
A tortura implacável
Romper
A incabível prisão
Voar
Num limite improvável
Tocar
O inacessível chão
É minha lei, é minha questão
Virar esse mundo
Cravar esse chão
Não me importa saber
Se é terrível demais
Quantas guerras terei que vencer
Por um pouco de paz
E amanhã, se esse chão que eu beijei
For meu leito e perdão
Vou saber que valeu delirar
E morrer de paixão
E assim, seja lá como for
Vai ter fim a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão
Notas do blog: The Impossible Dream, composição de Joe Darion e Mitch Leigh, do musical da broadway de 1965 baseado em Dom Quixote, 1965, versão em português de Chico Buarque cantada por Maria Bethânia; para ver a letra da canção em Inglês por favor acesse:
http://cariricult.blogspot.com/2007/10/sonhar-um-sonho-im...
O trecho do livro Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, em que teve por base a canção acima:
Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.
Agradeço ao Ibsen Pinheiro por ter-me apresentado este poema canção, lá em Schwäbisch Hall, há 20 anos atrás.
11:24 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: miguel de cervantes, dom quixote, sonho impossível, chico buarque
29.04.2009
Eu, você

Você é eu, e eu sou você.
Não é óbvio que nós "intersomos"?
Você cultiva a flor em você mesmo
para que eu seja belo.
Eu transformo o lixo que há em mim
para que você não tenha de sofrer.
Eu apóio você,
você em apóia.
Estou neste mundo para oferecer-te paz;
você está neste mundo para trazer-me alegria.
Thich Nhat Hanh
Notas do blog: poema Interrelationship traduzido a partir de Call me by my true names, The collected poems of Thich Nhat Hanh, Parallax Press, 1999; foto Thich Nhat Hanh ©Iara Sylvain
Há mais duas novas postagens com muitas fotos no blog Compartilhando Plum Village, sobre os monastérios do Upper Hamlet e do Lower Hamlet, em Plum Village, e os trabalhos que antecederam o Retiro de Verão de 2008. Desfrute!
11:02 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail | Tags: thich nhat hanh, interser, adubo, flor, transformação, meditação, plum village
28.04.2009
Devagar

¡NO corras, ve despacio,
que adonde tienes que ir es a ti solo!
¡Ve despacio, no corras,
que el niño de tu yo, reciennacido
eterno,
no te puede seguir!
Juan Ramón Jiménez (1881-1958)
Notas do blog: este poema aparece em Juan Ramón Jiménez para niños; se desejar ler alguns trechos desse livro, por favor clique aqui.
Cantava-me este poema lá em Plum Village o querido Pháp Banh, e agora me recordo dele para ajudar a cuidar do Buda bebê em mim, da minha vaga plena consciência, da prática da paz a cada passo, de nutrí-lo, preservá-lo, ajudá-lo a crescer na alegria e clareza...
10:47 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail | Tags: juan ramón jiménez, ¡no corras, pháp banh
27.04.2009
Ternura fatigada

Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
Eugénio de Andrade
Notas do blog: para acompanhar o poema O Silêncio (Obscuro Domínio, Editora Fundação Eugénio de Andrade, Porto, Portugal), um registro de Ocean (barco de madeira modificado, leite, projeção de slides de estrelas, 127 x 274 x 69cm, 1995) trabalho original de David Johnson, cuja bela trajetória e obra pode ser vista acessando o site oficial:
http://david-johnson.co.uk/index.html
Para ler mais deste poeta português, por favor acesse:
http://paraserzen.blogspirit.com/tag/Eug%C3%A9nio+de+Andr...
Obrigado, Lécio!
12:43 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail | Tags: eugénio de andrade, david johnson, silêncio
04.04.2009
Da felicidade

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!
Mário Quintana
Nota do blog: desfrute da prática de desfrutar do seu dia-a-dia, seja o que for que você estiver fazendo, cultivando a paz e a equanimidade perante todas as coisas, a gratidão a todas as coisas. A felicidade é aqui e agora, simples assim -- talvez, para começar, de ter olhos para ler esta tela -- você desfruta disso? Ou, sem se dar conta dos teus olhos você só lê a tela, buscando algum sentido oculto nas palavras, alguma revelação que não seja a maravilha do teu próprio olhar -- ou do escutar, do sentir -- o vento, a coceira --, do milagre do respirar? Ou ainda que seja, desfrute de ter olhos para chorar -- e em paz, chore a sua tristeza... Desfrute do nariz e dos ouvidos que sustentam os óculos, desfrute de tudo ao mesmo tempo -- olfato, visão, audição -- e daquilo que você não puder desfrutar, receba e inclua com equanimidade. Desfrute igualmente tanto dos dias nublados quanto dos ensolarados... eles são o mesmo, são o único dia de uma vida única! Possam todos os seres ser felizes e viver em paz!
11:17 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: mario quintana, felicidade, ventura, óculos, cotidiano, prática
23.02.2009
Delicadeza
Depois de tanto tempo longe da internet, o que tanto bem me fez, é com cuidado que retorno à rede... Sinto-me seguro porém de acessar sempre o lindo blog do querido amigo Lécio Ferreira, uma flor e outras coisas simples, blog cada vez mais sutil e delicado, um espaço cada vez mais sagrado, no qual navego com alegria -- cujo link está sempre disponível na janela à direita da sua tela, no box Fraternidade de blogs.
Compartilho então três poemas curtos da autoria do Lècio, que me inspiram calma e reflexão nestes dias de tempestades:
céu mais limpo:
para desenhar no chão
- um guarda-chuva
..
ao som da chuva -
nada tenho
a acrescentar
..
o caracol
espera a chuva passar
dentro de casa
Com gratidão, querido amigo.
13:01 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail
03.02.2009
Tua casa
Una colina es tu casa
Espacio abierto, alborada.
Las ventanas y puertas, abrazos
Calidos, abiertos a quien llegar.
Un refugio es tu casa
Santuario terreno
Siempre sereno
Tesoro para guardar.
Tu casa no es pared
Es amplitud, abertura
Se hace luz en red
De la centella pura.
Tu casa no es solo terrazos
Son tantos abrazos, brazos
Extendidos a quien llegar.
(*)Nota do blog - poema de autorıa da querıda amıga e ırmã do Dharma Geralda Xavıer, foto de Borıs Adlir-Hamilton, para ver maıs fotos desta sérıe por favor acesse
http://picasaweb.google.com/borishamilton/ArtyFarty#
15:40 Escrito em Poesia/Poetry | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail