07.04.2009

Alternância

Um outro trecho do livro de Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003), e do mesmo capítulo trazido ontem, que trata de manter viva a inspiração à prática:


Quando começo a duvidar de que sou capaz de estar presente com a impermanência, o não-ego e o sofrimento, me animo com a lembrança bem-humorada de Trungpa Rinpoche de que não existe cura para o frio ou para o calor. Não existe cura para os fatos da vida.

Esse ensinamento sobre as três marcas da existência pode nos motivar a parar de lutar contra a natureza da realidade. Podemos parar de causar mal, aos outros e a nós mesmos, com nossos esforços para escaparmos das alternâncias entre prazer e dor. Podemos relaxar e ficar totalmente presentes em nossas vidas.




Notas do blog
: para ler sobre não-ego, por favor acesse outras postagens, a excelente parábola O monge e a carruagem, um comentário esclarecedor de Thich Nhat Hanh em Libertando-nos das noções, e outro trecho do livro acima em Os dias de nossa vida; para ler mais trechos de Pema Chödrön, acesse aqui este tag.

06.04.2009

Naufrágio

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Somos como pessoas em um barco que está se despedaçando, tentando nos agarrar à água. O fluxo dinâmico, energético e natural do universo não é aceitável para a mente convencional. Nossos preconceitos e vícios são padrões que afloram do medo de um mundo fluido. Ao tomarmos de forma errada por permanente o que é mutável, nós sofremos.


Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003



Notas do blog: ocorre-me mencionar um dos mais impressionantes livros que li na vida; chama-se "Naufrágios", romance que se passa numa aldeia litorânea dramaticamente isolada, na época do Japão medieval, do escritor Akira Yoshimura, disponível em Português pela Editora Best Seller; foto dos restos de um navio naufragado na praia de Rossbeigh, próximo à vila de Glenbeigh, Irlanda.
Abrir, incluir, sempre abrir, e abrir mais, incluir mais, para ser zen.
Se desejar ler as postagens mais recentes sobre o tema Impermanência, por favor clique aqui.

09.01.2008

O círculo da bondade amorosa

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Algumas vezes nos sentimos bons e fortes. Algumas vezes nos sentimos inadequados e fracos. Mas, como o amor maternal, a maitri é incondicional. Independentemente de como nos sentirmos, podemos desejar ser felizes. Podemos aprender a agir e a pensar de modo que plantemos sementes para nosso futuro bem-estar, tornando-nos gradualmente mais conscientes daquilo que causa felicidade, bem como do que causa aflição.

[...] O primeiro passo para cultivar a bondade amorosa é perceber quando estivermos levantando barreiras entre nós e os outros. Esse reconhecimento compassivo é essencial. A menos que entendamos – de maneira imparcial – que estamos endurecendo nosso coração, não existe possibilidade de dissolvermos aquela armadura. Sem dissolver a armadura, a bondade amorosa do bodhichitta é sempre contida. [...]

Então, treinamos para despertar a bondade amorosa do bodhichitta em todos os tipos de relacionamento, tanto nos de coração aberto quanto nos contidos. Todos esses relacionamentos se transformam em ferramentas, na descoberta da nossa capacidade de sentir e de expressar amor.

A prática formal da bondade amorosa, ou maitri, tem sete estágios. Começamos gerando bondade amorosa para conosco e, então, a expandimos, no nosso próprio ritmo, para incluir nossos entes queridos, os amigos, pessoas “neutras”, aquelas que nos irritam, todos os anteriores, como um grupo e, finalmente, todos os seres através do tempo e do espaço. Gradualmente, ampliamos o círculo da bondade amorosa.



Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003



(*) Notas do blog: iniciei esta linha de raciocínio com a postagem É preciso amar as pessoas, seguida de Uma questão de exercício e O coração, já, e nesta semana As Quatro Incomensuráveis e A prática da aspiração -- reunindo a esta Pema Chödron: Legião Urbana, Trungpa Rinpoche, Carlo Levi, Thich Nhat Hanh e nós. Obrigado.

Foto © Sara Heinrich

08.01.2008

A prática da aspiração

A prática da aspiração é diferente de fazer afirmações. Afirmações são como dizer a você mesmo que você é compassivo e corajoso, para esconder o fato de que, secretamente, você se sente um perdedor. Ao praticar as quatro qualidades ilimitadas, não estamos tentando nos convencer de alguma coisa, nem estamos tentando esconder nossos verdadeiros sentimentos. Estamos expressando nossa vontade de abrir o coração e de nos aproximarmos de nossos medos. A prática da aspiração nos ajuda a fazer isso em relacionamentos cada vez mais difíceis.

[...] Não estamos nos forçando a sermos bons. Quando vemos quão frios e agressivos podemos ser, não estamos pedindo para que nos arrependamos. Em lugar disso, essas práticas de aspiração desenvolvem nossa capacidade de permanecer estáveis com nossa experiência, seja ela qual for.

[...] Somos uma pungente mistura de algo que nem é tão bonito, mas que é muito amado. Quer essa seja nossa atitude para conosco ou para com os outros, ela é a chave para que aprendamos como amar.


Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003


(*) Nota do blog: Esta postagem refere-se à anterior, As Quatro Incomensuráveis. Sigo compartilhando trechos deste livro por achá-lo dentre os mais importantes e prestativos, contundente, lúcido, desmistificador, honesto -- na verdadeira tradição de ensinamentos do mestre Chögyam Trungpa Rinpoche, cujo texto Um faz-de-conta complementa bastante bem esta postagem, e de quem esta autora foi discípula -- e por este livro estar infelizmente esgotado na editora. Desfrutem.

07.01.2008

As Quatro Incomensuráveis


Que todos os seres sensíveis gozem da felicidade e da raiz da felicidade.
Que eles estejam livres do sofrimento e da raiz do sofrimento.
Que eles não sejam apartados da grande felicidade e estejam isentos de sofrimento.
Que eles vivam na grande equanimidade, livres da paixão, da agressão e do preconceito.


Cada verso deste canto refere-se a uma das quatro qualidades incomensuráveis: a primeira, bondade amorosa; a segunda, compaixão; a terceira, júbilo e a quarta, equanimidade. Às vezes eu prefiro trocar a palavra eles por nós. Esta troca salienta que nós mesmos aspiramos experimentar o benefício destas quatro qualidades, junto com os outros seres.


Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003



(*) Nota do blog: esta é uma das práticas que mais gosto de fazer, muitas vezes por dia e em diversas situações, ainda que seja apenas recitando este canto como uma oração, sem visualizações, apenas abrindo espaço no coração e na mente. Mas uso uma versão ligeiramente diferente destas palavras, como já havia publicado anteriormente em Bom no Começo.

07.12.2007

Eu estou bem

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Sempre que alguém perguntava a um certo mestre zen como ele estava, invariavelmente respondia: “Eu estou bem”. Finalmente, um de seus alunos disse: “Roshi, como você pode estar sempre bem? Você não tem dias ruins?” O mestre respondeu: “Claro que tenho. Nos dias ruins, eu estou bem. Nos dias bons, eu também estou bem.” Isso é equanimidade.



Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003

22.11.2007

Nossa capacidade de amar

Uma colagem de trechos do capítulo Aprendendo a ficar, do maravilhoso livro de Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003), no qual atualmente busco refúgio e orientação:

A instrução essencial é “Fique... fique... só fique”.

[...] A transformação somente ocorre quando nos lembramos, a cada expiração, ano após ano, de irmos ao encontro da nossa angústia emocional, sem condenar ou justificar nossa experiência.

[...] Na meditação sentada, praticamos abandonar qualquer história que estejamos contando para nós mesmos e nos inclinar para o lado das emoções e do medo. Dessa maneira, treinamos abrir nosso coração amedrontado à inquietação da nossa própria energia. Aprendemos a permanecer com a experiência da nossa angústia emocional.

[...] Ocupar-nos da nossa mente e corpo, do momento presente, é uma maneira de sermos gentis para conosco, com o outro e com o mundo. Essa qualidade de atenção é inerente à nossa capacidade de amar.

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E então me lembro do trecho de uma canção que me enviou o querido César:

Para olvidar un amor
si se ha querido de veras
se hace tan grande el dolor
que se te acaban las fuerzas
y no se olvida el amor...
Para olvidar un amor
si se ha entregado la vida
duele tanto el corazón
que hasta el dolor se te olvida
y no se olvida el amor
y no se olvida el amor...



Ficar... ficar... só ficar... Como pode ser tão difícil simplesmente permanecer?


(foto por Tina Modotti)

20.11.2007

Não conhece o medo

Ele ensinou (*) que, quando compreendermos que não há objetivo final a alcançar, nenhuma resposta definitiva ou ponto final, quando nossa mente estiver livre de emoções conflitantes e da crença na separação, então não mais teremos medo. Quando ouvi isso muitos anos atrás, antes mesmo de ter qualquer interesse em um caminho espiritual, acendeu-se uma pequena luz: eu. Com certeza, queria saber mais a respeito de “não ter medo”.

Essa instrução sobre o
prajnaparamita é um ensinamento sobre a coragem. À medida que deixamos de lutar contra a incerteza e a ambigüidade, nessa mesma medida, dissolvemos nosso medo. O sinônimo de total destemor é completa iluminação – interação sincera e de mente aberta com o nosso mundo. Enquanto isso, treinamos em mover-nos pacientemente nessa direção. Aprendendo a relaxar na ausência de chão, gradualmente nos conectamos com a mente que não conhece o medo.



Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003


(*) Nota do blog: (*) trata-se do Prajnaparamita Sutra, ou Sutra do Coração, e há um livro maravilhoso com o Sutra completo traduzido e comentários por Thich Nhat Hanh, O Coração da Compreensão (Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2000).

12.11.2007

O quanto me falta (VII)



A preguiça é uma característica humana comum. Infelizmente, ela inibe a energia do despertar e mina nossa confiança e nossa força. Existem três tipos de preguiça – orientação ao conforto, perda de entusiasmo e “não ligo a mínima”. Estas são as três maneiras elas quais ficamos presos aos padrões habituais debilitantes. No entanto, explorá-las com curiosidade faz com que seu poder se dissolva.

O primeiro tipo de preguiça, orientação ao conforto, está baseado em nossa tendência de evitar inconveniência. Queremos descansar, nos dar um tempo. Mas tranqüilizar-nos, acalmar-nos se torna um hábito e ficamos exaustos e preguiçosos. Se estiver chovendo, preferimos dirigir por meia quadra a nos molharmos. Ao primeiro sinal de calor, ligamos o ar-condicionado. Na primeira ameaça de frio, ligamos o aquecimento. Dessa maneira, perdemos contato com a textura da vida. Confiamos na “adrenalina” rápida e ficamos acostumados a resultados automáticos.

Esse tipo especial de preguiça pode nos tornar agressivos. Ficamos indignados com a inconveniência. Quando o carro não funciona, quando ficamos sem os serviços de água ou de eletricidade ou quando temos que nos sentar no chão frio, sem acolchoado, nós explodimos. A orientação ao conforto entorpece nossa percepção dos odores, da vista e dos sons. Também nos faz insatisfeitos. De algum modo sabemos, sempre, em nosso coração, que o prazer puro não é o caminho para a felicidade duradoura.




(*) Nota do blog
: para saber mais sobre os outros tipos de preguiça, por favor leia Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam (Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003)

07.11.2007

A chave

A chave é estar aqui, totalmente ligado no momento, prestando atenção aos detalhes da vida normal. Ao cuidarmos das coisas normais – nossos potes e panelas, nossas roupas, nossos dentes --, nós nos rejubilamos com elas. Quando lavamos um legume, ou penteamos o cabelo, estamos expressando apreciação: amizade para conosco e para com a qualidade viva que se encontra em tudo. Esta combinação de consciência plena e reconhecimento nos conecta totalmente com a realidade e nos traz alegria. Ao estendermos atenção e reconhecimento para nosso ambiente e para as outras pessoas, nossa experiência de júbilo fica ainda maior.

Na tradição zen, os alunos são ensinados a fazer reverência para outras pessoas, bem como para objetos comuns, como uma maneira de expressar seu respeito. Eles são ensinados a zelar igualmente por vassouras, vasos sanitários e plantas, para demonstrar sua gratidão para com elas.
[...]

Rejubilar-se com coisas comuns não é sentimental ou trivial. Na realidade, exige coragem. Cada vez que abandonamos nossas queixas e permitimos que a boa sorte do dia-a-dia nos inspire, entramos no mundo do guerreiro.(*)


Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003


(*)Nota do blog: a maneira a qual se refere Pema Chödron ao "guerreiro" não é a usual, mas sim de acordo com o uso que faz desta palavra Chögyam Trungpa, de quem Pema foi discípula. Para ler e entender um pouco mais sobre este conceito de guerreiro, por favor acesse Nosso belo e despido coração , ou por favor leia o maravilhoso livro de Chögyam Trungpa, Shambala, A Trilha Sagrada do Guerreiro (Editora Cultrix, São Paulo, 1997)

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