10.01.2008
Passo a passo
A prática é sobre conectar-se com o ponto sensível de uma maneira que seja real para nós, não sobre fingir um sentimento específico. Simplesmente localize essa capacidade de sentir afeto e a acalente, mesmo se ela oscilar ou refluir.
Antes de iniciar a prática da aspiração, sentamo-nos em silêncio por alguns minutos. Então iniciamos a prática dos sete estágios da bondade amorosa. [...] Depois de fazer essa aspiração para nós mesmos e para alguém a quem amamos com facilidade, passamos para um amigo. Esse relacionamento deveria ser um pouco mais complicado. [...] Podemos ficar quanto tempo desejarmos em cada etapa desse processo sem nos criticarmos se, algumas vezes, acharmos que está artificial ou inventado.
O quarto estágio é cultivar a bondade amorosa por uma pessoa neutra. Esta seria uma pessoa que encontramos, mas que não conhecemos realmente. Não nos sentimos desta ou daquela maneira com relação a esta pessoa. [...] Então observamos, sem julgamentos, para ver se nosso coração se abre ou se fecha. Praticamos tomar consciência de quando a ternura está contida e quando ela está fluindo livremente.
[...] o ponto é considerar todas as pessoas que encontramos como nossos entes queridos. Notando e valorizando as pessoas na rua, na padaria, nos congestionamentos de tráfego e nos aeroportos, podemos aumentar nossa capacidade de amar. Usamos essas aspirações para enfraquecer as barreiras de indiferença e liberar o coração gentil da bondade amorosa.
O quinto estágio da prática da maitri é trabalhar com uma pessoa difícil, alguém que consideramos irritante, uma pessoa que, ao vê-la, protegemos nosso coração com uma armadura. [...]
Os relacionamentos difíceis, por nos desafiarem até os limites de nossa compreensão, são, de muitas maneiras, os mais valiosos para a prática. As pessoas que nos irritam são aquelas que, inevitavelmente, nos arrancam o disfarce. Por intermédio delas poderemos vir a enxergar, com muita clareza, as nossas defesas, Shantideva explicou isso desta maneira: Se desejamos praticar a generosidade e aparece um mendigo, isto é uma boa notícia. O mendigo nos proporciona a oportunidade de aprender a doar. Da mesma forma, se queremos praticar a paciência e a bondade amorosa incondicional, e nos aparece um inimigo, estamos com sorte. Sem aqueles que nos irritam, nunca teríamos a oportunidade de praticar.
O sexto estágio da prática é chamado de “completa dissolução das barreiras”. Visualizamos a nós mesmo, nossos entes queridos, um amigo, uma pessoa neutra e o nosso inimigo – todos, em pé, na nossa frente. Neste estágio, nós tentamos nos conectar com o sentimento de coração gentil para com todos esses indivíduos. [...]
O sétimo e último estágio é expandir a bondade amorosa a todos os seres. Expandimos nossa aspiração até onde conseguimos. Podemos começar com aqueles que estão próximos e gradualmente, alargar o círculo para incluir a vizinhança, a cidade, a nação, o universo. [...]
Ao término da prática da bondade amorosa, abandonamos todas as palavras, todos os desejos e, simplesmente, retornamos à simplicidade não conceitual da meditação sentada.
Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003
(*) Nota do blog: o budismo é essencialmente prático. Para ajudar no exercício acima, proponho complementar com a leitura das postagens Exercícios de compaixão, por Chagdud Tulku Rinpoche, Nosso belo e despido coração , por Chögyam Trungpa, e Bodhisattvas, por Thich Nhat Hanh. E o que mais gostaria é de estimular a prática!
Esta postagem refere-se às anteriores, dos dias 7, 8 e 9. Obrigado.
11:05 Escrito em Prática/Practice | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: meditação, prática quatro incomensuráveis, budismo, bondade amorosa, amor, ódio, Pema Chödrön
09.01.2008
O círculo da bondade amorosa

Algumas vezes nos sentimos bons e fortes. Algumas vezes nos sentimos inadequados e fracos. Mas, como o amor maternal, a maitri é incondicional. Independentemente de como nos sentirmos, podemos desejar ser felizes. Podemos aprender a agir e a pensar de modo que plantemos sementes para nosso futuro bem-estar, tornando-nos gradualmente mais conscientes daquilo que causa felicidade, bem como do que causa aflição.
[...] O primeiro passo para cultivar a bondade amorosa é perceber quando estivermos levantando barreiras entre nós e os outros. Esse reconhecimento compassivo é essencial. A menos que entendamos – de maneira imparcial – que estamos endurecendo nosso coração, não existe possibilidade de dissolvermos aquela armadura. Sem dissolver a armadura, a bondade amorosa do bodhichitta é sempre contida. [...]
Então, treinamos para despertar a bondade amorosa do bodhichitta em todos os tipos de relacionamento, tanto nos de coração aberto quanto nos contidos. Todos esses relacionamentos se transformam em ferramentas, na descoberta da nossa capacidade de sentir e de expressar amor.
A prática formal da bondade amorosa, ou maitri, tem sete estágios. Começamos gerando bondade amorosa para conosco e, então, a expandimos, no nosso próprio ritmo, para incluir nossos entes queridos, os amigos, pessoas “neutras”, aquelas que nos irritam, todos os anteriores, como um grupo e, finalmente, todos os seres através do tempo e do espaço. Gradualmente, ampliamos o círculo da bondade amorosa.
Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003
(*) Notas do blog: iniciei esta linha de raciocínio com a postagem É preciso amar as pessoas, seguida de Uma questão de exercício e O coração, já, e nesta semana As Quatro Incomensuráveis e A prática da aspiração -- reunindo a esta Pema Chödron: Legião Urbana, Trungpa Rinpoche, Carlo Levi, Thich Nhat Hanh e nós. Obrigado.
Foto © Sara Heinrich
10:15 Escrito em Prática/Practice | Permalink | Comentários (1) | Enviar por e-mail | Tags: bondade amorosa, quatro incomensuráveis, prática, meditação, Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam
08.01.2008
A prática da aspiração
A prática da aspiração é diferente de fazer afirmações. Afirmações são como dizer a você mesmo que você é compassivo e corajoso, para esconder o fato de que, secretamente, você se sente um perdedor. Ao praticar as quatro qualidades ilimitadas, não estamos tentando nos convencer de alguma coisa, nem estamos tentando esconder nossos verdadeiros sentimentos. Estamos expressando nossa vontade de abrir o coração e de nos aproximarmos de nossos medos. A prática da aspiração nos ajuda a fazer isso em relacionamentos cada vez mais difíceis.
[...] Não estamos nos forçando a sermos bons. Quando vemos quão frios e agressivos podemos ser, não estamos pedindo para que nos arrependamos. Em lugar disso, essas práticas de aspiração desenvolvem nossa capacidade de permanecer estáveis com nossa experiência, seja ela qual for.
[...] Somos uma pungente mistura de algo que nem é tão bonito, mas que é muito amado. Quer essa seja nossa atitude para conosco ou para com os outros, ela é a chave para que aprendamos como amar.
Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam, Editora Sextante, Rio de Janeiro, 2003
(*) Nota do blog: Esta postagem refere-se à anterior, As Quatro Incomensuráveis. Sigo compartilhando trechos deste livro por achá-lo dentre os mais importantes e prestativos, contundente, lúcido, desmistificador, honesto -- na verdadeira tradição de ensinamentos do mestre Chögyam Trungpa Rinpoche, cujo texto Um faz-de-conta complementa bastante bem esta postagem, e de quem esta autora foi discípula -- e por este livro estar infelizmente esgotado na editora. Desfrutem.
12:10 Escrito em Prática/Practice | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail | Tags: aspirações, maitri, bondade amorosa, amor, coração, Pema Chödrön, Os lugares que nos assustam